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terça-feira, 11 de novembro de 2025

Corrupção e prostituição na capital da República - Por Henry Costa



Editoralitteralux/canto-escuro

“Corrupção e prostituição na capital da República”, dizem alguns blogs. “Trama policial sobre corrupção”, anuncia o Correio Braziliense. São, de fato, temas presentes em Canto Escuro, mas funcionam apenas como invólucros. O que realmente pulsa no romance é o drama do cotidiano — e é aí que Daniel Barros nos surpreende.

 

Ilustração: Andréia Passoa
A narrativa é não linear e dividida em quatro partes. A obra se inicia em um clima de desesperança: Paulo Henrique se vê encurralado em um dédalo de conflitos. Na repartição onde trabalha, a corrupção se alastra, e, apesar de tê-la denunciado a amigos policiais, ele não vê resultados concretos na investigação em andamento. Paralelamente, enfrenta o comportamento obsessivo da esposa, que carrega marcas de um relacionamento anterior conturbado e transfere para o novo casamento medos e desconfianças, como se estivesse destinada a reviver o passado. A depressão que marca essa primeira parte parece não lhe oferecer saída — apenas um caminho sombrio.


 

Ilustração: Andréia Pessoa
A segunda parte retrocede no tempo. Solteiro, sua vida é marcada por farras, bebedeiras e o trabalho no setor de compras e licitações de uma secretaria de Estado — ambiente que poderia se situar em qualquer lugar do país, embora o autor escolha Brasília. Seus companheiros de boemia são dois policiais do Departamento de Entorpecentes, com quem vive sob o signo do hedonismo: festas, prostitutas e noites intermináveis. É nesse contexto que Paulo Henrique começa a desconfiar de irregularidades em processos administrativos. Buscando orientação, é apresentado a Ivan Ximenes, experiente agente especializado em crimes de corrupção na administração pública. Uma das forças do romance está justamente aqui: na habilidade de Barros em construir personagens vigorosos. Ximenes, que inicialmente surge como figura secundária, vai ganhando densidade e protagonismo ao longo da narrativa.

 

Ilustração: Andréia Pessoa
Ao final dessa parte, Paulo Henrique entra em conflito consigo mesmo. As ressacas em lugares desconhecidos, a direção irresponsável, as oportunidades desperdiçadas e o tédio da repartição levam-no a uma resolução: arquitetar algo real e duradouro. Assim, abre-se a terceira parte: casamento, nascimento de um filho, tentativa de reconstrução. Quando os problemas conjugais emergem, ele acredita, ingenuamente, que o tempo resolverá tudo. No entanto, o desgaste se prolonga — tanto no casamento quanto na investigação conduzida por Ximenes. É então que a narrativa retorna ao ponto inicial, encaminhando o leitor à parte final.

 

 É no dia a dia das pessoas comuns que Daniel Barros reafirma seu estilo. Alguns tentam enquadrar seus romances como policiais ou eróticos, mas o essencial está na verossimilhança com a vida: são histórias que nos fazem questionar se a narrativa é ficção ou realidade. E, com uma leve pitada machadiana, o autor de Mar de Pedras nos deixa uma dúvida: Diana Lane Dier traiu ou não Paulo Henrique?

 

Ilustração: Andréia Pessoa
Mais uma vez, Daniel dá vida a personagens que parecem existir fora das páginas — como Carolina em Mar de Pedras e Ivan Ximenes em Canto Escuro. Para quem acompanha sua trajetória literária, o desfecho não deixará de causar impacto: um final tecido com tragédia e desesperança, marca presente em seus três primeiros livros.

Surpreendam-se.


terça-feira, 28 de outubro de 2025

Mandacarus (Patuá 2025) Uma Obra que Surpreende pela Originalidade - Por Daniel Barros.

 

Mandacarus (Patuá 2025) Vendas  


Uma Obra que Surpreende pela Originalidade

 

Por Daniel Barros *

 

Iniciei a leitura com certa reserva. Tendo acabado de ler A Representação Social do Cangaço, de Rosa Maria Bezerra, e Cangaceiros e Pedra Bonita, de José Lins do Rego, receava uma abordagem repetitiva ou convencional do tema, tão marcante no romance dos anos 1930.

 Leonardo Almeida Filho, no entanto, surpreendeu-me com um romance esplêndido. Embora dialogue com temas semelhantes, destaca-se pela escrita original e vanguardista. A obra não apenas revisita o universo do cangaço, mas o faz de modo inovador, propondo novas perspectivas sobre personagens, conflitos e contextos históricos.

 O autor demonstra rara habilidade narrativa, equilibrando rigor histórico e intensidade literária. Cada capítulo revela nuances que desafiam o leitor a pensar além do óbvio, criando uma experiência envolvente e reflexiva.

 Leonardo Almeida Filho também nos leva a refletir sobre nossas origens. O uso de expressões regionais é preciso e abrangente, resgatando termos que se perdem com a globalização cultural. Confesso certa vergonha por tê-los esquecido; o romance os documenta de forma harmoniosa, integrando-os naturalmente à narrativa.

 O vanguardismo do autor se manifesta em capítulos construídos como parágrafos únicos — não por efeito estilístico, mas pela ausência da necessidade de subdivisões, tão comum em textos contemporâneos voltados a linguagens comerciais. Essa estrutura liberta a narrativa de amarras, evidenciando que a verdadeira arte cria, não repete. Em uma perspectiva moderna, pensadores como Jean-Paul Sartre e Albert Camus viam a arte como um ato de liberdade e de criação de sentido em um mundo considerado absurdo; Léo nos mostra que, mesmo em um tema já tão explorado, é possível renovar a experiência de leitura com beleza e intensidade.

Se você, como eu, já leu sobre cangaço, seca e êxodo, e teme a repetição, prepare-se para uma grata surpresa: este livro renova o olhar sobre um tema rico e complexo, impondo-se pela originalidade e força narrativa.

*Romancista, contista, pós-graduado em segurança pública e policial há 28 anos.


sexta-feira, 24 de outubro de 2025

MESA POSTA PRATOS FRIOS

 MESA POSTA PRATOS FRIOS  ( Vendas )




Primeiramente, queria ressaltar a construção de uma narrativa que induz o leitor a “pensar”, e, de certa forma, formular as conjecturas do crime “em conjunto” com os agentes. Como vê-se, por exemplo, na construção do enredo da relação entre os crimes ocorridos – a observação de um modus operandi com regiões de disparos que não podiam ser coincidência, inclusive, regiões que atiradores de elite buscam atingir para evitar reação da vítima, ou seja, quando mais perquirido, a observação de um criminoso metódico e experiente, com habilidades advindas de muito treinamento. Algo que busca o pensamento intuitivo do legente, fazendo este refletir sobre quem cometeu os crimes. Essa narrativa traz à tona uma visão didática do autor (característica docente). O livro, de forma muito fidedigna à realidade policial e que, por ser uma continuação de outro livro, começa em uma situação pós tragédia onde os poderosos deram um recado aos que buscam a justiça pela lei, traz a desconexão com a ideia de uma justiça vendada (imparcial), onde, inclusive é dito no livro, a justiça tem as “mãos livre para desvendarse quando bem queira”. Além do mais, vem também a ideia do pensamento de pessoas corruptas que têm a visão de cidadãos honestos como “oponentes”, ou seja, criando uma divisão entre “nós e eles”, mostrando a ausência de uma consciência de uma só polícia. Percebe-se, também, a covardia dos ratos e a lealdade de companheiros a um policial honrado. Alcides, policial que construiu toda sua história na polícia de forma honesta, tem que tomar uma decisão na qual vai de encontro com seus ideais, pois, ele, um homem que sempre seguiu a lei; que sempre defendera a vida e não a morte, terá que fazer justiça com suas próprias mãos. O livro traz de modo excelente toda a angústia e dúvidas causadas a Alcides após e anteriormente ao primeiro assassinato. Mas, toda o desanuviamento após o segundo ato, muito por conta da ideia de trabalho feito e pelo vislumbre de tempos mais justos, onde aqueles que servem a elite em detrimento do povo sangra.  



Rafael Marinho Cunha de Barros 

Leitor e matemático


sexta-feira, 19 de abril de 2024

Mesa Posta Pratos Frios - CHAME POR SEGURANÇA - pelo Profº Doutor Marcos Fabrício Lopes da Silva*

 CHAME POR SEGURANÇA

Marcos Fabrício Lopes da Silva*


O primeiro parágrafo me disse para continuar na leitura de Mesa posta pratos frios (2023), livro de Daniel Barros:

https://www.editorapenalux.com.br/catalogo-titulo/mesa-posta-pratos-frios
“Uma sombra de dor e tristeza encobria a beleza do entardecer no Planalto Central. A honra e a coragem de um homem o levaram àquele triste momento. Os poderosos deram seu recado às pessoas que buscam, na lei, a Justiça. Interpretações nada imparciais colocaram em liberdade um criminoso contumaz. A Justiça tem venda nos olhos, mas tem, igualmente, as mãos livres para desvendar-se quando bem queira, sobretudo quando os réus são de sua própria casta”. 

Com o auxílio do psicólogo Marco Antônio de Azevedo (PUC-MG), podemos dizer que a narrativa de Daniel Barros nos leva a reconhecer o mundo do crime através de duas perspectivas: a culturalista e a racionalista. A respeito, o autor do estudo Concepções sobre criminalidade e modelos de policiamento descreve: “da primeira derivam políticas públicas destinadas a reduzir a criminalidade através de uma atuação sobre a desorganização social. Na segunda privilegia-se uma estratégia segundo a qual o principal papel do Estado é dissuadir o criminoso da prática delituosa” (VIII Colóquio Internacional de Sociologia Clínica e Psicossociologia, UFMG, julho de 2001). A obra de Daniel Barros ultrapassa o senso comum sobre o universo criminal e os modelos de policiamento, valorizando o difícil debate sobre segurança pública e seu papel na promoção da cidadania. Na trama em destaque, o fazer policial se desdobra complexo e bem distante do paradigma simplório e maniqueísta que divide o mundo em mocinhos e bandidos.

Existem considerações mais pragmáticas que deveriam ser levadas em consideração. O mundo da investigação policial, sob a ótica literária de Daniel Barros, torna-se fator de preocupação e estudo, quer no âmbito da prevenção e repressão aos crimes, quer pelos desdobramentos que suas ações são capazes de provocar. Dentro deste contexto, de violência e risco, como falar do policial sem se remeter à farda que o veste? Como desvinculá-lo da imagem repetidamente explorada, seja ela boa ou ruim, de herói ou de vilão? Como olhar o indivíduo, humano, sem julgá-lo por atos de alguns (poucos ou muitos?), sem recriminá-lo, sem dar a chance de acolhê-lo em seus dilemas? Assim como aquele que pede ajuda, o policial também chora diante do infortúnio, também briga, também grita e também se indigna com tudo o que tira a esperança na dignidade humana. Trata-se de temática bastante instigante, pois nos evidencia o quanto o trabalho do policial depende intimamente, muito mais do que de sua força ou coragem, de condições psicológicas que lhe garantam certo bem-estar diante de tão extenuante tarefa.


Daniel Barros.
Foto: Gabriel Marinho
Daniel Barros dedica atenção esmerada aos policiais que arriscam a vida para cumprir seu dever, apesar do salário baixo, apesar da imagem deteriorada da corporação, a despeito da vergonha que os companheiros corruptos lhes causam e da profunda miséria humana que lhes cavam um buraco na alma. Mesa posta pratos frios nos lembra sobre o papel que se espera da polícia na preservação da ordem pública, incluindo a incolumidade das pessoas e do patrimônio, como também, e principalmente, assegurando e promovendo o respeito à dignidade da pessoa humana. A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 144, defende tais princípios e nos faz acreditar que os direitos e garantias fundamentais dos indivíduos, ao contrário do dito comum, não embaraçam as ações policiais, mas as norteiam e as legitimam. 

Em razão da relevante função que as polícias cumprem, a busca da segurança pública e a busca da cidadania plena deverão constituir um projeto solidário do poder público e da sociedade. Para tanto, como salienta o livro de Daniel Barros, convém reconhecer a complexidade, a heterogeneidade, a diversidade e a incerteza que afetam diretamente o desempenho dos serviços policiais. Não à toa, a insegurança que atravessa o Brasil é sentida por todos os ramos da sociedade, motivo este que vem refreando o país em seu desenvolvimento econômico e cultural. Apesar dos pesares, ainda se vê na justiça o último refúgio de um ideal democrático desencantado (Antoine Garapon, O guardador de promessas: justiça e democracia, 1998).

As polícias representam o início do enfrentamento aos atos ilícitos. Em seguida, estão o Ministério Público e o Poder Judiciário. O Poder Legislativo também exerce o seu papel, pois tem condições de criar leis, sugerir ações das instituições e promover o debate sobre a violência. Destacando a natureza multidimensional do trabalho policial, Mesa posta pratos frios cirurgicamente destaca: as deficiências das atividades de investigação e inteligência policial estão entre os principais problemas do sistema de justiça criminal. Em momento quente da obra, a discussão entre o investigador Ximenes e o delegado Guilherme Lourenço gira em torno da distância entre a criminalidade detectada e a investigada: “— Essa sua pressa é que fode tudo – disse Ximenes. — Investigação requer paciência e observação de detalhes. Com afobação não enxergamos as nuances das coisas. Já perdemos muito tempo nesse inquérito e tempo é ouro num crime de homicídio”


Em outras palavras, a investigação policial consiste em um trabalho que deve ser efetuado de forma eficiente e eficaz para que haja consequências efetivas em termos da garantia de segurança pública. Mas não são apenas estes aspectos técnicos que estão em jogo. No enfrentamento da violência, tanto dentro como fora do corpo policial, os fundamentos éticos devem orientar a melhor conduta. Conforme expressa o ideal de Ximenes, no epílogo de Mesa posta pratos finos: “A polícia tem que ter independência. Alcides, você sabe muito bem disso. Temos que trabalhar para a sociedade e não apenas para a elite”


* Jornalista pelo UniCeub. Doutor e Mestre em Literatura Brasileira na UFMG, onde integra o Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Alteridade, da Faculdade de Letras. Poeta e autor do livro Machado de Assis, crítico da imprensa (Outubro Edições, 2023). É professor autônomo e pesquisador independente.



sexta-feira, 11 de março de 2022

Fuligem de E. E. Postali - por Daniel Barros

Fuligem de E. E. PostaliLiteratura policial Um livro bom, gostoso e cativante. Os personagens nos conquistam desde o início. Temos vontade de conhecer o boteco em Porto Alegre e ir lá beber com eles. 
Evelyn E. Postali se destaca como uma das maiores escritoras, entre homens e mulheres, de literatura policial da atualidade. Com um enredo muito bem alinhavado não deixando nenhuma ponta solta, Fuligem (Editora Caligo- 2021) é construído pela autora de forma que possibilita ao leitor atento, vislumbrar e compor sua própria lista de suspeitos, diferente das narrativas de Agatha Christie em que não é dada essa oportunidade e, ao final, o assassino surge do inexplicável. Neste livro as pistas são postas ao nosso dispor. 
Mais uma vez Evelyn me surpreende, foge dos personagens clássicos e confere aos seus, um perfil humanizado. São policiais, jornalistas e pessoas comuns, que podem ser encontradas em qualquer lugar do  universo policial. Virtudes, defeitos e contradições corriqueiras de nossas vidas são neles encontradas. 
Por fim, Fuligem é apresentado a mim como um dos melhores ou o melhor livro policial que li nos últimos anos, o que me faz lembrar o mestre Leonardo Padura (escritor cubano) admirador confesso de Rubem Fonseca. Escreve com uma linguagem simples e direta na elaboração de tramas, porém ricas e sofisticadas do ponto de vista da ficção policial. Com certeza E.E.Postali terá lugar de honra na galeria de grandes escritores do gênero.
Escritor e professor da Escola Superior de Polícia Civil/DF

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Alexandre Santos - Daniel Barros na vanguarda da nova arte literária -

 Daniel Barros na vanguarda da nova arte literária

Alexandre Santos *

Daniel Barros



Estamos prestes a viver um novo momento da arte. 

Desde o ano passado, com o advento da pandemia do novo coronavírus, muita coisa mudou e vem mudando neste mundo de Deus. Basta olhar em volta para se perceber a mudança. O guarda-roupa das pessoas introduziu a máscara na indumentária do dia-dia; o uso dos aparelhos, aplicativos e programas de conectividade foi intensificado para movimentar agendas de trabalho e de lazer, mobilizando pessoas que, mesmo sentindo falta do olho-no-olho, dos beijos e dos abraços só possíveis os encontros presenciais, terminam por admitir a comodidade e a segurança das reuniões remotas; o convívio vem sendo desfalcado pela ausência das pessoas convertidas pelo vírus mortal em sofridas lembranças póstumas de amigos e parentes ou em números nas frias estatísticas do desastre; mesmo desrespeitadas por muitos, a ciência e a tecnologia deram provas da sua capacidade de enfrentar catástrofes e de criar drogas, vacinas e defensivos sanitários contra as ameaças; a Humanidade perdeu mais uma grande oportunidade de dar chance à solidariedade frente ao egoísmo e os desníveis sociais e econômicos recrudesceram, tornando ricos mais ricos e pobres mais pobres; os lockdows, eventualmente determinados pelas autoridades, deixaram de ser novidade, esvasiando ruas e fechando lojas. Coisas como estas se incorporaram ao cotidiano, levando a que, com razão, muitos afirmem que, estabelecido um Novo Normal, o mundo jamais voltará a ser como era. 

Ora, se o mundo jamais voltará a ser como era, por que a Arte continuaria a ser a mesma ou, mais ainda, [por que] os artistas se manteriam inertes diante das mudanças, assistindo o passar da história, como se nada estivesse acontecendo? Na realidade, ao impor graves ameaças à vida e à liberdade - grandes motores da criatividade artística -, a pandemia instiga os artistas, impulsionando-os a criarem novas fórmulas e novas formas de descrever o mundo (tal como lhes parece ou como gostariam que [ele] fosse). Aliás, o Novo Normal - que, com diferentes graus de intensidade e de clareza, percebemos à nossa volta - compõe o caldeirão do qual emerge um novo momento da Arte, o qual, por sua vez, o realimenta [o caldeirão], contribuindo para embalar um movimento dialético de desenvolvimento cultural.

Vendas

Não há dúvidas de que estamos diante de um novo momento da Arte. Um momento - que, considerando a forma abrupta e revolucionária como está ocorrendo e, sobretudo, [considerando] a forma como artistas estão reagindo e inovando sua produção artística - marca o início de um novo Modernismo. Neste ponto, vale a observação de que, mais do que um estilo, o Modernismo é um comportamento - o comportamento daqueles que, estabelecendo um marco do tipo antes-e-depois, passam a descrever o mundo de forma inovadora, com níveis próprios de radicalidade, mas, seguramente, diferente da forma como era feito antes. Aliás, o artista modernista não se enquadra no regime da evolução bem comportada observada nos tempos normais, pois, contrariando o modelo dialético de desenvolvimento, pratica a revolução, queimando etapas para romper com o passado (que pode ter ocorrido na véspera), provocando, assim, significativo efeito no desenvolvimento da arte. 

Ainda é cedo para especulações sobre as características do novo momento da arte - se vai ser saudosista para lembrar os tempos de antes da pandemia, se vai ser futurista para antecipar o pós pandemia, [se vai ser] mórbido em reflexo às vidas arrancadas pelo vírus, se vai homenagear a sobrevivência daqueles que escaparam da doença, [se vai] valorizar as linguagens híbridas e dar mais destaque às plataformas tecnológicas; tudo é possível. Certo, no entanto, é que alguma coisa vai aconhecer (e já vem acontecendo) no mundo da arte. 


Na realidade, de tão revolucionários, alguns artistas sequer esperaram pela pandemia para dar primeiros passos nesta nova onda modernista e, antecipando os tempos (como os artistas sempre fazem), começaram a introduzir modificações expressivas nas formas e nas fórmulas das obras artisticas. À propósito, tenho em mãos a 2ª edição do romance 'Enterro sem defunto', do experimentado escritor Daniel Barros, publicada pela Penalux neste 2021, que, pela forma inovadora como apresenta o enredo, o insere na vanguarda deste novo momento da arte. 

Não me refiro à linguagem ágil como 'Enterro sem defunto' é escrito e que faz o leitor devorar o livro em poucas leituras, [não me refiro] ao conteúdo intrigante que desperta o interesse [do leitor] em todas as suas páginas, [não me refiro] às estocadas dadas no modelo politico e econômico que sustenta injustiças sociais, [não me refiro] ao título instigante que prontamente leva as pessoas a imaginar possibilidades, nem, mesmo, à capa que reflete a tensão insinuada por ele [pelo título]. Me refiro à forma como o tema do livro é desenvolvido. Com efeito, desde o início, 'Enterro sem defunto' se bifurca em enredos harmônicos e complementares, dispostos em capítulos que se coleiam e intercalam, dando substância à história que converge para um final surpreendente e que lança as bases para uma possível continuação. 


Dando um belíssimo toque de inovação, ao contrário das obras literárias escritas no gênero Romance, na prática, 'Enterro sem defunto' é formado por dois livros, que se apresentam de forma junta e misturada, relatando histórias que, embora tenham vida própria, se articulam para formar uma única peça literária, cuja exata compreensão dependende da leitura conjunta dos textos que a integram. Nesta perspectiva, além de ser um grande livro, capaz de proporcionar bons momentos de entretenimento e, mesmo, de reflexão, 'Enterro sem defunto' é uma peça literária inovadora, que acrescenta ingredientes importantes ao grande cardeirão no qual borbulham as ideias de inspiração de uma nova fase da arte.

'Enterro sem defunto' é um livro que se insere no movimento das novidades artísticas e coloca Daniel Barros na vanguarda da nova onda modernista que está vindo por aí.



Alexandre Santos é ex-presidente da União Brasileira de Escritores (UBE) e coordenador nacional da Câmara Brasileira de Desenvolvimento Cultural

domingo, 13 de setembro de 2020

Canto Escuro por Isaac Soares de Souza


 Canto Escuro, livro de Daniel Barros indicado ao Prêmio Internacional Latino Book Awards/Award Winning Author, embora eu não tenha conhecimento dos nomes e nem dos títulos de outros livros e autores indicados ao prêmio, certamente, se eu compusesse o júri julgador, outorgaria nota 10 e indicaria como laureado, este Canto Escuro.

A história de Paulo Henrique, entremeada de surpresas e de coisas tão banais e do cotidiano de qualquer pessoa, romanceada de forma tão intrínseca, que os leitores têm, assim que inicia a leitura deste romance, a inevitável ligação direta com o personagem. O livro é capaz de prender o leitor desde a primeira página até o final do romance. Li de uma tacada e me impressionei com os rumos que o personagem trafega desde o princípio da história, que poderia ser a mesma vivida por qualquer um de nós. Trama, aventura e a verdade sobre os caminhos podres da corrupção e do desvio do dinheiro público, que o personagem, imbuído de honradez pessoal e profissional, recusa-se a aceitar e a fazer parte do enredo nefando, decide, sorrateiramente, denunciar e arcar com as consequências. 
Ilustração do livro: Andréia Passoa 

Quem não se adéqua às intempéries que uma denúncia pode trazer, permanecerá sem fôlego e com o coração batendo disparado durante a leitura deste excelente livro, enganchado e sem poder desvencilhar-se da leitura das 242 páginas de aventuras e suspense que envolvem os personagens. A vida é mesmo um Canto Escuro, qualquer um de nós, ao passar por um trajeto durante nossa vida, que é entremeada de Cantos Escuros, poderá, inadvertidamente, pisar em um prego enferrujado ou num tolete de merda, molhar os pés na aguaceira de algum esgoto a escorrer e mesmo pisar levemente e acabar tateando desgostos ou alegrias durante o nosso percurso pelos Cantos Escuros do cotidiano. História policial eivada de erotismo e humor negro e que culmina adentrando ao portal do casamento do personagem com uma mulher que ele amava até as últimas consequências, o que o levou a um atávico caminho, fazendo com que ele fosse controlado pelo ciúme doentio da esposa e passasse até mesmo a anular sua vida por ela. Fato que ocorre cotidianamente com qualquer homem, mas que não o impede de acabar com tudo de um dia para o outro, quando percebe que sua liberdade está por um fio e a sabedoria de que precisa desvencilhar-se logo desses laços que o levarão à loucura e ao fatal desespero, às vezes transformando-o num feroz criminoso. Canto Escuro é uma obra que levará o leitor a descobrir facetas próprias e engavetadas na alma, tão comuns aos cidadãos normais e que permanecem, por receio de parecer animalesco ou louco, segredadas no âmago e nas aparências. Ficção policial com enredo que flui de maneira livre e que determina em que Canto Escuro podemos tatear sem o risco de ser surpreendido por um escorpião, mas que, ao saber conduzir os passos por Cantos Escuros, aprendamos a trafegar sem tropeçar no Canto Escuro que é a vida.
 

Isaac Soares de Souza
Escritor










https://www.editorapenalux.com.br/loja/canto-escuro


quinta-feira, 4 de junho de 2020

CANTO ESCURO, livro de Daniel Barros que clama por luz em tempo de obscurantismo - Por Ivan Marinho


AST Misto Quente - Daniel Barros
 CANTO ESCURO, como denuncia o título, se quer menos tangível que ações e resultados de “corrupção e prostituição na capital da república”, como dizem os blogs literários, ou simplesmente uma “trama policial sobre corrupção”, como apostou o Correio Brasiliense. Daniel Barros dialoga com a história em sua própria narrativa, transmitido para ele, de forma quase visceral - o que nos faz lembrar Bukowski – o drama da condição humana, a perplexidade frente a realidade, a busca de uma natureza que não está no passado, e... como se não o coubesse impor um ponto final a uma ficção, mantem-se fiel a esta realidade eternamente processo, eternamente construção, eternamente indesvendável. 

O romance Canto Escuro tem em sua personagem central, o funcionário público Paulo Henrique, o eixo mediador do mundo real e do mundo ideal. Valendo-se de um percurso narrativo não linear, onde joga com o tempo antecipando, na primeira parte, uma espécie de “sursis” existencial, expressando a indefinição de condições em que se vê sem saída, no trabalho, diante da descoberta de fraudes em licitações e, em casa, perante uma relação neurótica, nascida da busca romântica de estabilidade e sentido para a própria vida. Esta busca do eterno se justifica na segunda parte do livro, quando Daniel regressa à juventude hedônica de Paulo Henrique junto a amigos, dentre os quais dois policiais. Naqueles momentos, revela-se um traço comum de outras personagens do escritor alagoano, o erotismo e o alcoolismo boêmio que, naquelas circunstâncias, acrescidas pela perda de tempo e de oportunidades, deslocam o protagonista do plano etéreo da la petite mort para o da expectativa de algo que se prometesse duradouro, sólido. O drama da vida familiar é compensado por sua retidão profissional, que vislumbra o bem comum e pelo afeto social extrafamiliar que lhe é favorável, assim o livro se constrói com a construção de outras personagem que reafirma a intenção do autor em suscitar a existência da ética dentro do caos e culmina com duas soluções que apontam, do ponto de vista da satisfação do leitor, para a realização de Paulo Henrique, o desvendamento da corrupção que havia denunciado e o acidente da mulher que, em passagem sutil do enredo, deixa a sombra de uma possível traição, não elucidada propositalmente por Daniel Barros, escritor apaixonado pelas tramas machadianas.
Canto Escuro, como toda literatura deste autor, combina facetas que transitam entre o real e a fantasia, mas com um foco claro na defesa do compromisso ético com o bem social, na relação com o trabalho e com os parceiros, revelando alter egos como o do Ximenes, um policial honesto e competente que, para nós mais próximos ao escritor, reflete a própria existência de Daniel Barros em sua trajetória profissional como policial, filho e irmão de policiais que foram e são exemplos irretocáveis de compromisso com a justiça. 


Ivan Marinho
é escritor e professor especialista em Economia da Cultura.





domingo, 15 de dezembro de 2019

Canto escuro - por Tércio Ribas Torres



Canto Escuro traz a história de um homem angustiado entre as pressões familiares e profissionais. Paulo Henrique, o personagem principal, é um funcionário público que se vê envolvido em uma trama de corrupção. Na luta pra se manter honesto, pra ser um bom marido e um bom pai, às vezes ele precisa se refugiar em um canto escuro. Essa luta vale a pena? A resposta você vai encontrar no livro de Daniel Barros.
História interessante e envolvente! Parabéns, amigo! 
Tércio Ribas Torres - Escritor

terça-feira, 30 de julho de 2019

Canto escuro - Por Raphael Prestes

https://www.editorapenalux.com.br/loja/canto-escuro
Como não se interessar de imediato por uma leitura carregada de um tema tão atual, como a corrupção de agentes públicos? ‘Canto Escuro’, obra do autor Daniel Barros, não deixa dúvidas de que a literatura nacional é representada por gênios. Escrevo minhas impressões sobre esse livro ainda com o coração comovido pelos sentimentos que as palavras dele me causaram. O início do livro começa quase que pelo final, me deixando completamente preso à narrativa (como curioso compulsivo que sou).
Um servidor público, chamado Paulo Henrique, lotado no setor de compras de um órgão governamental, se vê inconformado ao se deparar com um esquema de corrupção, que futuramente se mostrará muito maior do que se aparenta inicialmente. Procurando assim, as autoridades competentes para investigação do caso. Em paralelo, há um enfoque muito grande na vida pessoal de Paulo, que nem sempre apresenta o mesmo comportamento idôneo da vida pública, no que diz respeito aos seus relacionamentos amorosos. Essa obra me fez perceber o óbvio, somos todos seres humanos sujeitos a erros e acertos na vida. 
Alguns romances acontecem no decorrer do tempo com Paulo. Prostitutas que se encantam com seu jeito viril, mas ao mesmo tempo empático e sensível. Uma agente pública, noiva de outro homem, que se apaixona por seu lado romântico, declamador de poesias clássicas. E por fim, apaixona-se por Diana, mulher ciumenta e possessiva, já esboçando sinais de tal comportamento durante o namoro, mas relevados por Paulo, pois estava cansado de levar uma vida superficial, regada por muito álcool e sexo casual.
As investigações sobre o caso de corrupção denunciado se prolongam no tempo, e nesse ínterim, Paulo casa-se com Diana, com quem tem um filho. Mas o matrimônio idealizado por ele vai por água abaixo, à medida que o ciúmes de sua esposa só piora, sem contar o tratamento de indiferença da mulher com o próprio filho.
Quando um policial infiltrado na organização criminosa é morto, as coisas ficam tensas. O estresse causado pela situação é transmitida com intensidade pelo autor, como se vê no episódio quando Paulo está na copa da repartição pública, com lágrimas nos olhos, recebendo uma xícara de chá e um beijo na testa de uma senhora, responsável pela limpeza local.
No desfecho, quando os responsáveis são presos, a sensação de alívio e satisfação de dever cumprido nos invade. Talvez pelo que vivenciamos todos os dias ao ligar a televisão e abrir os sites de notícias, quando nos deparamos com tanta corrupção.
Paulo Henrique precisa lidar com situação que nos levam a uma reflexão profunda sobre a vida e os sentimentos que ela traz. A exemplo de quando ele decide se separar da mulher problemática, então esta abandona o filho, simplesmente deixando um bilhete na porta de casa. Horas mais tarde, enquanto comemorava o Êxito das investigações criminais, Paulo recebe a notícia de que Diana estava morta, vítima de um acidente.
Este livro é intenso, no sentido de que a cada página você se depara com um sentimento diferente, podendo ser o humor, raiva, tesão, inconformismo, tristeza, etc.; entretanto, nunca o tédio.

Raphael Prestes 

Obs: A publicação origianl foi feita no blog: https://rjprestes.blogspot.com/2019/05/minhas-impressoes-do-livro-canto-escuro.html, Infelizmente e não sei o motivo foi bloqueada no facebook, por isto republico aqui. 

quinta-feira, 4 de julho de 2019

A máscara de Flandres - por Daniel Barros

A MÁSCARA DE FLANDRES

DANIEL BARROS*

     A máscara de Flandres, Editora Giostri, 2017, 188 páginas, da escritora Cristiane Krumenauer nos apresenta um enredo bem construído, narrativa composta com esmero e uma história que se passa em duzentos anos, o que nos proporciona uma longa viagem. 
Tudo tem início no século XIX, quando Geraldo Medeiros, filho de um Barão do café em uma pequena cidade do interior de São Paulo, torna-se o perpetrador de uma série de crimes praticados contra negras escravas. Não lhe bastava matá-las, havia ainda que torturá-las e estuprá-las. Ora, caro leitor, não é preciso dizer-lhe qual a punição recebida pelo jovem sinhozinho, pois se, nos tempos de hoje, há quem defenda a tortura e não seja execrado, imagine naquele tempo. 
     Já no século XXI, a autora nos apresenta Alice Stoifeld, investigadora dedicada, que sofre preconceito machista de seus pares e superiores na delegacia onde trabalha. Certa manhã, Jackson, um policial militar, único com quem a policial tem uma boa relação, leva-lhe a notícia de um possível arrombamento no museu da cidade, a antiga Casa-grande da família Medeiros que, com o passar dos anos e pela ampla repercussão dos crimes ocorridos lá, tornou-se palco onde eram exibidos os instrumentos utilizados por Geraldo Medeiros na morte e tortura de suas vítimas, bem como toda a história por ele mesmo narrada, em um volumoso diário de capa de couro. Um ponto forte na construção narrativa de Krumenauer é uma história dentro de outra história, como se lêssemos dois livros que se entrelaçam para compor um único e belo enredo. Ao diligenciar o museu para verificar o suposto crime, Stoifeld constata, para sua surpresa, que houve o furto de todos os instrumentos de tortura e também do monstruoso diário; porém mais nada foi levado, apesar de relíquias valiosas constarem do acervo daquela entidade. E, enquanto o delegado, o prefeito e a curadora do museu se preocupavam com a ação de “vândalos”, a jovem investigadora com aguçado tirocínio policial, apesar da pouca experiência, tinha outros temores... entre os quais, que surgisse, dois séculos depois, outro “Geraldo Medeiros”. 
Cristiane Krumenauer
     Todos os elementos para um clássico policial estão presentes no enredo, mas Cristiane não é uma simples escritora e mais uma vez nos surpreende. Paralela à investigação do furto e de suas consequências, a autora mostra a vida pessoal da investigadora Alice Stoifeld, seus anseios e conflitos, fato que traz o leitor para dentro da história, além de proporcionar uma forte empatia com a personagem, o que foge dos clássicos e distantes investigadores do passado, onde os protagonistas figuravam como verdadeiros heróis, quase inatingíveis. 
     Por fim, caro leitor, apenas algo chama atenção negativamente: a péssima edição da Editora Giostri. Uma edição em letras miúdas e que, apesar da riqueza do enredo, poderia inspirar uma belíssima capa, mas, ao contrário, oferece-nos uma capa opaca e de difícil compreensão. Tal edição pode até afastar leitores menos experientes, ao se depararem com o presente volume. Entretanto, não conseguirá tirar a magia da criação literária que nos oferece Cristiane Krumenauer. Não tenho dúvidas de que A máscara de Flandres terá lugar de destaque em sua biblioteca, na estante de romances policias. 
Boa leitura!
*Romancista, contista, pós-graduado em segurança pública e policial há 22 anos


terça-feira, 11 de junho de 2019

Mar de Pedras por Wil Prado

Acabo de ler “Mar de Pedra”: leitura fácil e fluente, enredo ágil e bem estruturado, com cenas sensuais de corar aos mais púdicos, mas que só enriquecem a trama instigante. 
Ressalto ainda a denuncia social: mazelas antigas que, infelizmente, ainda persistem nos dias atuais. Não importa: o dever do artista é denunciá-las. Como diz o dito: “Quem cala, consente.”
Wil Prado 
Escritor - Autor de Sob as Sambras da Agonia

sexta-feira, 10 de maio de 2019

CANTO ESCURO: UMA HISTÓRIA PARA ALÉM DAS INVESTIGAÇÕES - Corrupção e prostituição em Brasília são temas em novo romance policial do escritor Daniel Barros

CANTO ESCURO: UMA HISTÓRIA PARA ALÉM DAS INVESTIGAÇÕES

Corrupção e prostituição em Brasília são temas em novo romance policial do escritor Daniel Barros



No dia 14 de maio, em Brasília, o escritor Daniel Barros lança seu mais recente livro: o romance Canto Escuro. 
Desde Mar de Pedras, seu romance anterior publicado há quatro anos, o autor vinha se dedicando a essa nova trama. “Disse para mim mesmo”, comentou o escritor em recente entrevista, “que se este não fosse meu melhor livro, eu não o publicaria”.
 Diferente dos livros anteriores, Barros admite que este romance tem um enredo mais denso, menos agradável ao leitor que busca apenas o entretenimento na experiência da leitura. Nas palavras do autor, não se trata de um livro “difícil de ler”, mas de uma narrativa que provoca inquietações e, é bom que se diga, reflexões meio amargas.  
 “É a visão de um homem que vê o mundo à sua volta se esboroar aos poucos, ao se deparar em sua repartição com um suposto esquema de corrupção”, adianta Barros. “O personagem se sente impotente diante dos fatos e descrente com o rumo dos acontecimentos. Paralelo a esse processo, ele vê seu casamento ruir e sua vida ir perdendo o sentido”.
O autor também se orgulha de ter se empenhado e não medido esforços para lapidar o livro ao longo dos quarenta e oito meses que abrangeram sua gênese e produção. “Não me poupei. Busquei cortar cada excesso, cada gordura, cada desejo de panfletar, evitando assim deixar o autor transparecer mais do que os personagens”, conclui.


Referências:
Na orelha do livro, a autora Cristiane Krumneauer destaca: “Quem conhece a ficção policial de Daniel Barros, sabe que ele tem tanta fluidez no discurso que acaba indo além das investigações do crime. A descrição detalhada da cena inclui desde o toque na textura lisa da parede à cortina que balança com suavidade ao vento, ou até o palpitar aflito do coração da personagem, prestes a ser flagrada. O romance, dividido em partes, não é linear, o que deixa a leitura mais instigante. O leitor vê, com olhos curiosos e atentos, que essas partes se complementam, oferecendo respostas às lacunas propositalmente jogadas ao ar. Integridade e corrupção; ficção e realidade, dualidades que fazem parte do nosso dia-a-dia e que estão presentes neste estupendo romance. Uma realidade nem sempre sedutora, mas que prende o leitor do começo ao fim, retratada com maestria”. 
Amanda Pessoa é outra autora que evidencia as qualidades deste romance. No texto de quarta capa, ela diz: “Em Canto Escuro, a história de Paulo Henrique é contada de maneira tão pungente, que a identificação do leitor com ele é inevitável, para o bem e para o mal. Suas falhas, suas vontades, seus desejos, são todos retratados de forma exageradamente humana e o leitor se sente convidado para acompanhar todas as situações pelas quais ele passa, ainda que não aprove os meios que ele usa para alcançar alguns fins. O enredo de Canto Escuro é construído de forma a impactar quem lê, algo que acontece com maestria - a vontade de ser mais específica é grande, mas seria um pecado tirar de você, colega leitor, a chance de descobrir facetas humanas presentes na nesta obra e que são vistas em tantas pessoas, mas na maioria das vezes negadas”. 

Segue abaixo um trecho do romance:

– Boa noite, doutor Paulo Henrique. Vai fazer serão?
– Pois é, ia levar trabalho para casa, mas resolvi terminar aqui mesmo. [...] Eu te aviso quando estiver de saída.
– Não precisa. Daqui vejo a luz da sua sala. Quando o senhor apagar, saberei que tá saindo. Bom trabalho, senhor. 
E dessa forma o vigilante acabou alertando Paulo Henrique, que não se lembraria de acender a luz de seu escritório antes de ir para a sala da diretora. Correu para sua sala, acendeu a luz e demonstrando normalidade apareceu na janela, de onde pôde ver e acenar para o vigilante lá embaixo. Mais rápido ainda chegou à direção, por hábito, quase acendeu a luz, mas se conteve. Por sorte, Miriam era uma secretária atenciosa e havia fechado as cortinas do escritório, o que facilitaria o uso da lanterna sem despertar suspeita com os clarões. Abriu a bolsa com os apetrechos e começou a montar o equipamento. Suas mãos suavam e de imediato se arrependeu de não ter tomado uns tragos antes para se acalmar. [....] Ainda tomou cuidado para que o facho da lanterna não fosse em direção às janelas. Não podia demorar muito, pois o vigilante poderia mudar de ideia e resolver realizar a ronda com ele ainda no prédio. Terminado o trabalho, verificou se tudo estava em ordem. Trancou o escritório e desceu para apagar a luz da sua sala. Já no elevador lembrou: “Puta-merda! Esqueci a pasta!”. Imediatamente começou a apertar os botões do elevador para ele parar em algum andar antes do térreo. Finalmente, parou; ele saltou e correu pelas escadas. No andar térreo, o vigilante, ao ver que o elevador descia, dirigiu-se para a porta para recepcionar Paulo Henrique. Para a sua surpresa, o elevador estava vazio. 

Sobre o autor:
Daniel Barros nasceu a 4 de outubro de 1968, na cidade de Maceió, estado de Alagoas, filho de um oficial da Polícia Militar de Alagoas, Ivan Marinho de Barros, e da professora Maria Tereza Costa de Barros. É engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal de Alagoas (1992). Em Brasília, onde reside desde 1998, pós-graduou-se em Segurança Pública, área em que atua profissionalmente há vários anos.
Foi colaborador, como fotógrafo, de O jornal e Gazeta de Alagoas. 
É autor dos romances O sorriso da cachorra (2011) e Mar de pedra (2015), ambos pela editora Thesaurus. Participou das coletâneas Contos Eróticos, Enquanto a noite durar  (contos sobrenaturais) e Os bastidores do crime (contos policiais, livro do qual foi organizador). Integra as antologias poéticas Sombras & desejos, Toda forma de amor e  Confissões
É membro do sindicato dos escritores DF.

Serviço:
Canto escuro, romance (244 p., 42 reais). Daniel Barros – Editora Penalux.
Disponível em:
www.editorapenalux.com.br/loja/canto-escuro

Lançamento: Dia 14 de maio, às 19h, no restaurante Fausto & Manoel, em Brasília/DF.