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terça-feira, 30 de maio de 2017

UMA OBRA EM VERDE MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA - João Carlos Taveira


Em meados do século XIX, o naturalista britânico Charles Robert Darwin alcançou fama ao convencer a comunidade científica da ocorrência da evolução das espécies e propor uma teoria para explicar como ela se dá por meio da seleção natural. O mundo, perplexo, demorou um pouco para absorver tamanha ousadia. Mas acabou cedendo em sua resistência, para a felicidade geral das nações.

Editora Kiron 
Hoje, um século e meio depois, o ecossociólogo Eugênio Giovenardi propõe uma teoria semelhante, em termos científicos e revolucionários. Uma Obra em Verde (2015) está para o futuro da vida no planeta como A Origem das Espécies (1859) está para a compreensão da vida em todas as suas dimensões. E não há nisso nenhum exagero.

Diante da evolução dos meios de produção e dos avanços tecnológicos, não existe mais espaço para abstrações como “quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?”. A questão agora é outra. Como o homem irá sobreviver junto às outras espécies, sem exterminá-las? Como irá garantir vida ao solo e à água, sem preservar rios, nascentes, árvores, florestas? Como haverá de lidar com a superpopulação e a escassez, sem destruir a vida de seus semelhantes com atitudes cada vez mais tacanhas e irracionais?

Se Darwin introduziu a ideia de evolução a partir de um ancestral comum, por meio da seleção natural, e esta se tornou a explicação científica dominante para a diversidade de espécies na natureza, Eugênio Giovenardi está a nos dizer a plenos pulmões que, mesmo diante das dificuldades de aceitação e respeito à ecocomunidade, é possível salvar o homem que caminha a passos largos rumo a sua própria extinção.
Eugênio Giovenardi

Uma Obra em Verde é uma proposta ousada, porém simples, que deve figurar urgentemente como manual de sobrevivência em todas as comunidades leigas e científicas. E é, antes de tudo, o testemunho de um homem que, em mais de quarenta anos, vem observando, estudando e respeitando a vida em suas mais diversas manifestações, e agora quer compartilhar conosco as suas preocupações legítimas com relação ao futuro das espécies.

E Eugênio Giovenardi também nos diz que a Terra, apesar de tudo, continuará girando a trinta quilômetros por segundo em volta do Sol, independentemente do homem, que poderá estar aqui ou não.


Brasília, 11 de setembro de 2015.   


João Carlos Taveira
* João Carlos Taveira é poeta e crítico literário, autor de vários livros publicados, entre os quais Arquitetura do homem (poesia) e A arquitetura verbal de Nilto Maciel (fortuna crítica). Em 1994, recebeu do Governo do Distrito Federal a Comenda da Ordem do Mérito Cultural de Brasília. E em 2002 foi eleito para a Cadeira n.º 26 da Academia Brasiliense de Letras, cujo patrono é o poeta simbolista Cruz e Sousa.



domingo, 28 de maio de 2017

PEQUENA RESENHA LITERÁRIA - Daniel Barros

PEQUENA RESENHA LITERÁRIA



Daniel Barros*


       
Nilto Maciel
Hoje tive a grata surpresa de receber novo livro de Nilto Maciel – Gregotins de desaprendiz –, que me deixou ansioso para ler. O último que li foi MENOS VIVI do que fiei palavras, livro que me encantou e me surpreendeu. Como o próprio Nilto diz, e concordo com ele: “Gosto de surpresas...”, referindo-se a um romance que lia no momento, e que não a estava encontrando no tal romance.
       Acredito que MENOS VIVI do que fiei palavras é um livro que deveria ser lido por todos que pretendem se tornar escritores. Acho que não foi esta a intenção dele, mas à medida que comenta outros autores, dá uma lição de como escrever um bom livro, é evidente. Mais uma vez concordo com Nilto: “... arte não se aprende. É talento, vocação, inspiração, predestinação. Seguidos de aprendizado, paciência, trabalho, dedicação.” Estão servidas as suas “dicas” a este segundo momento do trabalho.

       Foram muitos os momentos em que me identifiquei com o autor em seus relatos, o que me deixou menos desamparado, menos só, como na seguinte passagem: “A leitura para mim ocorre, fundamentalmente, por dever (de escritor) e por falta de ocupação melhor. Para renovar a literatura, é preciso ler muito.”
       Sem dúvida, como bem diz o poeta João Carlos Taveira, Nilto Maciel é um dos escritores mais completos da moderna ficção brasileira, como também o foram Graciliano Ramos, Machado de Assis, entre outros mestres da nossa literatura.

*Daniel Barros é autor do romance O sorriso da cachorra Editora Thesaurus 2011, Enterro sem defunto, LER editora 2013, Mar de pedras Thesaurus 2015.



sexta-feira, 26 de maio de 2017

Palavra do Editor - Abril de 2017 - Arisson Tavares


Nossa sugestão de leitura para o mês de abril de 2017 foi Mar de Pedras, de Daniel Barros.
www.amazon.com.br/Mar-pedras-Daniel-Barros

Nesta obra, a terceira do autor, os leitores são transportados para uma vila do interior de Alagoas. A cada página, os costumes e pratos típicos da região ganham força. Nunca estive lá, mas consegui experimentar a simplicidade de viver em um lugar assim.

O livro conta a história do Henry Melo, que é um fotógrafo totalmente profissional e, por conta disso, vive viajando a trabalho. Ele é um rapaz honesto e preocupado com causas sociais. Por conta de sua popularidade na região, surgem boatos de uma possível candidatura, desagradando políticos da região.

Apesar de ser bem visto por todos que o conhecem, Henry tem uma grande fraqueza: mulheres. A narração começa a ficar mais picante quando vem à tona as aventuras amorosas dele. Sem limites ou restrições, ele se envolve até mesmo em orgias com a mulher do prefeito da cidade, que nunca está presente quando a comunidade precisa.

Porém, surge na história Francesca, que o fascina de uma maneira diferente. A prova disso é que a atração pela mulher não é só física. Com isso, Henry rapidamente se envolve com a modelo, que corresponde a cada sentimento dele. O fotógrafo a pede em namoro e volta para Alagoas, envolto de saudade.

Poderia ser apenas uma linda história de amor, mas o passado começa a interferir na ficção. Primeiro, por meio de Bruna, a mulher do prefeito da cidade, com quem já teve um caso. Henry mostra sua fraqueza diante das seduções dela e, quanto mais tenta fugir, mais intensa fica a situação.

O uso de bebidas alcoólicas, algo que parece ser bem forte na região, também está presente em quase todos os capítulos do livro. Os drinques e coquetéis são citados com nomes e a escolha deles demonstra até mesmo o sentimento do personagem.

Impossível não analisarmos algumas semelhanças entre o autor e o personagem. Os dois dividem a paixão por fotografia e por Alagoas. O fato de o escritor ser pós-graduado em segurança pública também levanta alguns debates sociais sobre o papel do policial nos diálogos do livro. 

Arisson Tavares - Escritor e jornalista
Quando a história começou a cair em uma certa obviedade, surgiu um final que me impressionou. Enfim, gostei da obra por não seguir regras de um gênero literário específico. Isso deu a leitura um ar de surpresa a cada capítulo. Indico para todos os tipos de leitores, respeitando uma classificação indicativa mínima por conta de alguns capítulos mais quentes.



quarta-feira, 24 de maio de 2017

A CONSTRUÇÃO POÉTICA DE NAPOLEÃO VALADARES João Carlos Taveira



Nestes tempos de pós-modernidade, de poesia neobarroca, de poema verbivocovisual e outras designações que têm norteado certa poesia praticada entre nós, o surgimento de um livro de poesia que explora a linguagem dos signos e dos símbolos, concomitantemente palatáveis à compreensão geral, é motivo suficiente para a manifestação de uma resenha ou de um artigo em letra de imprensa.


Vamos, pois, ao livro. Trata-se de Delírio Lírico, poema longo, em trinta e quatro cantos, de Napoleão Valadares, editado por Edições Galo Branco, Rio de Janeiro, 2008, e lançado em Brasília em novembro deste ano. O poema é todo construído em decassílabos brancos, sem estrofes, cujos cantos têm 49 versos cada um, exceto os de números V, VI e VII que se estendem a 80, num total de 1.759 versos. O assunto é tratado em ordem cronológica e abrange mais de 30 séculos de história, que se inicia com a Guerra de Troia (séc. XIII a. C.), passando por Sócrates, Platão, Aristóteles, até chegar praticamente aos nossos dias.
Napoleão Valadares, na sua construção poética, optou pela narrativa épica em que, com mestria e bom humor, funde a linguagem nobre, clássica, à linguagem popular, atual, numa tirada muito interessante e jamais vista em nenhum poeta brasileiro de qualquer escola. Mas o que salta aos olhos e aos sentidos é a correção gramatical, o domínio da língua, a clareza de expressão, a concisão. Além, é claro, do senso de humor nas “pilhérias” e “invenções” que o Autor derrama pelo texto afora. Sirva-se de exemplo o Canto XXVI, em que o narrador, em diálogo com Camões, ouve do mestre de Os Lusíadas a seguinte confissão: “Amor é fogo”, numa clara alusão ao célebre soneto “Amor é fogo que arde sem se ver”, do bardo português.
Por força da circunstância de leitura, há que se fazer agora uma referência enfática: ao longo do poema são praticados os mais variados tipos de verso decassilábico, que vão dos mais comuns (heroico e sáfico) aos de maior raridade. Por exemplo: a gaita galega (também chamada moinheira), decassílabo que apresenta sílabas tônicas nas posições 4, 7 e 10; e o que Anderson Braga Horta chama de “decassílabo átono”, aquele cuja décima sílaba abre mão da tônica para criar um novo tipo de enjambement – o que desafia a linguagem poética em benefício da fluência rítmica da prosa. Deve-se acrescentar que, de rara apresentação nos poemas latinos, esse tipo de verso aparece, no entanto, algumas vezes em letras de música. (Quem ama a poesia e conhece um pouco os seus mistérios sabe que a figura da métrica no poema não é, como na música, uma regência implacável sobre o ritmo. Mas sabe, sobretudo, que é o ritmo que dá beleza à música, bem como ao poema. Fora disso, a poesia escrita sob os parâmetros do que foi mencionado no primeiro parágrafo deste texto corre sério risco: pode cair no vazio absoluto ou no descrédito normativo da língua. E aqui cabe um provérbio chinês: “O tolo corre onde o sábio não andaria”.)
Napoleão Valadares
A temática simples, porém inusitada de Napoleão Valadares, exposta por intermédio de um personagem delirante, vítima de febre intermitente, abrange o conhecimento universal da política, da filosofia, da cultura, das artes; enfim, da história da humanidade, em seus mais variados arcabouços linguísticos e semânticos. E apresenta – et pour cause – um conhecimento profundo das coisas e das mazelas do mundo. A exemplo de Machado de Assis e Francisco Carvalho – para citar somente dois escritores que nunca saíram de sua terra natal e conhecem cada canto do mundo, cada rua e cada pedra de muitas cidades, sem ter viajado para nenhuma delas –, Napoleão Valadares vai descrevendo vilas, urbes, países, continentes inteiros, só pela leitura sistemática e pelo estudo regular. Seu texto é uma vitória sobre o turismo funcional e dirigido...
Outro registro que vale a pena ser consignado é com relação à simetria de alguns grupos de versos encontrados em três cantos do poema. A saber: no Canto XXV, que trata do Descobrimento da América, há, além da simetria, um reducionismo consciente do verso “Colombo olhando o azul” para, dez versos abaixo, “Olhando o azul” e nos dez seguintes, simplesmente “O azul”. No Canto XXVIII – sobre Shakespeare – ocorre semelhante simetria do número oito entre os versos “Hamlet, o Príncipe da Dinamarca”, “Depois, Otelo, o Mouro de Veneza” e “rapazes muito diferentes delas”. Finalmente, no Canto XXXII – num encontro com Dostoiévski e Tolstói – pode ser facilmente encontrada a relação com o número sete entre os versos “porque o primeiro, condenado à morte”, “O outro, mundana mocidade, estroina” e, finalmente, “os meandros da alma humana conhecia”. Mas esta numerologia deverá ser tratada em outro estudo.
Napoleão Valadares, com este livro, apresenta um poema novo e singular, mas não pretende inventar ou reinventar estilo nem fundar escola. Quer tão-somente fazer partícipe o leitor dos delírios da febre, nesta grande viagem pelo mundo e pela história da humanidade, empreitada que realiza, com percuciente habilidade, por intermédio de uma linguagem poética fluente e agradável.
Delírio Lírico é leitura obrigatória para todos aqueles que amam a tradição e aceitam o novo, pois essa dicotomia geralmente possibilita maior compreensão e fruição da Arte, seja ela musical, pictórica ou literária.


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João Carlos Taveira
* João Carlos Taveira, mineiro de Caratinga em Brasília desde 1969, é poeta e crítico literário, com vários livros publicados, entre os quais: O Prisioneiro (1984), Aceitação do Branco (1991), A Flauta em Construção (1993), Arquitetura do Homem (2005). Em 1994, recebeu do GDF a Comenda da Ordem do Mérito Cultural de Brasília.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Entrevista com o autor Daniel Barros - Laura Militão



Laura Militão
A entrevista de hoje é com o autor Daniel Barros, que é nosso parceiro.

Entrevista:

1-  Daniel, quando foi sua primeira publicação e qual foi?

O desejo de expressão é inerente à espécie humana, potencializado quando se refere ao sentimento. É preciso pôr para fora para não sufocar. Como dizia Paulo Leminski no poema “Pergunte ao Pó”: “... o que a gente sente / e não diz / cresce dentro”. Comecei a escrever justamente por essa necessidade de expor sentimentos e ideias. O sorriso da cachorra é uma história divertida e prazerosa. Entretanto, sem esquecer o espírito de denúncia que nós, os escritores nordestinos, temos.


2- Quais são seus livros já publicados?



O primeiro O sorriso da cachorra, Enterro sem defunto (romance policial) e Mar de pedras. O quarto está em  fase de revisão: canto escuro (romance policial).
www.amazon.com.br/Sorriso-da-Cachorra

O sorriso da cachorra é uma novela que basicamente conta estória de um casal de adolescentes que se apaixona e vive todo um encanto de amor juvenil e também todas as agruras e inseguranças da adolescência, tal paixão se passa na paradisíaca Maceió e em tempos de chumbo, finja nos estertores da ditadura militar, quando o casal se envolve no processo de redemocratização do país. Apesar de ser uma novela leve, apresenta um final um tanto pesado. Ah! O título poderia ser tema de um baile funk, mas não é bem assim. O livro, pelo contrário, como diz o poeta Ivan Marinho no prefácio: “A novela O sorriso da cachorra, se poema, seria uma ode à paixão, com toda sua ousadia, encantamento, ilusão... e loucura.”



3- Dos livros de sua autoria, qual é o seu preferido?

Enterro sem defunto
Discordo de alguns colegas que afirmam que livros são como filhos. Para mim não são, pois nesse caso, gosto sempre mais do caçula que dos demais. O que seria uma injustiça, porém, para fugir do mal, que assola nossa sociedade, a hipocrisia, digo-lhes: no fundo, nós pais temos a preferência por um deles, mas não podemos revelar para não causar ciúmes nos outros (riso).



4- Pretende publicar mais algum livro? Se sim, quando?

Quando terminei O Sorriso da Cachorra, meu maior medo era não ter folego para escrever outro livro, e ser escritor de um livro só. Hoje o meu maior medo é não evoluir nas próximas obras. Neste sentido tenho tido boas críticas sobre a minha possível evolução, e, portanto, o trabalho se torna mais árduo.
Sim. O livro Canto escuro já está pronto, em fase de revisão, que é a parte mais trabalhosa, mas deve ser lançado em 2018. É um romance mais denso, mais introspectivo, com um cuidado maior na construção dos personagens e do enredo.

5- De onde tira inspiração para escrever?

"Se queres ser universal, escreve sobre a tua aldeia." Tolstoi.
A vida, as pessoas que me cercam, o ambiente em que vivo, sobretudo, as ideias e os sentimentos inerentes à condição humana. 

6- Algum dos seus livros foi inspirado na sua vida?

Mais uma vez recorro à citação de outro mestre, desta vez Jorge Amando que dizia: “Todos os meus personagens têm um pouco de mim e das pessoas que conheço.” Só pretendo escrever minha biografia quando estiver perto de morrer, portanto espero que não seja por agora (risos).

7- Há algum autor em que você se inspire ou do qual seja fã?

“Vixi!” Vários. Poderia começar pelo autor que me inspirou a tornar-me escritor: Ernest Hemingway, um escritor que deixou uma belíssima obra e uma história de vida fascinante.
Jorge Amado, com certeza me influencia muito, até hoje. Como disse o presidente da Academia Petropolitana de Letras-RJ Gerson Valle, sobre minha obra: “... De alguma forma, refletem o hedonismo dos romances de Jorge Amado.”
Citaria também as influências literárias de minha terra, Alagoas: Graciliano Ramos, Lêdo Ivo, Jorge de Lima e Ivan Marinho. Tal qual eles, escrevo com a alma de nordestino sofredor e injustiçado e como disse Lêdo Ivo: “... nós, romancistas do Nordeste, denunciadores incômodos e incorrigíveis da pobreza e da injustiça, dos pesadelos e das calamidades, sempre nos distinguimos de nossos confrades do Centro e do Sul pelo nosso ar de estrangeiros, de emissários desse interminável Oriente que é a nossa terra natal.”
Mar de pedras
E muitos outros... Em outra entrevista foi perguntado sobre o encontro de gigantes em Mar de pedras: “Em Mar de Pedras Jorge Amado encontra Hemingway, quais as suas influências literárias?” Respondi: “Realmente um encontro de gigantes! A virilidade e valentia dos heróis Hemingwaynianos e a malandragem e a realidade dos anti-heróis de Jorge Amado. Em comum, as aventuras e a boêmia de ambos. Não há dúvida que são minhas maiores influências, mas não poderia deixar de citar Bernardo Guimarães e Marcel Proust, onde a riqueza de detalhes é marcante, riquezas essas que já me rederam algumas críticas negativas. Não poderia deixar de fora o mestre Rubens Fonseca, para mim o maior escritor brasileiro de literatura policial. Dele busco o cuidado técnico da informação colocada no enredo, sem furos por falta de conhecimento, o que é muito comum na literatura policial. Para você ter uma ideia, um premiado escritor e jornalista teve o disparate de escrever que seu personagem, ao ouvir um barulho na porta, ‘destravou sua pistola Glock e...’ Ora! As pistolas dessa conhecida fábrica austríaca não apresentam travas, apenas um mecanismo no gatilho, que ao ser acionado libera a arma para o disparo. Nesse mesmo livro ele cometeu outros equívocos, que poderiam ser facilmente eliminados, se ele tivesse a humildade de consultar um profissional da área.”

8- Qual seu livro preferido? 

Sortilégio possível - Ivan Marinho
Inúmeros! Romance: Ninho de cobras, de Lêdo Ivo; poesia: Sortilégio Possível, de Ivan Marinho, e histórico: Os sertões, de Euclides da Cunha.

9- Você segue algum método para escrever? Mantém fichas de personagens, esboços, desenha previamente as cenas ou é mais intuitivo?

Normalmente começo pelo fim. Penso no desfecho e desenvolvo em cima daquela ideia. E, para minha surpresa, descobri que esta técnica, era um método ensinado nas oficinas literárias ministradas por Gabriel García Márquez. Quanto aos personagens, estes surgem naturalmente, mas, à medida que escrevo, eles vão tomando formas e crescem. Às vezes, uma personagem que a princípio seria um coadjuvante cresce e se torna grande. Aconteceu em Enterro sem Defunto. Catarina era para ser apenas a namorada de Alcides, mas de repente cresceu ao ponto de ser, talvez, a personagem mais forte do livro. Em Mar de Pedras isso ocorre com Carolina.  Não quero dizer com isso que eles tenham vontade própria, não! Quem manda é o autor, mas tem personagens que nos conquistam.

10- Que dica você daria para quem planeja escrever um livro?

Ler, ler e ler! Escritor que não lê nunca se tornará um grande autor. Entrevista com o autor Daniel Barros

sábado, 20 de maio de 2017

BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO DA VIDA E OBRA DE SALOMÃO SOUSA - João Carlos Taveira



Salomão Sousa
O poeta Salomão Sousa nasceu na zona rural, onde passou a infância, foi alfabetizado e teve as primeiras experiências com o universo da poesia e profundas vivências com a natureza, que alimentam de maneira inequívoca o seu modo de expressão criativa. Em 1964, aos doze anos, transferiu-se para Silvânia, cidade do percurso de desbravamento do estado de Goiás, para continuar o ensino fundamental. Ali, aprofundou o contato com a poesia brasileira no acervo da biblioteca pública do município.
No início de 1971, transferiu-se para Brasília, onde concluiu sua formação secundária e superior. Formou-se em Jornalismo e, por concurso, ingressou no serviço público federal; desde então, vem construindo “a poesia de consciência e a escritura de combate”, conforme destacou o escritor Ronaldo Cagiano em resenha definidora da obra do autor de O susto de viver.
Ainda na década de 1970, Salomão Sousa fez algumas incursões no movimento da Poesia Marginal e publicou A moenda dos dias (1979), livro inaugural de “uma poesia inovadora, sem as camisas de força estilísticas, arejada, original, portanto moderna”, como aponta Cagiano na resenha referida. Safra quebrada, que reúne os livros publicados até 2007, dá a dimensão humana e artística de quem soube produzir sem pressa e, ao mesmo tempo, manter-se consciente de cada etapa de sua carreira. 
A obra de Salomão Sousa dá seu contributo ao cenário da moderna poesia brasileira de forma muito contundente. Das muitas leituras já feitas sobre essa poesia, é importante destacar a observação crítica de Naomi Hoki Moniz – atual diretora de Estudos Portugueses na Universidade de Georgetown –, publicada em 1979 na Revista Iberoamericana, sobre A moenda dos dias, quando a articulista fazia mestrado na Harvard University:  
Sua utilização de uma tradição poética permite diferenciá-lo do muito que existe no país de modismo de vanguarda superficial que caracteriza certos movimentos. Ele evita traços de populismo e espontaneísmo, constrói um discurso despojado e simples, mais comprometido com a veracidade do que está sendo dito do que com obscuras e vazias ordenações estéticas.
Ao resenhar Estoque de relâmpagos para o Correio Braziliense, a professora de literatura Lígia Cademartori, respeitada tradutora e ensaísta, contextualiza a poesia que Salomão Sousa passou a praticar a partir do livro em epígrafe:
... a particularidade de sua poesia não reside nos efeitos de som e, sim, na organização das imagens. A profusão delas provoca o leitor para que procure as relações que estabelecem e, por esse modo, descubra a mitologia autoral que as ordena. Ao extrair força poética do substantivo, Salomão Sousa compõe sua própria lição de coisas. Nem todas imediatas, é verdade. Algumas são inalcançáveis. Mas, no radical contraste entre certas imagens, podem-se encontrar essenciais efeitos de sentido e o provável princípio que preside as expressões figuradas. Pois a linguagem não faz concessões. Concisa e avessa ao voo livre, essa é poesia de linhagem autorreflexiva.
Antônio Miranda e Salomão Sousa
Antonio Miranda, poeta de múltiplas invenções e vasta obra publicada, no Portal de Poesia Ibero-Americana registra o seguinte sobre Ruínas ao sol:
Não é uma leitura fácil, muito menos óbvia, por causa da linguagem densa e das desavisadas associações de imagens e de ideias, da ausência de pontuação, do automatismo verbal que vai anunciando, mas não necessariamente enunciando, numa espécie de neobarroco consciente.
 Salomão Sousa é um poeta moderno em estado puro, na sua exaustiva utilização do real, seja do tempo presente, seja dos fragmentos da memória. Intelectual consciente, ele sabe enriquecer essa veia com uma crítica mordaz das mazelas humanas e do contexto social em que está inserido. Sua poesia se alimenta, por vezes, dessa cosmovisão para fundar uma solidez estrutural muito próxima da estética pós-moderna, com suas vanguardas posteriores. Sua linguagem é construída mais de impulsos fragmentados do que de uma forma gramatical preestabelecida. Seu verso é livre e geralmente curto, as frases raramente se completam, a pontuação nem sempre está presente, e as estrofes não têm compromisso com a uniformidade. Outra característica de sua poesia mais recente é a ausência de títulos nos poemas. Quem não acompanhou a trajetória deste poeta, julga-o sempre jovem, pois ele se insere no contexto do tempo presente. Mas tem plena consciência de seu ofício.

Bibliografia
● A moenda dos dias, Ed. Coordenada, Distrito Federal, 1979. 
● A moenda dos dias/O susto de viver, convênio INL/Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1980. 
● Falo, Thesaurus Editora, Distrito Federal, 1986. 
● Criação de lodo, edição do autor, Distrito Federal, 1993. 
● Caderno de desapontamentos, edição do autor, Distrito Federal, 1994. 
● Estoque de relâmpagos, prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, Brasília-DF, 2002. 
● Ruínas ao sol, Prêmio Goyaz de Poesia, São Paulo: Ed. 7Letras, 2006. 
● Safra quebrada (reunião dos livros anteriores e de dois inéditos: Gleba dos excluídos e Marimbondo feliz), publicado com rec
Brasília-DF, maio de 2016.
 ursos do FAC, Brasília-DF, 2007. 
● Momento crítico, de textos críticos, crônicas e aforismos, Brasília: Thesaurus Editora/FAC Fundo de Apoio à Cultura, 2008.
● Vagem de vidro, poesia, Brasília: Thesaurus Editora, 2013.

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quinta-feira, 18 de maio de 2017

O livro MENINO DE DEUS - Nélio da Matta Parreira


O livro MENINO DE DEUS – A história de um sequestro, do amigo Lindoberto Ribeiro, achei muito detalhado dentro de certa concisão. Em suma, achei dinâmico, consistente e interessante. Impressionou-me a riqueza de detalhes apesar de ser uma estória pequena. Como amante do Naturalismo, ao ler esta estória, se pode saborear o cafezinho servido nos balcões dos bares Cariocas. Faz-me falta este tipo de Literatura onde não só fico atraído, como é contemporânea. Bola pra frente Lindoberto. 
Um abraço, Parreira.
Nélio da Matta Parreira

https://www.amazon.com.br/MENINO-DEUS-hist%C3%B3ria-um-sequestro/dp/8564898837/ref=sr_1_1?s=books&ie=UTF8&qid=1494675628&sr=1-1&keywords=lindoberto+ribeiro

terça-feira, 16 de maio de 2017

Jornalista Shirley M. Cavalcante (SMC) entrevista o escritor Daniel Barros


Shirley M. Cavalcante
Jornalista Shirley M. Cavalcante (SMC) entrevista o escritor Daniel Barros
         Daniel Barros, 48 anos, alagoano de Maceió. Foi colaborador em O jornal e Gazeta de Alagoas, na década de 1990. É engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal de Alagoas no ano 1992. Em Brasília, desde o fim dos anos 1990, onde pós-graduou-se em Segurança Pública e iniciou sua carreira literária publicando: O sorriso da cachorra, romance, editora Thesaurus, Brasília 2011; Enterro sem defunto, romance, LER editora, Brasília 2013 e Mar de pedras editora Thesaurus, Brasília 2015;.Participa das coletâneas: Contos eróticos, editora APED, Rio de Janeiro, 2013; e de Enquanto a noite durar, contos sobrenaturais, editora APED, Rio de Janeiro 2013. 

1. Escritor Daniel, é um prazer tê-lo conosco no projeto Divulga Escritor. Conte-nos em que momento pensou em escrever o seu romance “O Sorriso da Cachorra”?

O desejo de expressão é inerente à espécie humana, potencializado quando se refere ao sentimento. É preciso pôr para fora para não se sufocar. Como dizia Paulo Leminski no poema “Pergunte ao Pó”: “... O que a gente sente / e não diz / cresce dentro”. Comecei a escrever justamente por essa necessidade de expor sentimentos e ideias. E criar uma história divertida e prazerosa. Entretanto, sem esquecer o espírito de denúncia que temos, nós, os escritores nordestinos. 
2. Como foi a construção do enredo e dos personagens?

Normalmente começo pelo fim. Penso no desfecho final e desenvolvo em cima dessa ideia. Os personagens surgem naturalmente, mas, à medida que escrevo, eles vão tomando formas e crescem. Às vezes, um personagem que a principio seria um coadjuvante, cresce e se torna grande. Aconteceu em ENTERRO SEM DEFUNTO. Catarina era para ser apenas a namorada de Alcides, mas de repente cresceu ao ponto de ser, talvez, a personagem mais forte do livro. Não quero dizer com isso que eles tenham vontade própria, não! Quem manda é o autor, mas tem personagens que nos conquista.

3. Ao terminar de escrever “O Sorriso da Cachorra” você já tinha planos para escrever o “Enterro sem defunto”?


Sim. Tinha a intenção de escrever sobre um tema mais polêmico, mais forte. Abordar aspectos estruturais da sociedade, no que se refere à segurança pública. E escrever um romance policial mais próximo da realidade. Diferente do estilo clássico, em que o mistério vai sendo desvendado à medida que surgem as provas, como os livros de Arthur Conan Doyle, Agatha Christie e Edgar Allan Poe. Enterro sem defunto tende mais para o romance noir, mas foge daquele noir estereotipado. Estamos no Brasil, nos arredores de Brasília ou em uma praia de Maceió. O tom é colorido como nos convém, longe do preto e branco ianque, personagens mais humanizados, bebem, fumam, brigam e se envolvem em casos sexuais. E surgem tramas paralelas. Tanto que no meu romance o enredo se dá em dois tempos, numa estética não-linear, intercalando capítulos entre o presente, em que o personagem é policial, e seu passado como fotógrafo.

4. Que temas você aborda em sua obra “Enterro do defunto”?
Havana - Cuba

Os temas são variados, desde as oligarquias políticas de Alagoas, a polêmica ilha de CUBA e seu povo, sexo, sensualidade, paixão, amizade, luta contra a corrupção e ao trafico de droga e até sobre a estrutura organizacional da polícia judiciária no Brasil. Tema bem atual, como bem podemos acompanhar no noticiário, como a CRISE na Polícia Federal, que é fruto de uma estrutura arcaica e corroída pela corrupção. Mas como escreveu o jornalista Marcos Linhares em uma resenha sobre meu livro: “... obra com seu toque de fino humor, retrato refinado e cru da realidade, recheado com dose de sonho, medo, dor, paixão, sexo, enfim, de vida. A vida espalhada pelas páginas das obras bem ornadas com o barro das palavras desse Daniel alagoano”. 

5. Como foi a escolha do título?
Ariano Suassuna

O sorriso da cachorra foi inspirado na obra de Ariano Suassuna, O auto da compadecida. Lá, a esposa do padeiro compra o padre para fazer o testamento da cachorra. Já Enterro sem defunto surge do mistério e da trama que envolve o final do livro, que não posso revelar, pois acabaria o enigma (risos). Busco escolher títulos espirituosos e que despertem o interesse do leitor pela história, bem como o porquê do título. 

6. Soube que você gosta de escrever contos. De forma geral, qual a mensagem que você quer transmitir ao leitor através de seus textos literários?
E. Hemingway

Uma vez perguntado por uma repórter, Ernest Hemingway respondeu: “Se quisesse transmitir mensagens, enviaria telegramas.” Mas longe de mim, o velho mau humor do célebre autor de Por quem os sinos dobram? Sou apenas um contador de histórias, e pela minha origem coloco nelas a realidade dura do nosso país. Como dizia Lêdo Ivo: “... nós, romancistas do Nordeste, denunciadores incômodos e incorrigíveis da pobreza e da injustiça, dos pesadelos e das calamidades, sempre nos distinguimos de nossos confrades do Centro e do Sul pelo nosso ar de estrangeiros, de emissários dessa interminável Oriente que é a nossa terra natal”.

7. Daniel, onde podemos comprar os seus livros?

ed. Em Brasília, em diversas livrarias, entre elas: Livraria Leitura do Conjunto Nacional e Terraço Shopping, Livraria e distribuidora horizonte do Saber (SCLN 714/715 Bl:A Lj: 16 ASA NORTE BRASÍLIA DF) e Restaurante Fausto & Manoel, CLSW 101, Bloco C, lojas 8/9/10, Sudoeste- Brasília/DF. No site da Livraria Cultura os dois livros podem ser encontrados facilmente. 

8. Quais os seus principais objetivos como escritor? Pensa em publicar um novo livro?
www.amazon.com.br/Mar-Pedras-Daniel-Barros

Simples; ser lido! Tornar-me imortal, pois enquanto nossos livros são lidos, nós vivemos. Meu próximo livro, Mar de pedras já está nas mãos do meu revisor (João Carlos Taveira), e estou escrevendo outro, ainda sem título e sem pressa, pois pretendo escrever um livro mais denso, introspectivo... o que demanda um maior cuidado e um desgaste pessoal muito grande. Espero conseguir.

9. Quais os seus principais hobbies?
Quintal da casa do autor

Não gosto de esporte, não jogo bola, tênis, não pratico corridas... sou um boêmio! Cuido dos meus animais, cachorros, galinhas, perus, carneiros e peixes, não os ornamentais, crio-os para comer (tilápias, tambaquis, etc.) – E a leitura, naturalmente. Pescar é algo também que me proporciona muito prazer.


10. Quais as melhorias que você citaria para o mercado literário no Brasil?

Sem dúvida, precisamos baixar os preços dos livros. O livro brasileiro ainda é um dos mais caros do mundo, mesmo sem a cobrança de impostos. Precisamos de prêmios literários sérios, onde pelo menos os livros sejam lidos pelos jurados. Na II bienal do livro de Brasília cada jurado teria pouco mais de um mês para ler 50 livros, é evidente que não é possível. O que fazem então para escolher? 



Daniel Barros e seu cão: Papa Hemingway
13. Pois bem, estamos chegando ao fim da entrevista. Agradecemos sua participação no projeto Divulga Escritor. Foi muito bom conhecer melhor o Escritor Daniel Barros. Que mensagem você deixa para os nossos leitores?

Leiam! Sobretudo meus livros... (risos). Brincadeiras à parte, devemos ler e estimular a leitura. Não só as crianças devem ser incentivadas, mas todos! Jovens, adultos... Nunca é tarde para se tornar um ávido leitor.


domingo, 14 de maio de 2017

UM ROMANCE EXTRAORDINÁRIO João Carlos Taveira*


Quando chegaram às minhas mãos os originais do romance de costumes de Josefina Duailibi Mahfuz, nem pude acreditar no que estava vendo, no que estava lendo. Esse livro levou mais de vinte anos para ser escrito e, mesmo assim, não teve a oportunidade de ser publicado. E certamente não mais o terá, pois sua autora faleceu no interior de Minas há mais de sete anos e a família nem quer saber do assunto. Pelo menos por enquanto.

Claude Monet 
O país do faz de conta, escrito na terceira pessoa, numa linguagem tensa e avassaladora, narra a história de uma mulher que, impossibilitada de ter filhos, resolve adotar crianças pobres da periferia de uma cidade média, situada num país imaginário da América do Sul. Na verdade, são muitas histórias paralelas que se cruzam e se distanciam no tempo e no espaço para, ao fim e ao cabo da narrativa, se juntarem num só emaranhado de situações plausíveis e, não raro, bem próximas da realidade: o desfecho inexorável e surpreendente ultrapassa qualquer tentativa de compreensão. Embora apresente personagens e cenários deliberadamente atuais, trata-se de um livro de difícil classificação e quase impossível de ser analisado. Mas tentemos.

Sartre e Beauvoir
Aurora Solrac, professora de piano e ativista política, chegou a casar-se pelo menos três vezes, fora duas tentativas frustradas de relação à la Sartre e Beauvoir — o que lhe causou problemas com a polícia e, consequentemente, com a justiça de sua cidade. Pois bem. Aos quarenta e sete anos, resolve pendurar as chuteiras amorosas e adotar três crianças de uma favela próxima. A decisão, entretanto, não foi tomada antes de consultar seus velhos pais, que, embora apreensivos e descrentes, concordaram com o ímpeto da filha única. Documentação reunida e aprovada pelas autoridades competentes, dentro de três meses os pequenos puderam se transferir para a casa da nova mãe. Em resumo: começam aí dramas e conflitos, em cenário surreal e fantasmagórico, narrados com frieza e precisão sintática. Um verdadeiro soco no estômago.

Gabriel García Márquez
A autora, utilizando-se da tessitura de uma aranha, faz o tempo passar devagar, contando outras histórias paralelas e pintando novos quadros, em que transporta o leitor para situações sempre inusitadas. O país do faz de conta não lembra Cem anos de solidão, mas se aproxima do misterioso universo de Gabriel García Márquez pelo que traz de informações e representações simbólicas da condição humana, ao descrever um painel psicológico digno dos melhores prosadores do século XX. O livro trata de guerras conjugais, litígio por posse de terra, desavença familiar por espólio, corrupção política, homossexualismo e, de maneira soberba e cristalina, luta pelo poder — em todos os seus desdobramentos e especificidades. E mergulha também nas relações pessoais dos personagens, desnudando um quadro perturbador de tragédias que deságuam em crimes hediondos e todo tipo imaginável de perseguição, em que a inveja é sempre o fio condutor de todos os percalços e atribulações.

Dividido em seis partes e 66 capítulos, O país do faz de conta consegue a proeza da poesia em sua prosa tensa, contida e ritmada, e o milagre do permanente interesse pela leitura, a cada frase, a cada parágrafo, a cada capítulo. As situações e tipos descritos apresentam consistência e verossimilhança. São seres marcados por distúrbio psíquico, por desvio de conduta e por irremediável fracasso social. E todos de carne e osso. Poucos volumes romanescos de mais de 800 páginas conseguem efeito literário como esse. Aliás, um feito para poucos narradores contemporâneos. Salvo raríssimas exceções.
   
Há no capítulo 13, da segunda parte do romance, descrições pormenorizadas de questões marcadas pelo sentimento da inveja e do despeito. (E aqui o narrador, malabaristicamente, destrincha os dois substantivos com a lente da clareza e os conhecimentos da filosofia.) Há no livro referência também ao escritor ítalo-argentino José Ingenieros sobre a mediocridade sistêmica a pairar sobre a humanidade, que vegeta sem nenhuma possibilidade de salvação. O homem é, antes de tudo, um animal, o mesmo animal de Neanderthal, embora hoje use computador, trafegue em automóveis possantes e voe em aviões a jato. Segundo análise feita a partir do discurso livre indireto da narrativa josefiniana, poucos, pouquíssimos homens — aqui tratados de “lúcidos”, “luminares”, “visionários” — conseguem, com seu trabalho, sua fé ou sua arte, transformar o curso da história, o fluxo da vida e a face do mundo, revolucionando conceitos, práticas e mesmo culturas milenares, para o bem da maioria de seres que caminham sem nada perceber, tamanha a cegueira coletiva que os condiciona e aliena.

O narrador não deixa, entretanto, de apontar, nas entrelinhas, aqueles outros seres que, meio vivos, meio mortos, fingem ser o que de fato não são e que, certamente, jamais serão: homens que não criam nada e nada fazem, a não ser corromper, matar, roubar, futricar e viver na sombra de alguns luminares, só por ter-lhes um dia engraxado as botas, esfregado as costas, ou servido de fantoches em suas caminhadas extraconjugais, nalgum momento de suas vidas. O clímax desse episódio retorna noutra história, lá no penúltimo capítulo, em um conflito autoral pela disputa dos originais de um livro secreto, cujo prefácio fora grosseiramente arrancado, não se sabe como, quando e por quem.

A falsidade e o ressentimento tiveram tratamento quase cirúrgico em três capítulos do livro (17, 36 e 64), justamente quando a autora se detém no complexo de inferioridade. Dessa anomalia estritamente humana, vão surgindo, aqui e acolá, infelizmente, nuanças de uma convicção cada vez mais cristalizada. Homens e mulheres protagonizam cenas ridículas repletas de significados supraliterários. Em contraposição a um conjunto de situações ficcionais de cunho fantástico, o quadro exposto quase toca o real, quando leva o leitor a mergulhar numa análise das similaridades de suas próprias vivências. Pululam nestas páginas personagens que fingem dar aquilo que, na verdade, estão a subtrair de alguém supostamente necessitado de alguma ajuda ou cuidado — não se pode admitir nunca a superioridade intelectual de quem se revela contrário aos apelos da etnia e ao determinismo genético. Naturalmente, as comparações são inevitáveis.

As referências que tratam da inveja, caracterizadas nos capítulos 13 e 52, trazem-nos uma constatação terrível: a inveja — ao lado do despeito — é um sentimento de inferioridade quase infantil. O grande perigo reinante, embora subterrâneo, é o despeito. Na inveja, deseja-se um objeto, um cargo, uma posição e vive-se, de fato, a tormenta de não tê-los; no despeito, mais avassalador e cruel, além de desejar-se o objeto, o cargo, a posição alheios, busca-se a eliminação do outro, social e fisicamente, numa tentativa desesperada de tomar-lhe o lugar cobiçado e colocar/vestir sua máscara na face despersonalizada pelo distúrbio psíquico e má formação de caráter. Retrato bem característico de nossos dias.
Josefina Duailibi Mahfuz, aqui e ali, descreve uma paisagem humana hostil sendo devastada pela fraqueza e apatia de uns e pela ganância e corrupção de outros. Devido à omissão do Estado e de carcomidas leis, suas criaturas não conseguem vislumbrar, em curto prazo, uma solução para o impasse de suas vidas mesquinhas e sem sentido. Por isso, os personagens do livro, espectrais, em sua caminhada para o aniquilamento, vão se diluindo em autômatos, mortos vivos ou sonâmbulos, ao deixarem na cidade um rastro de desolação e uma aparência de abandono. Não se pode dizer, no entanto, que seja uma cidade fantasma, após a avalanche de desgraças que se abateu sobre a sua população. Os recursos linguísticos utilizados pela escritora, por diversos, vão a pouco e pouco enriquecendo a trama com sutilezas verbais as mais insólitas e surpreendentes. Um alívio para as nossas aflições silenciosas.

Nos capítulos 27 e 43 há referências explícitas também sobre o ciúme. Em cenas meticulosas, plasmadas com o esmero artesanal de um escultor impressionista, surge um emaranhado de intrigas e dissimulações. Um exemplo será bastante. No último diálogo entre enteado e padrasto, há frases lapidares sobre esse sentimento: — “Deixa-me em paz, Orestes. Não vês que estou em outra? – argumenta o jovem Fernando, tentando se desvencilhar do abraço do padrasto”. — “Se não me queres mais, não devias me enganar assim tão abertamente. Nem por isso deixo de te amar, mesmo sabendo da existência de Sandro. Mas saiba de uma coisa: se não ficares comigo, não ficarás com mais ninguém – esbraveja com fúria o esposo de Juliana.” E, após dizer isso, saca do revólver e, cego de cólera, atira diversas vezes contra o rapaz, matando-o friamente. Esse gesto faz pensar que o ciúme de um homem por outro homem é mais compulsivo e neurótico do que o ciúme de um homem por uma mulher, ou o ciúme de uma mulher por um homem ou por outra mulher. E isso, não só na ficção de Josefina Duailibi Mahfuz, como também na vida real, tem gerado desavenças e desencontros na rotina de muita gente, com resultados assustadores e consequências desastrosas. Os jornais têm estampado manchetes dessa natureza, cotidianamente, sem nenhum pudor.

Ao fim do sexagésimo sexto e último capítulo, lá pela página 880 desse livro apocalíptico, as trinta e três histórias, inicialmente díspares e independentes, se fecham uniformemente como por encanto: Aurora Solrac, rediviva, contempla o sonho de ser mãe com uma ponta de decepção, e se vê desamparada frente ao mistério da vida, totalmente entregue à impotência e à desesperança. Mas, do seu desconforto existencial, ainda encontra força para proferir uma frase extraída e adaptada do relatório final de Albert Einstein sobre o famoso “Manhattan Project”, que há de ficar martelando por muito e muito tempo na cabeça dos leitores...

Brasília, 20 de abril de 2012.

João Carlos Taveira
* João Carlos Taveira é poeta e crítico literário, autor de vários livros publicados, entre os quais Arquitetura do homem (poesia) e A arquitetura verbal de Nilto Maciel (fortuna crítica). Em 1994, recebeu do Governo do Distrito Federal a Comenda da Ordem do Mérito Cultural de Brasília. E em 2002 foi eleito para a Cadeira n.º 26 da Academia Brasiliense de Letras, cujo patrono é o poeta simbolista Cruz e Sousa.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Mar de Pedras é o terceiro romance do escritor Daniel Barros - Juvenil Tomás


Mar de Pedras é o terceiro romance do escritor Daniel Barros

Vista del mar en Scheveningen - Vincent van Gogh
O ritmo vívido e o passo firme da narrativa não permite sonolência.

Embalado e envolvido pelo clima quente do romance, o leitor viaja, sentindo as emoções e o sabor da história.

Isto, literalmente, o clima quente, não só da narrativa, mas também do cenário, que são, principalmente, as praias do litoral alagoano. O sabor vem das combinações, às vezes excêntricas e exóticas, das bebidas e comidas, exploradas com maestria por Daniel. O livro descreve, com riqueza de detalhes, vários tipos de comidas e bebidas.
Foto: Daniel Barros. Barra de Santo Antônio-AL

Lindas e quentes praias, bom gourmet, fartas adegas, o que falta? Ah! Não falta. Está tudo lá, com riqueza de detalhes: os romances, o amor e, certamente, o sexo. Desde aquele veloz e tempestuoso até aquele aprouch mais tenso e lento, porém não menos intenso.

Afinal quem resiste àquela beldade carioca, malhada, panturrilhas musculosas. Panturrilhas!? Calma gente já vou subir! Rosto límpido e lívido, boca deliciosa e sedenta, seios fartos e quase desnudos. Quase? Por ora, claro. E o bumbum? Certamente perfeito, farto e empinado. Aí, do almoço à sobremesa é um passo bem frenético.

Mas, lembram-se daquela frase: “Laranja madura na beira da estrada, tá bichada zé, ou tem marimbondo no pé”. Bem! isso Henry tratou de verificar minuciosamente: tocou, apertou cheirou… milimetricamente, externa e internamente Com certeza absoluta ela não estava bichada!

Daniel sabe falar também do aprouch mais cauteloso e tenso, falar do perfume que inebria, dos pensamentos fortes, latentes e recorrentes.


Quem é a família tradicional brasileira? A burguesia com seus filhinhos bombados fumando maconha e causando confusão nas praias e nos bares? (Só se dão mal quando encaram um tal de Treme Terra). Ou são as famílias de trabalhadores - pescadores, por exemplo - que levam uma vida simples mas honrada.

Daniel Barros e o escritor Juvenil Tomás
São muitos argumentos. Vou falar um pouco mais do livro no próximo post. Mas você não precisa esperar, entre no site abaixo, peça o seu exemplar e embarque nessa viagem deliciosa… e perigosa!

quarta-feira, 10 de maio de 2017

PEQUENA NOTA SOBRE UM LIVRO ADMIRÁVEL João Carlos Taveira





O livro mais delicioso e sério que li ultimamente, com atraso de quinze anos, intitula-se Paris... nos tempos de Debussy e é de autoria do pianista e acadêmico Oriano de Almeida, já falecido. Publicado em 1997, com apoio do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e do Banco Real, o livro é uma biografia do autor de Prélude à l’après-midi d’un faune, La mer e Pelleas et Melisande, mas também um retrato vivo da Cidade Luz, pintado na segunda metade do século XIX. Mas, nesse curto espaço de tempo, somos levados a empreender uma viagem vertiginosa pela vida parisiense, com suas ousadas, borbulhantes e surpreendentes cenas de humanidade explícita. Poucas cidades do mundo disseminaram conhecimento científico, literário, musical e pictórico como a capital da França naquele período.

  
Oriano de Almeida, com riqueza de detalhes, compõe um painel histórico abrangente, que inclui a ciência, a música, as artes plásticas, a literatura e, principalmente, a política, na transição da monarquia para os ventos inconstantes da república — num ambiente transbordante do espírito de liberdade que pairava sobre o mundo moderno. A narrativa tem início em 1862 quando nasce Achille-Claude Debussy, em 22 de agosto, na tranquila Saint-Germain-en-Laye, cidadezinha situada a poucos quilômetros de Paris.

Paralelas ao nascimento e evolução do pequeno Claude, até sua transferência definitiva para a capital, vão surgindo informações cristalinas nascidas da pesquisa minuciosa e do trabalho diligente de composição do autor norte-rio-grandense nascido em Belém do Pará. Depois, Oriano de Almeida se deteve na fase impressionista, para justificar suas descrições. Mas, por força do tema e das circunstâncias históricas, transcendeu os limites da escola que sucedeu ao naturalismo e ao simbolismo francês e pintou um quadro de época deliciosamente encantador. Nem a pobreza e parvoíce da família Debussy nem o barro que moldou a personalidade do pequeno Claude conseguiram ensombrear as páginas de seu estudo. Há uma brisa suave e um colorido ameno pairando sobre os personagens que povoaram Paris naqueles tempos, tanto os de têmpera maleável, como Charles Gounod, Camile Saint-Saëns, Gustave Flaubert, quanto os irascíveis Victor Hugo, Paul Valéry, Anatole France.

Oriano de Almeida
Além das privações que marcaram a vida do jovem Claude Debussy, no mundo da música, Oriano de Almeida descreve tipos os mais caras de pau no campo da literatura. São seres que fingem que escrevem, mas nada criam, embora conheçam a gramática e as normas cultas da língua. Fingem que leem, e até compram livros, mas só conhecem lombadas... Dizem que apreciam música, mas nunca vão a concertos. Acreditam piamente que, pelo nome da família e herança de sangue, podem pleitear vagas e cadeiras nas academias de letras e entidades congêneres, apresentando textos chinfrins, que mais lembram atas e requerimentos, numa linguagem cartorial e técnica. Por fim, vivem entre escritores, para se sentirem escritores, e até publicam, “mas suas obras (poucos ultrapassam o primeiro livro) não hão de resistir até o fim da primavera”, comenta Madame Feurville com sarcasmo e má vontade.  

Ao fundir as artes e a política num mesmo cadinho, o autor nos oferece momentos de delicada beleza plástica. Um exemplo delicioso fica por conta das viagens de Dom Pedro II àquele país, que o acolhe com entusiasmo, respeito e fidalguia. Na primeira delas, Victor Hugo, mesmo sabendo do interesse do imperador em conhecê-lo, nega-se veementemente a qualquer possibilidade de encontro. Na segunda, no entanto, o representante máximo do Brasil dá uma aula de nobreza, humildade e desprendimento: sai do hotel em que estava hospedado e, sozinho, vai até a casa do autor de Os miseráveis, batendo-lhe à porta às nove horas da manhã, naquele longínquo mês de maio de 1877. Ao vê-lo, o escritor, entre desconsertado e surpreso, o recebe já sem nenhuma hostilidade e a conversa se estende até próximo do meio-dia. Na terceira, como todos devem saber, o pai da Princesa Isabel ausentou-se do Brasil por motivo de saúde, o que deu à filha oportunidade de abolir a escravidão, para desespero e desgosto dos poderosos de plantão. Na quarta e última, por força de um golpe sujo e desrespeitoso com a sua pessoa e com a nação, está ali para morrer. Mas essa é outra história.

Claude Debussy
Há no livro, também, mil e uma tiradas repletas de humor e fanfarrice, como as do milionário Eduardo Prado, por exemplo. Mas o foco central é a vida do jovem Achille-Claude Debussy, o pianista e compositor que, com talento extraordinário, conseguiu superar as dificuldades de uma vida medíocre e se impor como um dos grandes representantes da música francesa de todos os tempos. Hoje é considerado o criador da música impressionista. E esse retrato, por outro lado, vai se construindo de pequenas filigranas políticas e alguns malabarismos diplomáticos, em que entra em cena a chegada de Eça de Queiroz a Paris, para assumir, como cônsul, a representação de Portugal na França. O fato, por si só, é impagável, ainda mais porque protagonizado pela mulher do antecessor: a Viscondessa De Faria. Mas há muitos outros momentos desse naipe espalhados pelas páginas do livro, compondo o arcabouço da narrativa almeidiana.

Ao concluir a leitura, a sensação que fica é uma só: o Brasil é um grande arquipélago composto de pequenos arquipélagos, como diz o professor Ático Vilas-Boas da Mota do alto de seus conhecimentos e experiência. Os estados da federação, mesmo com a assistência do governo central, acabam ficando muito a dever, pois os representantes políticos veem a arte e a cultura, para dizer o mínimo, como antípodas aos seus interesses pessoais, geralmente mercantilistas e corporativos.

Livros como esse deviam ser editados por uma grande editora e distribuídos nacionalmente, para que os jovens tivessem acesso a uns instantes mágicos da história universal. O pianista que o escreveu — Oriano de Almeida — partiu vendo sua obra apreciada apenas por leitores do seu pequeno arquipélago: Rio Grande do Norte. Se tanto. 

 

Brasília, 17 de junho de 2012. 




* João Carlos Taveira é poeta e crítico literário, com vários livros publicados. Pertence à Academia Brasiliense de Letras, à Associação Nacional de Escritores (ANE) e ao Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal. Mais informações biobibliográficas no Google, especificamente na Wikipédia.