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domingo, 26 de fevereiro de 2017

10% - Raick Tavares

10%


           
Raick Tavares
Norma impaciente mexia em seu cabelo preto e balançava o corpo feito uma gangorra. Já havia quase uma hora que estava na fila de autógrafos do seu autor nacional preferido. Suas pernas formigavam e ela estava super hiper apertada para ir ao banheiro. 
              “Ai, o que a gente não faz por um autógrafo. Esse Raick é um gato” ela jogou uma mecha do cabelo para trás da orelha. 
             Ela queria muito aquela assinatura, como qualquer leitora apaixonada, tinha que ficar.  Já estava quase na sua vez. 
             Norma ao ver que já estava quase frente a frente daquele que ela tanto admirava, pensou que ia desmaiar ou dar um treco. Antes de aproximar, se beliscou. 
             A assistente do autor sinalizou para a garota, fazendo ela sair do seu transe. Ela se aproximou com um sorrisão bobo em cada ponta da orelha.   
             — Olá, qual seu nome? — Ele perguntou esticando a mão para pegar o livro. 
             — É...  — Ela estava estática. 
             — É? 
             — Ah, Norma Militão. 
             Raick meneou a cabeça e prendeu um sorriso assinando o livro.  Ele olhou para Norma com simpatia.
             — Você quer uma foto também? 
             — Sim, sim, sim, quero! — Ela respondeu ainda meio boba. 
             Ele se levantou arrumando o blazer vermelho e se posicionou ao lado da garota, que toda atrapalhada tirou o seu smartphone do jeans. 
             Norma entregou o celular para assistente e fez uma pose segurando o livro. Raick abriu um sorriso meio torto e a foto saiu. 
             O autor a abraçou e estava pronto para o próximo da fila quando a curiosidade de Norma a fez virar e fazer a célebre pergunta: 
             — Um escritor ganha muito no livro, né?
             — Se 10 % for muito...  — o autor respondeu com um sorrisinho sarcástico.
             A garota coçou sua nunca, olhou para os dedos, contou e não satisfeita prosseguiu: 
           — Mas só isso!? E como cê paga as contas?
             — Aí eu tenho que rebolar...  
             — Ah tá... — Ela suspirou.
             Norma abraçou o livro decepcionada, abaixou sua cabeça e deu espaço para o próximo da fila passar. 

Raick Tavares nasceu em 1992 em João Pinheiro - MG. Radialista há dez anos, palestrante, colunista e idealizador do projeto podcast Um Livro C/ Café.  Atualmente mora na cidade de Paracatu – MG, com a esposa.


sábado, 25 de fevereiro de 2017

Galo da Madrugada - Daniel Barros*







      Acordar cedo com uma leve ressaca, para acompanhar o galo. Levanta, toma um bom café, e se prepara, nada de relógio, cordão de ouro, carteira... apenas dinheiro espalhado em vários bolsos, identidade no compartimento interno da bermuda. Assim, quase “nu”, comete os primeiros desatinos do dia. Não passar protetor solar, por não gostar do cheiro, nem usa chapéu, pela preocupação de perdê-lo.
      O clube carnavalesco GALO DA MADRUGADA surgiu em 1978, na Rua Padre Floriano nº 43, bairro de São José, Recife, capital de Pernambuco, criado por Enéas Freire. Em 1995 foi oficialmente considerado o maior bloco de carnaval do mundo pelo Guinness book, livro dos recordes. O clube dos mascarados Galo da Madrugada atingiu, em 2011, um milhão e setecentas mil pessoas. De lá para cá, não para de crescer. Em 2012, dois milhões. Este ano estima-se que acompanharam, pelas ruas do centro de Recife, cerca de 2,5 milhões de foliões. 
      O sol matutino do Nordeste do Brasil já o fez arrepender-se dos desvarios cometidos, um deles, esquecer o protetor solar. Apesar de ser avesso a corridas (Cooper), inicia seu carnaval correndo, pois precisa chegar à Frevioca — onde as melhores músicas eram cantadas — que está à frente no bloco. Quase na metade da corrida, uma pequena parada, ôba! Uma cerveja, latão a três e cinquenta centavos, ótimo preço. Mais outro “corridão”, e agora o que o aflige é o medo de não encontrar banheiro, o que fazer? Sem beber não dá, sem ter onde se aliviar, lascou!
      Indubitavelmente o maior bloco do mundo. E será difícil ser batido um dia, a não ser que haja uma drástica redução da população recifense. A alegria do frevo é contagiante: impossível ficar parado. Popular e democrático, pois ao menor sinal de mudança no ritmo pernambucano, os foliões protestam até a volta dos ritmos tradicionais. O maior bloco de carnaval do mundo também poderia ser o maior bloco gay do planeta! (Duvido haver concentração semelhante em qualquer outra parte.) Que meus amigos pernambucanos não fiquem com mágoa de mim, mesmo porque tal convívio só demonstra o espírito de respeito à diversidade desse povo magnífico, de uma cultura esplêndida e tão diversa na riqueza de ritmos e imagens, o que ressalta a tradição e alegria pernambucana.
      Todos os anos, um notável esquema de segurança é montado, com policiais dispostos ao longo de todo o trajeto. Acompanha-se a Frevioca na mais tranquila paz, até o final do desfile. Quando os primeiros blocos já estão dispersos, para-se para tomar uma cerveja. É aí que, de repente, abre-se no meio dos foliões um espaço e as pessoas começam a correr. Típico de início de briga. Homens, mulheres, velhos e crianças buscam um lugar seguro. Entretanto, para o bem dos foliões, surgem vários homens com bonés cor de laranja, a Polícia Militar, que trajam tais bonés para serem mais bem identificados no meio da multidão. Delinquentes iniciam uma tentativa de arrastão, como é característico dessa corja de marginais, covardes e oportunistas, correm da polícia, justamente em direção à população ordeira, causando ainda mais medo a todos.
      E para não perder o costume — contrariando o poeta João Carlos Taveira e o professor Ático Villa boas, que sonham com o dia em que eu abandone as armas para me dedicar inteiramente às letras, como fez Ruben Fonseca — ou até mesmo pelo instinto profissional, sinto-me compelido a algo fazer, mas o quê? Como foi dito, estava “nu”, totalmente desprovido de qualquer instrumento de trabalho para devida intervenção. Como ajudar, sem por em risco a própria vida e a das pessoas que estavam ao lado? Nisso, vendo a aproximação dos policiais, escolhi um dos marginais que corria na frente. Súbito, desferi um chute certeiro na canela dele, que titubeou e caiu um pouco mais adiante, sendo agarrado pelos policiais que vinham logo atrás. Vendo isso, um “marinheiro”, pois assim estava fantasiado um brincante ao lado, sujeito baixo de rosto redondo e faces suadas, aproveita o descuido de outro pulha e o pega pelo pescoço, entregando-o à polícia. Logo começam os aplausos de apoio e agradecimento àqueles homens e mulheres, cabeças laranja, que com suas honradas ações, permitem que se brinque o carnaval com paz e tranquilidade. Assim, Pernambuco tem não só o maior e mais belo carnaval do Brasil, e também o mais seguro e prazeroso.

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Daniel Barros, escritor alagoano, reside em Brasília.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

UM LIVRO MÍSTICO OU MÍTICO? - João Carlos Taveira

UM LIVRO MÍSTICO OU MÍTICO?*



João Carlos Taveira



PoloBooks - São Paulo - 2016
As Lâminas do Tarô e os Doze Trabalhos de Hércules, na verdade, constitui um desafio para o leitor apressado, que não só precisa desvendar o livro antes de qualquer entrega, como também compreendê-lo amorosamente na sua compactação estilística, mesmo depois de ter percorrido cada página, cada poema, cada palavra. A forma fixa às vezes assusta, pois no mundo de hoje a arte poética tornou-se mais fácil de ser absorvida quando se apresenta sem técnica, sem preocupação formal, sem compromisso estético.

Adotando os 21 trunfos do tarô, mais o curinga, Solidade Lima constrói um mosaico de filigranas, composto como se fora um tapete finamente tecido de sons e de palavras. E numa visitação ao universo medievo, por intermédio de uma reinvenção simbólica, o poeta traz intactas as vicissitudes de um mundo moderno e arcaico ao mesmo tempo. A poesia, e só a poesia, tem esse poder revolucionário dentro da linguagem escrita. Metaforicamente, lembra-me das ousadias de Augusto dos Anjos.

Embora jovem, Solidade Lima, depois de uma série de livros escritos e de vários prêmios arrebatados pelo país afora, já é autor maduro e consolidado: conhece bem a língua de comunicação e as armadilhas provindas da escrita; e, aqui nesta seara, sabe safar-se com destreza e perspicácia de possíveis perigos gramaticais, na construção de seu discurso poético. Escolheu o soneto, invenção italiana do século XIII, para expressão do desatino verbal e encontrou nas cartas do tarô e na mitologia os arquétipos do seu espanto. Um visionário moderno em busca do velocino de ouro. Mas talento não lhe falta.

O soneto — do italiano sonetto, pequena canção ou, literalmente, pequeno som — foi criado na primeira metade do século XIII, na Sicília, onde era cantado na corte de Frederico II da mesma forma que as tradicionais baladas provençais. Alguns estudiosos atribuem a invenção do soneto a Jacopo da Lentini, poeta imperial siciliano. Esse tipo de poema surgiu como uma espécie de canção ou de letra escrita para música, e possuía, inicialmente, uma oitava e dois tercetos, com melodias diferentes.
Algum tempo depois, o soneto evoluiu até atingir sua forma fixa hoje conhecida, ou seja, um poema composto de quatorze versos, sendo dois quartetos e dois tercetos, com rimas ou não. Há, ainda, os que invertem a disposição estrófica e os que buscam a tradição do soneto inglês (três quartetos e um dístico), praticado no século XVI por William Shakespeare, e aqueles que cultuam o soneto monostrófico, que apresenta uma única estrofe de quatorze versos. Há, também, alguns poetas que o praticam em metros menores e até sem metro algum. O certo é que há, entre nós, exímios (es)cultores de versos decassilábicos e alexandrinos, conforme a tradição italiana e ibero-americana.

Os modernistas de 1922 — que isso fique bem claro! — se insurgiram contra o soneto por uma questão muito simples: eles precisavam parecer modernos muito mais do que ser modernos; e, para isso, era preciso quebrar e pisotear algumas regras, principalmente as da ortografia e as da gramática, atacar as formas fixas tradicionais e esculhambar de vez com o pensamento canônico brasileiro. E esse, a meu ver, foi o grande desserviço da Semana de Arte Moderna para as futuras gerações de poetas e artistas visuais, que levaram ao pé da letra todo aquele descompromisso com as tradições e com as normas vigentes. Hoje, pinta-se um quadro sem saber desenho, perspectiva, etc.; escreve-se um poema sem ter lido poesia, sem saber versificação e sem respeitar as normas cultas da Língua.

O presente volume está subdividido em três partes: “As lâminas do Tarô”, que apresenta 22 peças referenciais; “Os doze trabalhos de Hércules”, com poema para cada um deles, e “Sonetos”, que soma mais 54 unidades, perfazendo um total de 88 sonetos voltados para os temas propostos e que encontram na voz do poeta pernambucano radicado na Bahia a erudição precisa e o domínio técnico seguro para elevação de uma elegância sintática a serviço da estética e da beleza. Solidade escreve como quem compõe melodias. E a musicalidade de seus poemas deve-se, sobretudo, aos versos decassilábicos heroicos e, mais raramente, aos sáficos, mas ambos construídos com a mesma devoção artesanal e o mesmo cuidado de um ourives na confecção de uma joia rara.

Com este novo livro, o autor de As Vestes do Tempo se inscreve, sem nenhum favor, no restrito círculo de ouro da moderna literatura brasileira. E que venham a lume outros títulos, já que a maioria de sua obra ainda permanece inédita. Mas por pouco tempo — é o que os leitores de Solidade Lima esperamos, sem reservas e pra já.


Brasília, 22 de fevereiro de 2016.


João Carlos Taveira
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* Texto de introdução ao livro As Lâminas do Tarô e os Doze Trabalhos de Hércules, Editora PoloBooks , São Paulo, de 2016.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Mar de pedras - Maurício R. B. Campos*

Hemingway
Mar de Pedras é o terceiro livro de Daniel Barros, que antes escreveu “O Sorriso da Cachorra” e “Enterro sem Defunto”. O escritor é policial civil do Distrito Federal, onde reside, mas o alagoano faz questão de honrar suas origens. A literatura de Barros é fortemente influenciada por Ernest Hemingway, mas remete também a Roth e Bukowski. O livro tem uma forte carga de erotismo, o protagonista Henry é um Hank Moody, um Henry Chinaski, um Don Juan moderno, um desses homens que nasceram com algum mel feromônico, que é certeza de boas histórias e muita confusão quando se vive cercado de belas mulheres, como é o caso do fotógrafo de moda em questão.


Jorge Amada
Nesse romance o escritor demonstra um esmero por tornar o livro mais acessível, buscando um número mais amplo de leitores. Isso fica claro em cuidados como uma estrutura de capítulos de leitura fácil, os parágrafos e os capítulos são curtos, não mais do que uma cena em cada um. A linguagem é clara sem perder o cuidado literário, temperado aqui e ali com uma pitada de expressões e modos de dizer regionais. A revisão de João Carlos Taveira é precisa e o cuidado gráfico da edição salta aos olhos.
Philip Roth


O romance se passa a maior parte do tempo na ilha do Croa em Alagoas. Daniel Barros deixa o ambiente urbano de Brasília e Maceió e traz suas histórias e personagens para uma pequena vila de pescadores, que se torna o universo do livro, com seus reis e sua corte, sua lei própria e os absurdos que dominam a política brasileira. A capacidade de nos transportar para a história, que já estava presente no segundo livro (“Enterro sem Defunto”) é levado a outro patamar nesta obra: a brisa do mar, o cheiro do peixe, a sombra da rede, a pele suada morena de sol, o Atlântico quebrando nas pedras do arrecife, são estes os novos elementos na prosa de Barros, que consegue desenvolver muito bem as personagens e o cenário.


https://www.amazon.com.br/Mar-Pedras-Daniel-Barros/dp/8540903652/ref=sr_1_1?s=books&ie=UTF8&qid=1487516436&sr=1-1&keywords=mar+de+pedras



Em seu terceiro romance Daniel Barros está próximo de sua plenitude como autor. O livro está muito bem costurado, bem desenvolvido, mas novamente o final não é o esperado pelo leitor. A surpresa é o elemento que caracteriza os últimos capítulos do livro. O escritor busca imitar a vida com finais realistas em suas obras, nos conduzindo por um rio que não deságua no mar, mas corre para as serras. É um modo de marcar o livro em nossa memória, sair do lugar-comum, mas os leitores que apreciam a prosa picante e viva do autor, almejam que nem todas as batalhas sejam perdidas, por mais que estejamos em uma luta de Davi contra Golias.

Charles Bukowski


Pesando tudo isso na balança o livro vale a pena. Se você gosta de Hemingway, Phillip Roth, Charles Bukowski, Jorge Amado ou literatura erótica, com certeza vai gostar. Se essa não é sua praia, experimente conhecer algo diferente, pois pode ser surpreendente.



*Mauricio R B Campos nasceu em São Paulo, em 1977. Com formação em Administração, trabalha no mercado financeiro. É casado e está radicado em São Carlos (SP) desde 2008.
Maurício R. B. Campos
Publicou contos em diversas antologias, dos mais variados gêneros literários, tanto em formato tradicional quanto e-book, das editoras Komedi, Andross, Aped, Ixtlan, Illuminare, Multifoco, Navras Digital, Babelcube Inc., Darda e Buriti.
Como roteirista participará da antologia de HQ "O Rei de Amarelo em Quadrinhos".
Mantém um Website, uma conta no Twitter, Facebook e mais outras tantas redes sociais que não dá conta de verificar, atualizar, postar e compartilhar.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Tergiversações - Alceu Brito Corrêa

Alceu Brito Corrêa
Tergiversações
1– O que restou da novela
Quase cem anos depois a 
Velha matrona pede que
Sua desafeta gitana
Cuide de sua família...

2- Cremação
...cinzas descansarão em paz
onde a força do vento as deixar.

3- Túmulo
É um filho não querer saber de seu pai.
É não querer saber-se amado.
Não há flores que possam 
compensar tantas mágoas...


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

BIRUTA - Paulo Tadeu Poli


Biruta
BIRUTA 
Mecanismo constituído por um cone de tecido acoplado a um aro de metal e utilizado em aeródromos para indicar a direção do vento. 



                  A um só tempo estridente e seco o som do tiro repercutiu os ecos que se espraiaram sobre o lago artificial. O pato que sobrevoava aquelas águas plácidas por certo ouvira aquele barulho destoante, sem supor que lhe dizia respeito, até que vários chumbos esféricos, ao transfixá-lo, o tornassem ciente de que o ardido espocar era a ele endereçado.
               

Naquele alvorecer de domingo o serviçal nordestino que apreciou o tiro certeiro, disparado pelo engenheiro, recebeu a ordem peremptória e correu em direção ao lago, sem atentar para o fato de que a folga o desobrigava de atender o chefe, ou sequer, que precisaria saber nadar para cumprir aquela missão de resgatar o pato. Ambos, o nordestino e o pato, sucumbiram entre as galhadas submersas.
                  No escritório da Porto Estrela, empresa subsidiária da Paranapanema do empresário Elieser Batista, pai do hoje detento Eike Batista, em Paranaíta, MT, soou o alarme do rádio anunciando uma chamada. O diálogo entre diretores da empresa, um da base na cidade e outro da remota mina de ouro conhecida por Planeta - distante quarenta minutos de voo em pequenos aviões - foi lacônico e claro: havia urgência em se retirar  “o acidentado” do garimpo, embalsamar o cadáver e transportá-lo para Picos no Piauí o mais rápido possível.
                  Esbaforido um funcionário da mineradora me trouxe o recado.
                  Eu tinha dois contratos com a empresa Porto Estrela: o da assistência médica, através do hospital que possuía na cidade, e o de transporte aéreo em decorrência dos quatro pequenos aviões de outra empresa da qual eu era sócio. Assim, aquele tiro que descortinou o domingo lá na mina no Planeta, me atingiu simultaneamente nas duas funções: eu teria que embalsamar e depois transportar o corpo do humilde serviçal até à presença dos seus pais, mulher e filhos, lá no Piauí.
                  Os murmurinhos nos bastidores dos dois escritórios, difundidos via rádio ou telefone, já que Internet não existia, repercutiu em minutos para outras esferas da grande empresa e, de imediato, causou preocupação na matriz em São Paulo. Havia um grande contingente de homens, que resgatados pela empresa em suas origens, buscavam em novos horizontes a redenção do perene sofrimento imposto pela imutável pobreza nos rincões do nordeste. Assim, se deixavam levar pelo "canto da sereia" abandonando, por tempo incerto, mulher e filhos.
                 
Ocorria, em muito maior volume, a emigração espontânea como a da Serra Pelada onde milhares de forasteiros, por conta própria, partiam para aquele local, cuja fama, ganhou o mundo. Outras tantas regiões garimpeiras do norte do Mato Grosso e Sul do Pará, naqueles idos da década de 1980, acolheram outras milhares de pessoas que, na maioria, desempenhavam atividades das mais variadas. Aquele episódio, que culminou na morte do humilde e prestativo serviçal, foi presenciado por vários outros nordestinos e fez aguçar o sentimento de crônica humilhação que cada qual resguardava. O mínimo, portanto, que a imponente empresa poderia fazer era o de dar ao falecido a pompa de um féretro heróico. A assistência à família da vítima teria que ser proporcionada com a maior brevidade. Isso, ao menos, abrandaria a inquietação.
                  Designei um piloto, com um monomotor, para resgatar o morto. No hospital todos os preparativos necessários para o embalsamamento. 
                  Eviscerado o cadáver, desprovendo-o primeiro dos pulmões e coração, visando esvaziar o tórax e, na sequência, as vísceras do trato digestivo; transferi para as cavidades torácica e abdominal grande quantidade de algodão, encharcado em formol. Uma sutura contínua com fio inabsorvível do apêndice xifóide à sínfise púbica encerrou o procedimento.
Aztec
                  Os bancos dos passageiros do bimotor Piper Aztec foram retirados, para conquistar espaço suficiente, para o caixão.
                  Tão implacável quanto a morte é o tempo. O mesmo tempo que transforma a inexistência em vida e o viver finito. Ele, o tempo, me pressionava sobremaneira nesse dia.
                  O pediatra do meu hospital tinha em mãos passagem comprada para o Sul, destino de todos nós nas férias. Foi difícil convencê-lo a me acompanhar. Poucas horas depois ele diria que o meu poder de convencimento era quase letal.
                  A empresa tinha designado para representá-la o Cido. Corruptela de Aparecido. Possuía história peculiar esse rapaz, daí viria um novo apelido a encompridar o original: Falecido. Isso porque, com muita frequência, era abordado para que contasse a razão pela qual mudara para o Mato Grosso. Como os apelos eram sempre iguais: conte Cido, fale Cido, fale. Assim ficou: Falecido. Era natural do Uruguai, filho de mãe brasileira que há pouco tempo havia emigrado para o país vizinho visando exercer atividade profissional nem de todo explicitada pelo Falecido. O pai, esse sim, Uruguaio, viúvo, que instigado a conhecer o Brasil pela nova esposa e tendo visto neste país grandes perspectivas de investimento, resolveu converter o seu considerável patrimônio em dinheiro para aplicar em negócio rentável no Rio Grande do Sul. Isso ocorreu logo após o nascimento do Falecido. Portanto, o mancebo não chegou a conhecer a sua terra natal. Assim, tornou-se, o pai, considerável atacadista, um dos maiores fornecedores dos supermercados da região. A mãe, vocacionada, como se antevia, apesar da confortável situação econômica propiciada pelo marido fugiu com um viajante, vendedor habitual daquele comércio. O uruguaio entrou em depressão até encontrar outra sirigaita, essa muito mais ambiciosa. Influenciado por ela passou a jogar. Não cartas, ou em cassinos, mas em loterias. Comprava o que parecia jornais em bilhetes nas lotéricas. Investia nisso todo o lucro do seu próspero negócio. Antes que comprometesse a saúde financeira da sua empresa, porém, deu-se bem. De tanto jogar ganhou. Milhões. Vendeu a empresa que somou ao vultoso prêmio, com esse montante adquiriu um grande frigorífico no Mato Grosso. A madrasta do Falecido pediu o divórcio e levou consigo o capital de giro da nova empresa. O Uruguaio, além do mais, era neófito no ramo. Quebrou, rapidinho, e cometeu suicídio. O Falecido, o filho, Falecido com maiúscula, ficou no desamparo total. O Pai, no breve período do frigorífico, conhecera o Elieser Batista, daí, o filho, ter conseguido o emprego na Porto Estrela.
 Ao embarcarmos no avião, o pediatra e eu, tínhamos, portanto, como acompanhantes dois falecidos. O filho do uruguaio, Falecido com inicial maiúscula e o falecido Agripino, fazendo jus ao seu pobre destino, com minúscula.
Essa história real, diga-se, tem décadas. Mas, já naquela época, havia o pôr do sol e havia os burocratas, os carimbos e os relógios, o bom senso e o "non sense." Naquela época não havia, como ainda não há, a humildade dos poderosos, como deixou patente a altivez do engenheiro, não havia o amor próprio dos humildes, como fez ver o impulso solidário e fatal do Agripino e não havia o GPS que hoje ensina até o caminho da padaria.
 O nosso destino naquela tarde era Conceição do Araguaia para pernoitar e no dia seguinte Picos no Piauí. Teria que voar com a rusticidade tecnológica da ocasião: com um olho na bússola e outro alternando o solo e o mapa.
 A última carimbada se deu por volta das quinze e trinta, papelada do traslado do defunto pronta decolamos às quinze e cinquenta. Os “carimbeiros” venceram a lógica das horas e a do sol, que acabrunhado, pôs-se a se pôr curvando-se à inevitabilidade dos fusos horários.
 Calculava chegar em Conceição nos últimos minutos do entardecer. Nariz do bimotor para cima nivelei aos quatorze mil e quinhentos pés. Não demorou avistei a Serra do Cachimbo à minha esquerda. Ali, naquela ocasião, o governo militar de plantão cavocava um enorme buraco para testar uma eventual bomba atômica. Projeto que simbolizou a bravata beligerante da ditadura das armas. Cerca de uma década após, outra fanfarronice foi simbolizada por uma pá de vitrine, toda lustrosa, lançando terra na imensa cratera para informar que o que nunca existiu não existiria mais. As mãos do então presidente Fernando Collor de Melo, bizarramente, seguravam aquela pá. 
O Falecido, na falta de poltronas, viaja sentado sobre o caixão do Agripino. Como representante da empresa lhe caberia lugar mais nobre. Entretanto, declinou dessa prerrogativa em benefício do pediatra. Poderia ser explicada essa gentileza apenas pelo cavalheirismo; mas não, havia algo a mais nessa cordialidade. Naquela região em que habitávamos, no extremo norte do Mato Grosso e naquela época, deu-se um fenômeno migratório pouco usual: embaralhavam-se agricultores e garimpeiros, empresários e fazendeiros, comerciantes e funcionários de empresas, de modo a não se estabelecer distinção social aparente na rotina do dia a dia. O Enio, ao surgir por aquelas bandas identificou-se, nas ocasiões em que era interpelado, como fazendeiro. Ia de um lugar para outro buscando informações para a compra de uma propriedade agrícola. Lá estava na condição de investidor, designado pelo seu pai e irmãos que, juntos, possuíam vários sítios no interior do Paraná. Foi se tornando conhecido entre os comerciantes, era muito comunicativo e brincalhão. Já fazia mais de mês que aportara por lá, quando numa festividade no clube do centro de tradições gaúchas, houve um episódio revelador: uma menina de uns dez anos, repentinamente, começou a ter espasmos musculares que para leigos era tal qual uma crise epilética. De imediato várias pessoas cercaram a criança e estabeleceu-se a balbúrdia. Nessa confusão o Enio, que aceitara o convite para a festa, aproximou-se e perguntou para a mãe, que chorava em desespero, se havia sido ministrado algum medicamento à menina. A mãe comentou, sem lhe dar muita atenção, que tinha dado Plasil porque ela vinha vomitando há dois dias. Enio perguntou a dosagem, ela informou. Ele fez o diagnóstico em alto e bom som: síndrome extrapiramidal. Chegaram ao hospital em instantes, se apresentou e eu permiti que assumisse o caso. Resolveu a crise com maestria. Foi quando o conheci e foi quando todos ficaram sabendo que o despojado comprador de terras era médico e pediatra. Algum tempo depois, resolveu se estabelecer por ali e trabalhar comigo. A criança era filha da namorada do Falecido, que estava junto naquele episódio.
 Agora estava ali, o competente pediatra, sentado ao meu lado na poltrona que seria do copiloto, caso houvesse um. Os motores ronronavam em uníssono. Naquela altitude não havia turbulências. Céu de brigadeiro. 
O Enio leva o dedo indicador esquerdo ao mapa que ficava aberto em meu colo e, fazendo um movimento em leque, me pergunta: estamos voando de Oeste para Leste, certo? Assenti balançando a cabeça. Sendo assim, não teríamos diferença de fuso horário no nosso destino? Conceição do Araguaia não irá escurecer antes de Alta Floresta de onde partimos? Percebi o meu próprio empalidecimento. Todo o meu estoque de adrenalina foi lançado, num átimo, na circulação. Um leigo, o Enio, atentou para um fato decisivo sobre o qual eu, o piloto, não havia pensado.
Na proa, cinco mil metros abaixo, cruzava a nossa rota com todo o seu esplendor, o rio Xingu. Sua aparição e as curvas que o mapa no meu colo grafava indicavam que estávamos na rota correta e no tempo previsto. Não fosse o meu erro, tão elementar, pousaríamos em Conceição no limite do pôr do sol. O Enio voltou a perguntar, imaginando que eu não tivesse ouvido em decorrência do barulho dos motores. Disse-lhe que, de fato, isso ocorreria, que a escuridão iria inundar o nosso destino antes que o alcançássemos. Que eu não avaliara esse fato. Que havia cometido um erro crasso e que, finalmente, estávamos em uma grande emergência.
 A selva amazônica como um tapete verde lá embaixo. Vez ou outra um desmatamento indicava a presença destruidora do homem. O Falecido foi informado por mim da nossa situação. Caiu o silêncio, como um véu de chumbo. Os motores, alheios à fatalidade que se anunciava, mantiveram o ronco monótono, agora parecendo mais encorpado.
Meus dois filhos eram crianças e a minha esposa, companheira desde a nossa adolescência, ainda nos dias atuais bela e formosa, aguardavam apreensivos pelo nosso retorno. Dentre os tripulantes apenas eu deixaria órfãos. O Agripino já havia se antecipado e tanto o Enio quanto o Falecido eram solteiros. Minha incompetência geraria imensos problemas para a minha família. Já dava como certo que não sobreviveríamos. O pato abatido pelo engenheiro seria pago por nós. O Agripino teria sido, apenas, o sinal da dívida. 
Paulo Tadeu Poli
Conclui, após refletir espremendo cada conhecimento adquirido na minha já considerável experiência como piloto de garimpo; que não deveria insistir em encontrar Conceição do Araguaia. Que deveria, enquanto havia alguma visibilidade, tentar pousar em alguma área desmatada que encontrasse no percurso. Com a escuridão seria praticamente impossível localizar a iluminação de uma cidade pequena mergulhada entre morro na selva amazônica. Comuniquei aos meus acompanhantes que tentaríamos um pouso forçado, de barriga - com os trens de pouso recolhidos - para encurtar o trajeto percorrido após tocar no solo, minimizando a chance de alteração da trajetória. Pedi para que me ajudassem a encontrar algum desmatamento. 
Nariz do Aztec para baixo, diminuição imediata da potência visando perder a excessiva altitude, para aquelas condições, e, olhando em varredura para o solo na busca desesperada por algum espaço, menos denso da mata, naquele tapete verde de selva. 
Eis que surge, e eu mesmo avistei, uma grande área desmatada, discretamente à esquerda da rota original. Ajustei a proa e afundei o nariz do avião que passou a voar a quase quatrocentos quilômetros por hora. Ao nos aproximarmos daquele desmatamento, já voando bem baixo, notei uma estradinha característica de fazendas, muito tortuosa entre vários troncos de árvores derrubadas, muitos deles enormes, típicos das imensas castanheiras que dominam aquela vegetação. Orientei aos dois companheiros que, quando eu gritasse, eles deveriam enfiar as cabeças entre as pernas e protegê-las com as mãos. Fui gradualmente acionando os flapes, eles permitiriam que eu mantivesse o avião em voo com o mínimo de velocidade, cerca de 170 km/h, com a qual tocaríamos o solo.
Circunvolucionando Edição do autor
 Sobrevoando a precária estrada, aguardava por um trecho minimamente reto, para jogar o avião no chão. Avistei uma semirreta logo a frente, muito curta, mas teria que ser ali, a visibilidade já estava muito comprometida, escurecia com rapidez incrível. A curva que se acentuava ao encerrar a tímida reta era à direita, eu já estava com os pulmões insuflados, prestes para gritar, quando levantei os olhos e avistei logo após a dita curva uma biruta. Estava inerte, desinflada, rente ao palanque que a fixava. Àquela hora com os pássaros se recolhendo, acossados pelo lusco-fusco, não havia vento algum, por isso o desânimo da biruta. Nenhuma imagem ao longo da minha já longa vida impregnou tanto a minha memória.
 Fiz urrar os motores empurrando com vigor as manetes de potência, o nariz do Aztec elevou-se e avistamos uma maravilhosa pista de grama. Pousamos suavemente, com os trens abaixados e travados, na fazenda Volksvagem à margem do rio Cristalino, no Pará.



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O FÃ - Cristiane Krumenauer

O fã
 


   Aconteceu o que tanto queria. Ser reconhecida por um leitor na rua, ou melhor, numa churrascaria. Fiquei sem palavras. O garçom ofereceu-me uma maminha ultra-assada. Eu, gaúcha de carteirinha e certidão de nascimento, disse:
   
   - Prefiro malpassada. E quanto mais suculenta, melhor. Gosto da carne cheinha de sangue.

   Ele me olhou de soslaio e de repente, perguntou:

   - Você não é aquela escritora que vive matando personagens? A tal da Cristiane Krum... Krumnauar (ninguém sabe mesmo pronunciar meu sobrenome!)

   - Sim, sou eu – respondi, toda feliz de ser reconhecida por um fã.

   O garçom sacudiu a cabeça, pensativo, com o espeto de maminha torrada na mão esquerda e uma faca afiada na direita.

   - Por que você matou o cara? Eu gostava dele, achava que aquele personagem devia viver.

   - Que cara?

   - Ah, você não sabe? Deve ter matado um monte de personagem, então.

   Remexi na cadeira:

   - Olha, apenas fui coerente com a história. Se o personagem morreu, é porque tinha que morrer – respondi, sem saber ainda de qual personagem o garçom falava.

   - Isso é egoísmo. Quando o leitor gosta, você vai lá e mata o cara? – Ele ainda segurava a faca. Parecia que a apontava para mim.

   - Ah, desculpe – era prudente não contradizer alguém armado.

   - Vai querer malpassada mesmo ou esta maminha serve? – agora a faca balançava de um lado a outro.

   - Serve sim, serve sim.

   Achei melhor uma carne torrada no meu prato do que crua. Sabe-se lá o que ele serviria depois.



Cristiane Krumenauer
Autora de Atrás do Crime; Chamas da Noite; 
Memória, Imaginação e Narração e da série Contos da Namíbia

domingo, 19 de fevereiro de 2017

VIVENDA - Farida Kindzu

VIVENDA

Minha casa é uma graça!
Minha casa tem graça...
Pelos brinquedos espalhados e inúmeros “vai calçar o chinelo”.
Pelas invenções de professor Pardal, fiozinhos, pregos e parafusos.
Presença constante de amigos, família e de uma delicadeza Bela.
Música sempre há.
Latidos, piados e cacarejos.
Mas também há
Alguns entraves, que com gracejos
Devem se desarmar.
Esta é minha casa
Que, com bênçãos do Divino
Há de se perdurar.


sábado, 18 de fevereiro de 2017

Caçada Proibida - Raick Tavares*

Caçada Proibida

              “O meio mais fácil de destruir seu inimigo é pensar como ele pensa”. Ou era isso que se passava pela mente de Marcinho. Com o estilingue em punho e um olho fechado, ele mirava em uma lagartixa, pronto para despregá-la do muro da casa da sua avó materna.
             — Márcio Rocha de Melo — Dona Maria berrou da porta da cozinha. — Quantas vezes já te falei pra não mexer com essas lagartixas, menino? — ela colocou a mão na cintura esperando o neto retrucar com alguma desculpa esfarrapada.
             — Mas vovó.... — Ele abaixou sua arma.
             — Não tem mais nada! — Ela interrompeu o neto apontando o dedo indicador da mão esquerda para ele. Com a mão direita na cintura rechonchuda, ela emendou — Eu já te falei rapazinho, se eu ver o senhor estragando meu muro caçando esses bichos, vô pegar a que matou e vô fritar pro cê comer.
             — Eca vovó — o menino disse com cara de nojo.
             — Agora, me passa pra cá esse estilingue — dona Maria ordenou estendendo a mão.
             — Ah, nem vovó — Marcinho resmungou relutante...
             Mesmo sem querer Marcio foi bonzinho e obediente ao comando da sua vovó, lhe entregando o bodoque com as munições que restavam.
             — Rum... — murmurou a senhora prendendo os lábios e franzindo suas finas sobrancelhas grisalhas onde ainda restavam alguns pelos negros.
            Dona Maria, depois de ter confiscado o brinquedo do neto, entrou em casa.
             Marcinho jogou os ombros aborrecido e se sentou no piso de concreto. Apoiou os cotovelos nos joelhos e suas mãozinhas apoiaram seu rosto em um formato de cuia.
             Não poderia mais fazer nada, sem seu estilingue, apenas olhava bem para seus arqui-inimigos quase mortais, desfilando na parede do muro. Ele arquitetava algum plano, enquanto admirava os passos delas.
             — Marcinho, o almoço tá pronto — sua avó o chamou perto da porta.
             — Já tó indo vovó....
            Ele se levantou às pressas e antes de entrar no banheiro, Marcinho fitou a lagartixa com os olhos semicerrados, balançando sua cabeça conforme a lagartixa fazia com a dela. “Não se preocupe minha amiguinha, logo, logo voltamos a brincar”.
O garoto saiu ao encontro de sua avó para lavar as mãos e se sentar à mesa já que a sua caçada fora proibida. Por enquanto.

Raick Tavares

* nasceu em 1992 em João Pinheiro - MG. Radialista há dez anos, palestrante, colunista e idealizador do projeto podcast Um Livro C/ Café.  Atualmente mora na cidade de Paracatu – MG, com a esposa. 


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

ENTERRO SEM DEFUNTO - João Carlos Taveira

ENTERRO SEM DEFUNTO, DE DANIEL BARROS


                               João Carlos Taveira*


Editora Ler 2011 - Brasília
Daniel Barros não é só uma promessa, mas uma revelação da nova literatura brasileira. E o romance foi o gênero escolhido para expressão de suas inquietações, de seu estar no mundo. Depois do sucesso do livro de estreia (O sorriso da cachorra), chega a este Enterro sem defunto com grande vigor criativo e amadurecido domínio das técnicas exigidas pela modernidade. Sua oficina romanesca, de certa forma, amplia o discurso tradicional na busca de uma dicção própria, em que elementos ficcionais entrelaçam fatos históricos com fatos cotidianos vivenciados pelo autor. A originalidade, todavia, é meta precípua deste alagoano determinado e audacioso.      
O enredo do livro, com utilização de flashback, se desenvolve em múltiplos planos da ação narrativa, para desaguar, como em um filme noir, no suspense, mas sem final feliz. O narrador, embora onisciente, detém-se mais em sugestões do que em afirmações... E deixa tudo em aberto. Cabe ao leitor interpretar o conteúdo e escolher o desfecho que melhor lhe aprouver. 
Ernest Heminway

A linguagem utilizada nunca é rebuscada, embora cuidadosa no apuro vocabular e sintático. Daniel Barros, a partir de suas vivências, como já foi dito, veicula ideias muito próprias acerca do mundo recriado. E, à maneira de um Graciliano Ramos, de um Ernest Hemingway, por exemplo, não esconde o desconforto e o pessimismo diante de certos acontecimentos da vida e se rebela, às vezes, contra soluções inconsequentes do Poder Público. 
Enterro sem defunto, pela ousadia do conteúdo, merece, desde já, lugar certo em nossa estante e deve receber o devido reconhecimento de leitores e de crítica. É o mínimo que se espera.

___________________________________

João Carlos Taveira
* João Carlos Taveira é poeta e crítico literário, com vários livros publicados, entre os quais se destacam O Prisioneiro, Canto Só, Aceitação do Branco, A Flauta em Construção, Arquitetura do Homem. Tem poemas traduzidos para o Espanhol, o Italiano, o Romeno e o Russo e pertence a várias entidades, tais como Associação Nacional de Escritores, Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal e Academia Brasiliense de Letras

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Solitários Pesadelos - Alceu Corrêa

Solitários Pesadelos

Horror dentro do peito! Asco?
Pavor? Medo?  Discórdia? Desamor?
Por que desamor? _ Que horror!
Quem ele ama não o quer, quem
lhe quer, ele não quer!
Sonhos, são sonhos desatinados!
Corre como um louco em
busca de um amor, leviano que seja!
Improbo, imoral, impudico: proibido!
Mas que aqueça seu coração
ora frígido, inerte, inerme!
Há consolo? Há soro possível?!
Há vida sem esse ardor? Há remédio?
_ Só cura um amor real outro
de mesmo valor sentimental!!!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

MARCHA DA VADIAS - TOM TORRES

A Marcha das Vadias

– Benhê, vamos pra marcha das vadias...
– O quê?!
– Marcha das vadias.
– Que diabo é isso?
– É a marcha das mulheres que apanham dos maridos.
– E desde quando eu bato em você?
– Você não entende...  É a solidariedade feminina.
– E o que as suas amigas vão pensar ao lhe verem lá?
– Não vão pensar nada.  A maioria também estará lá.
– Ah, é?!  Mas elas estarão defendendo causa própria.
– Como assim?
– Elas apanham dos maridos.
– Nem todas.
– Mas a maioria apanha.
– Por isso que vou ser solidária!
– Para com isso!
– Então, quero que você me bata para eu não chegar lá de cara lisa!
– Como?!
– Um tapinha só, com as costas da mão...
– Ficou doida?
– Doida por um tapa, nem que seja de brincadeira. Por que com tanto homem bruto no mundo eu achei de me casar com um frouxo?
– Como?!
– Frouxo, sim! Como é que você sabe que eu não gosto de apanhar?
– Tá maluca?!
– Maluca estava no dia que achei de me casar com você!
– ?!
– Todas as minhas amigas apanham do marido, só você que quer ser diferente. Diferente, não; frouxo!
– Para com isso, mulher!
– Você sabia que já lhe chifrei com o vizinho aí de cima? Aquele sim, é que é macho!
– O quê?!
– E o porteiro? Você nunca desconfiou de nada não? Por que você acha que ele só entrega as correspondências depois que você sai de casa?
– Aquele safado do Bigodinho?
– Ele e o que tira a folga dele.
– Mulher, eu sou contra a violência, mas você tá pedindo pra apanhar...
– E você é esse homem todo pra bater em ninguém! Homem é o Jair, do 401...
– O quê?! Aquele safado que mal me dá bom dia?!
– Ele e o amigo dele, o Alfredinho.
– Cala essa boca, maldita!
– Não calo! Venha me bater se você é homem!
– Mulher...
– Venha! Me bata, seu corno frouxo!

Plac! pluft! pôu e pau!

– Viva! Agora eu posso ir pra marcha das vadias de olho roxo!  Obrigada, meu amor! Era tudo mentira, viu?

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

RELATO DE UMA GERAÇÃO - Jari Zamar

RELATO DE UMA GERAÇÃO

Não vamos fazer ilações
Apenas queremos contar
Cumprimos o nosso papel
Deixamos perguntas no ar

Pesquisas de escola num click
Informes em tempo real
O mundo transmuta tão rápido
E tudo parece igual

Matamos, morremos, oramos
Agimos em nome de Deus
Ainda que sendo ateus
Corremos o risco de amar

Amar também basta clicar
Vencemos doenças incríveis
Erguemos castelos de sonhos
A net vem no celular

Berlim não possui mais o muro
Mulheres a se libertar
Paris vibrou na primavera
A fome prossegue a rondar

As duas torres derrubadas
Mais um símbolo que se foi
E pedras sendo arremessadas
Mulheres sangrando de amor

Guitarras gemendo no rock
O meio-ambiente a chorar
Trem bala e balas perdidas
Achadas num corpo a calar

Vitória, derrota ou empate?
Que importa? Chegamos à Lua
Estamos voando pra Marte
Não vamos fazer ilações

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

AINDA HÁ LUZ, APESAR DA CEGUEIRA - Pedro César Batista

Ainda há luz, apesar da cegueira.


Precisamos retomar estes sonhos, não perdê-los, jamais, em nossa caminhada.

Por Pedro César Batista

A quantidade de luzes e cores tem deslumbrado as pessoas, não se vive um ensaio sobre a cegueira, como pensou Saramago. Ela está generalizada e, aparentemente, será duradoura, além de contagiante.

Passei vários dias seguidos fora de Brasília. Estive com povos e culturas distintas. Primeiramente em Cuba, em seguida, em terras de três Povos Indígenas, retornando depois à capital do Brasil. Longe desta, pude ver que, apesar da falta de lucidez, da propagação do individualismo e do reacionarismo e fascismo, outros mundos são possíveis, sustentados por povos que resistem e ousam possuir um olhar mais justo e fraterno entre seus membros e para o mundo exterior.


A Ilha rebelde

Durante 10 dias nas terras de José Martí, Camilo Cienfuegos e Fidel Castro, vivenciei, ao lado de um grupo de dezenas de brasileiros – entre eles, comunistas, estudantes, servidores públicos, aposentados e crianças -, vivi outra realidade, completamente distinta do que vivemos por estas terras do planalto central. Comprovamos que um povo é capaz de superar a miséria que lhe foi imposta por um grupo de lacaios dos norte-americanos, que usavam a ilha como um bordel, violentando de todas as formas sua população. A ousadia dos barbudos que atravessaram o golfo do México e desembarcaram do Granma, contagiou de forma duradoura os cubanos, que conseguiram em poucas décadas criar uma sociedade nova, onde a dignidade humana, em todas as suas formas, pudesse se manifestar com força e criatividade.

Cuba, um país pobre, garante a todos os seus habitantes a educação, a saúde, a cultura e os direitos necessários para que seja uma sociedade justa e igualitária, por meio de uma economia planificada, assegurando o controle social por meio da efetiva participação, por meio dos Comitês de Defesa da Revolução – CDR’s e dos diversos mecanismos que asseguram uma democracia direta para seu povo. Mesmo sofrendo, desde 1961, um feroz bloqueio econômico, inúmeras campanhas de difamação e agressões militares, inclusive com a ocupação de seu território pelos EUA, que mantém uma base militar em Guantánamo. Enfrentou o período especial, superado e vencido pelo povo e governo, capazes de reconstruir a economia nacional, preservar e ampliar as conquistas da Revolução. Além de seguir praticando a solidariedade aos povos de todo o mundo, pois atualmente há equipes de cubanos atuando nas áreas da saúde, engenharia e educação em 124 países. Nenhum outro país tem uma ação internacional de solidariedade de tamanha envergadura.

Alguns inimigos da revolução e do socialismo, costumam mandar os que apoiam o povo cubano para este país, não sabem os estúpidos que em Cuba é possível vivenciar uma alegria e felicidades contagiantes, capazes de inspirar e animar o combate as injustiças sociais que crescem no mundo capitalista. Ir para Cuba é como receber uma forte vacina contra as mentiras que sustentam o capitalismo, é compreender que apesar de todas as demonstrações de retrocesso que o mundo enfrenta há uma luz que irradia a esperança e disposição para espalhar um tempo novo, de justiça, dignidade e igualdade entre homens e mulheres.  

A resistência dos povos originários

E depois da forte injeção de ânimo na Ilha, desloco-me para terras indígenas a fim de desenvolver uma atividade profissional. Entre os povos indígenas permaneci mais 10 dias, conhecendo uma riqueza material e imaterial de valor inestimável. São áreas que apenas seguem sendo valiosas graças a limitação a exploração imposta pela legislação, que asseguram a fauna, flora e vastas jazidas minerais e hídricas nas mãos de seus verdadeiros donos originários. Se não fossem as normas existentes, estas riquezas estariam nas mãos dos conglomerados econômicos e restariam mais pessoas miseráveis e mais terras devastadas, transformadas em infernos verdes de soja e outras monoculturas. Mais que isso, a existência das terras indígenas garantem a preservação de idiomas, culturas e idiossincrasias próprias desses povos, que resistem a uma exploração secular.

Quantos povos indígenas foram dizimados desde 1500? Felizmente, existem povos indígenas que crescem em sua população, assegurando a preservação de suas identidades, conseguindo se organizar, articulando-se entre os diversos povos, negociando com o governo e grandes projetos na defesa de seus interesses. São povos que, apesar de viverem à margem da sociedade de consumo e do mercado, conseguem educar suas crianças em seu próprio idioma, recebendo a orientação necessária de suas lideranças para o uso das ferramentas tecnológicas disponíveis, mas que não perderam sua identidade própria.

Foram dias entendendo o porquê da desconfiança dos indígenas para com os brancos. Motivos não faltam, após séculos de exploração, mortes e saques. Mesmo existindo um órgão para defendê-los, eles precisam fazer o mesmo que todos os mais fracos necessitam, que é organizar-se para defender seus interesses. Nada mais que isso.
Os indígenas merecem respeito por sua cultura e identidade, comprovando que a diversidade e a riqueza étnica e cultural existentes no Brasil fazem deste país um nação privilegiada e única no mundo. O que falta, por aqui, é justiça social.      

Em terra de branco

De volta a Brasília o que encontro?

Na capital federal posso ver a síntese do que os cubanos combatem e os indígenas resistem. O Estado, que, em tese, deveria servir aos interesses de toda a sociedade, é dirigido por um grupo de serviçais do grande capital, controlado por banqueiros, latifundiários e especuladores da pior espécie. Estes, depois de romperem um acordo com o governo eleito, após a cassação da presidente Dilma Rousseff, agem conforme todas as diretrizes apontadas por Nicolau Maquiavel. Rapidamente, aprovam mudanças na Constituição Federal congelando o investimento de recursos públicos na execução de políticas para os mais necessitados por duas décadas. Colocam todo o aparelho de Estado, coordenados por ações do Judiciário, para assegurar a legalidade da retirada de direitos elementares da população, atacando, de forma cruel, prioritariamente aqueles que mais precisam da estrutura pública.

Pedro César Batista
Para dar sustentação a essas ações, sem dúvida criminosas, pois atacam a população mais carente, a grande imprensa, comandada pela Rede Globo, utiliza a televisão como um palanque contínuo para deformar os fatos e fazer a população crer que as ações em curso são melhores para todos. O que dizer de tanto cinismo, quando o governo tem servido de maneira eficaz aos interesses do agronegócio, quando autoriza a venda de terras brasileiras aos estrangeiros, quando deixa de investir na Petrobras e retira da empresa o monopólio para a exploração do petróleo no país, quando defende uma reforma previdenciária que colocará milhões de trabalhadores em completa penúria, especialmente os mais pobres, quando definirá a data limite para a aposentadoria para homens aos 70 anos e para as mulheres aos 65 anos, inclusive do campo? O que dizer de tanta desfaçatez contra os mais necessitados?

Ao mesmo tempo, em todo o mundo, a cultura do consumo, do individualismo e da negação da importância do trabalho aumenta. Cresce de tal maneira que os mais pobres em todo o planeta não mais poderão circular, nem entrar em outros países, como nos EUA, que diferente de Cuba que atua de forma humanitária em mais de cem países, têm provocado guerras, realizado invasões e financiado o terror em todo o planeta. Há uma crescente injustiça no mundo, com um número cada vez mais reduzido de milionários concentrando a riqueza produzida por bilhões de trabalhadores e trabalhadoras por todos os continentes. O que tem importado é aumentar e concentrar a riqueza, deixando cada vez um número maior de pessoas em situação de miséria e abandono. Os estados nacionais se transformaram em filiais das transnacionais monopolistas. Estas, como parasitas, seguem sugando o trabalho e as riquezas naturais no planeta, colocando em risco cada vez mais a continuidade da espécie humana.

Esta situação mostra a importância da defesa da experiência desenvolvida em Cuba e pelos povos indígenas, os quais são capazes de resistir, defenderem seus direitos e conquistas, apontando para a utopia de um mundo onde as pessoas, a fauna e a flora vivam em completa harmonia.

Combater às injustiças, a exploração do homem pelo homem, a destruição ambiental e das culturas cada vez mais torna-se uma obrigação, uma necessidade, assim criando as condições para que o imaginário do planeta deixe de ser o consumo, o individualismo e a busca pela satisfação de seus interesses privados, mas que seja a construção de uma relação mais justa entre as pessoas e a natureza, onde o trabalho seja valorizado e a riqueza produzida distribuída de forma igualitária e justa.

É preciso romper a ignorância propagada pelos serviçais do grande capital, que atuam de maneira covarde e cruel em todos os lugares, para que seus patrões sigam destruindo sonhos e utopias.

Assim como foi a revolução russa, em novembro de 1917 – faz um século neste ano, que tirou um país do feudalismo e o transformou em uma potência capaz de derrotar o nazifacismo, levando a sua população a um patamar de vida nunca antes visto, Cuba segue sendo esta luz na história da humanidade. Foram o bolcheviques, os sovietes, agora, o CDR e o Poder Popular, ou a resistência dos povos indígenas, todos seguem firmes na defesa da utopia de um planeta justo, com homens e mulheres emancipadas, livres e felizes.


Precisamos retomar estes sonhos, não perdê-los, jamais, em nossa caminhada.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

A ARQUITETURA VERBAL DE NILTO MACIEL(*) - JOÃO CARLOS TAVEIRA

A ARQUITETURA VERBAL DE NILTO MACIEL(*)


João Carlos Taveira 


Nilto Maciel não é só um escritor. Além de um bom escritor e de um imprescindível articulador literário, é o artista da palavra que sabe compreender e assimilar os avanços estilísticos de seu tempo. E, como tal, procura, sem nenhuma demonstração de cansaço, o aperfeiçoamento do próprio estilo, para melhor conduzir a narrativa na construção de seus personagens. Nesse sentido, sua escritura o aproxima não de um Graciliano Ramos, também nordestino, mas do Machado de Assis, maduro e inconfundível, de Quincas Borba e Memorial de Aires.

Nilton Maciel 1945-2014
O romance A Rosa Gótica, (...) publicado recentemente, é um verdadeiro testemunho da maturidade da pena de Nilto Maciel. Ali se encontram, com facilidade, fundamentos inarredáveis para a confirmação dessa tese. Com aquele livro, o criador de Os Varões de Palma consegue a perfeita sincronia entre memória e ficção, entre verdade histórica e verdade ontológica, numa clara exibição de seu domínio dos arquétipos da linguagem, dos liames da narrativa.

Sua oficina romanesca comporta o absurdo, o fantástico, o linear, o surreal e, não raras vezes, o satírico, o burlesco, o humorístico. Seus temas, por diversos, exploram desde o corriqueiro e trivial triângulo amoroso, passando por perquirições do gênero policial, até o mais intrincado universo psicológico – carpintaria digna dos melhores mestres da arte ficcional.

Após a publicação de mais de uma dezena de livros (romances, contos, crônicas, poemas, infanto juvenis), o autor de Babel vem se firmando como um dos mais promissores representantes de uma geração de escritores que hoje vivem fora do eixo Rio/São Paulo. Isto comprova mais uma vez que a Literatura, como a Arte de um modo geral, não depende de geografia, de localização espacial, muito menos de escolas ou de círculos fechados, para poder manifestar-se e, quando genuína, consolidar-se. 

Detentor de vários e importantes prêmios literários, Nilto Maciel permanece fiel ao seu artesanato meticuloso. A cada livro publicado, verificam-se novas descobertas e uma outra luz se acendendo às possibilidades do leitor. E essa versatilidade do ato de contar histórias vai criando, ao mesmo tempo, uma atmosfera cada vez mais propícia àquele compromisso com a verdade e a beleza, assumido desde os primeiros livros, e que faz do autor de Baturité um artista completo.

II
Vasto Abismo, 1998, Ed. Códice, Brasília.


Vasto Abismo é sua estreia no gênero novela. Com este livro, Nilto Maciel inaugura ampla possibilidade para suas inquietações criadoras: outro canal para sintonia e transmissão de suas desconcertantes mensagens. E se inscreve, sem hipérbole, no fechado círculo da genuína arquitetura verbal iniciada por Cervantes. Este livro, deve-se dizê-lo, vem envolto pela aura e pelo signo da maturidade, uma vez que seu autor já ultrapassa a casa dos cinquenta e encontra-se em pleno domínio das técnicas exigidas para a construção da narrativa ficcional deste fim de século.

A primeira novela da coletânea, intitulada “A Busca da Paixão”, está dividida em três partes e representa a espinha dorsal do conjunto. A peça constitui um mergulho nas lembranças de um homem que parte em busca de seu passado e, principalmente, de sua infância, de suas origens étnicas, – viagem que compreende um desnudar-se contínuo, num jogo de claros-escuros intermitentes e silêncios povoados de doces reminiscências e terríveis fantasias. (Há pouco, verifiquei na obra poética de Anderson Braga Horta uma interação com a Música. Em Nilto Maciel, encontro, com indisfarçada alegria, uma aproximação com o Cinema, que hoje já não pode prescindir da linguagem musical para realizar-se artisticamente como uma linguagem visual.)

Feito Orfeu, o protagonista vai aos infernos à procura de sua identidade, tendo por companheiros Helena, a namorada de circunstância, a memória dos lugares antes percorridos e (des)conhecidos e o desespero de estar só. (“Aqui estamos, eu e meu desespero, a guiar os passos para não pisar em falso e cair na arapuca.”) A trama, labiríntica, constrói-se de sobressaltos e incertezas que vão, a pouco e pouco, desvelando a traumática personalidade de um ser que, ao se descrever, se circunscreve no terreno próprio da Mitologia, com suas implicações no campo da psique humana.

Encontram-se, ali, focos esparsos, porém contundentes, da gênese do mito do eterno retorno de Nietzsche: como se chega a ser o que se é. Nilto Maciel, nesta novela, cria um personagem-narrador autossuficiente, cujo nome Tanguera é apenas uma referência indígena circunscrita ao universo da linguagem e cuja vida vazia e sem sentido o situa perante um dilema permanente: precisa desvencilhar-se com urgência da mediocridade do tempo presente, da existência sem brilho, da falta de objetivos, para tentar reencontrar-se e, consequentemente, salvar-se de si mesmo e do mundo que o rodeia. (“Tanguera sou eu. Tanguera não existe. Tanguera é aquele menino que envelheceu e virou fantasma.”) E, nesse desespero metafísico, empreende a busca definitiva — pessoal, intransferível — do que está irremediavelmente perdido, mas que, no seu desvario, pode perfeitamente ser reinventado. Leia-se a infância e suas possibilidades agora extintas para sempre. (“E eu temia não passar da primeira frase.”)

A novela termina. O que era temor e incerteza transformou-se em pedra, sedimentou; e o que tinha a simples feição da aspereza, com suas vísceras de fel e fogo, voltou a fazer vicejar outros sonhos e esperanças. A conclusão do leitor, no entanto, não será jamais aquela em que os meios justificam os fins. Dentro da visão artística de Nilto Maciel, nada tem valor por si mesmo nem está a salvo da corrosiva ação do tempo, se para a reconstrução do ser não se tentar pelo menos o risco do improviso, mesmo sabendo-se, de antemão, que este ser configura-se na imperativa certeza do não-ser. 


III

Seguem-se-lhe outras seis narrativas viscerais, sendo que as três últimas se caracterizam mais dentro dos limites daquilo que se poderia chamar de mininovela. São elas: “O Julgamento de Rui”, “Taciba Vai ao Céu” e “Quarteto”.

A segunda narrativa, intitulada “Vasto Abismo”, e que dá o título geral da obra, constrói-se dentro de dois universos opostos: a erudita e ordinária existência de Isaque Paiva, com seus conhecimentos da língua de Virgílio e sua paixão avassaladora pelos livros, e, em contraposição, os seus sonhos de poeta frustrado diante do amor de uma bibliotecária que, além de leitora inveterada de subliteratura, ainda é casada com um militar estúpido e ciumento. 

Nessa novela, Nilto Maciel explora seus conhecimentos da literatura policial de maneira muito velada, não entrando nos domínios do mistério, tampouco no campo da investigação. A história desenvolve-se naturalmente sob os influxos do próprio enredo, e me parece bem próxima daquela tensão ambicionada pelo romance psicológico — em que a tragédia se delineia desde o início, e, a cada página, a cada capítulo, vai preparando o leitor para o seu desfecho inevitável. Isaque Paiva é um ser atormentado em busca de redenção. E esta redenção está muito bem esculpida pela mão ágil do criador de A Guerra da Donzela. Enfim, Vasto Abismo cumpre, ainda que timidamente, todas as exigências patenteadas pelo modernismo surgido após a década dos anos 1960.

Em “Boi da Cara Triste (Parábola de Escárnio e Maldizer)” — analogia com o folclórico “Boi da Cara Preta” –, o foco narrativo se volta para um tema tipicamente nordestino, com as paisagens áridas e miseráveis da região, onde a vida só tem sentido em si mesma. As relações sociais há muito estão desintegradas, e não se sabe mais onde começa o homem e termina o animal. O que impera naquele cenário grotesco é a carência, quer seja no terreno econômico, quer seja no campo afetivo. O drama vivido pelo protagonista, o Zé Carroceiro, uma espécie meio às avessas de Dom Quixote e Zé Bigorna, é descrito por intermédio de uma linguagem elaborada com base no seu universo psicológico. Tudo é pensado e realizado com a maior economia de meios, sendo que o resultado, surpreendente, já nem choca, conquanto possa estarrecer. Denúncia? Impotência diante de um mundo desumano e cruel para com seres vitimados pela injustiça social? Certamente sim.  

Já em “O Bom Selvagem”, narrada na primeira pessoa, temos a história de um índio bororo desencantado com a cultura do homem branco. Depois de ter-se diplomado em Letras, viajado pela Europa e adquirido conhecimentos em várias línguas — muitas das quais fala fluentemente —, resolve, sob a influência de um padre, escrever a História do Brasil, ou melhor, traduzi-la para a língua de seu povo — conforme fica estabelecido desde o início da narrativa. Só que nessa empreitada não se deixa enganar pelas aparências, pelas artimanhas contidas no manuscrito. Sabe perfeitamente que o Brasil não nasceu dos portugueses, o que o situa em permanente conflito consigo mesmo. À medida que vai narrando, a reflexão surge automática. Seu propósito, entretanto, não é ser tradutor; no íntimo gostaria mesmo era de contar a própria vida e realçar as peripécias da infância até a idade adulta. Daniel Álvares — nome que os brancos lhe deram, ao aculturá-lo — antes se chamava Bokodori, fato que certamente muito contribuiu para o acirramento de seus conflitos. (“Meu desejo é esquecer o que aprendi e pôr para fora minhas verdadeiras emoções, ser eu mesmo, Bokodori e não Daniel Álvares.”)

Esse índio, na verdade, não é mais índio, tampouco branco. Vive entre dois mundos e não pertence a nenhum deles. Sua identidade está definitivamente comprometida: critica os brancos e não aceita mais os índios. E dessa tormenta existencial nasce, malgrado suas ponderações satíricas sobre o teor do texto em elaboração, todo o inconformismo que marca seu trabalho de tradutor, de intelectual.

Nilto Maciel, sempre senhor do seu ofício, conduz a novela num vaivém de símbolos e signos, em que a beleza sintática está a serviço da verdade humana mais recôndita; seu labor instrumental, ao revelar-se na feitura do texto literário, impõe leituras as mais diversas, não obstante a limitação da forma e dos meios impostos pela contenção verbal que caracteriza seu processo criador.  


IV

Para mim, que venho estudando, com prazer e afinco, a História da Música e a História da Literatura — sobretudo no campo da ópera e da poesia —, resta uma conclusão até certo ponto bastante óbvia: a Arte, com o passar dos séculos, é a mais genuína manifestação humana sobre a face da Terra. Nenhum trabalho realizado pela mão do homem deixa frutos tão perenes quanto a expressão artística, porque esta é o código que delimita seu espaço entre o Sagrado e o Profano. E, consequentemente, seu vínculo com a espiritualidade transcendente, com o mistério que envolve a origem e o destino de todos os seres e coisas.
João Carlos Taveira

Desse modo, encontro na produção do Autor deste belo e instigante Vasto Abismo — coleção de novelas curtas, incisivas e originais — uma completa incorporação dos caracteres humanos, com toda a sua problemática psicológica, econômica e social, em consonância com os valores estéticos embutidos na proposição de uma arte sempre comprometida com a solidariedade, com a catastrófica situação em que se encontra o homem moderno, completamente desassistido por um sistema cada vez mais mecânico e imbecilizante.  

Portanto, para a obra de Nilto Maciel, posso usar tranquilamente as palavras finais do prólogo de Jorge Luis Borges a A Invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares: “Não me parece uma imprecisão ou uma hipérbole qualificá-la de perfeita.”  


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* Texto de introdução do livro de novelas Vasto Abismo, 1998, Ed. Códice, Brasília.