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segunda-feira, 15 de abril de 2019

Daniel Barros - por Raick Tavares

PRÉ-VENDA! GARANTA JÁ O SEU EXEMPLAR!
https://www.editorapenalux.com.br/loja/canto-escuro
Eu tive o prazer de conhecer o Daniel Barros em 2014, pelas redes sociais e depois pessoalmente. Passei a ser seu leitor e admirador do trabalho. 
Comecei minha leitura a partir do romance Enterro Sem Defunto. Depois li seus outros dois romance, O Sorriso da Cachorra e Mar de Pedras, e todos, tive o mesmo impacto. Ele é um escritor que sabe dosar bem os capítulo, curtos e enxutos, e ser direto indo ao ponto. 
Ao fundo, AST Ivan Marinho
Sua prosa nacionalista me ensina sempre e me faz enxergar o Brasil com seus enormes labirintos e profundas desigualdades sociais.
Depois de 4 anos, ele nos presenteia com Canto Escuro (PRÉ-VENDA! GARANTA JÁ O SEU EXEMPLAR! ), que ouvi muito sobre e tive a oportunidade de conhecer um release do romance, antes de ir para editora. Daniel Barros é o autor que você precisa conhecer não só uma obra, mas todo o seu trabalho. Ele, com sua escrita fluida e ritmada, irá te instigar do primeiro ao último parágrafo.
Raick Tavares
Escritor e jornalista

terça-feira, 30 de maio de 2017

UMA OBRA EM VERDE MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA - João Carlos Taveira


Em meados do século XIX, o naturalista britânico Charles Robert Darwin alcançou fama ao convencer a comunidade científica da ocorrência da evolução das espécies e propor uma teoria para explicar como ela se dá por meio da seleção natural. O mundo, perplexo, demorou um pouco para absorver tamanha ousadia. Mas acabou cedendo em sua resistência, para a felicidade geral das nações.

Editora Kiron 
Hoje, um século e meio depois, o ecossociólogo Eugênio Giovenardi propõe uma teoria semelhante, em termos científicos e revolucionários. Uma Obra em Verde (2015) está para o futuro da vida no planeta como A Origem das Espécies (1859) está para a compreensão da vida em todas as suas dimensões. E não há nisso nenhum exagero.

Diante da evolução dos meios de produção e dos avanços tecnológicos, não existe mais espaço para abstrações como “quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?”. A questão agora é outra. Como o homem irá sobreviver junto às outras espécies, sem exterminá-las? Como irá garantir vida ao solo e à água, sem preservar rios, nascentes, árvores, florestas? Como haverá de lidar com a superpopulação e a escassez, sem destruir a vida de seus semelhantes com atitudes cada vez mais tacanhas e irracionais?

Se Darwin introduziu a ideia de evolução a partir de um ancestral comum, por meio da seleção natural, e esta se tornou a explicação científica dominante para a diversidade de espécies na natureza, Eugênio Giovenardi está a nos dizer a plenos pulmões que, mesmo diante das dificuldades de aceitação e respeito à ecocomunidade, é possível salvar o homem que caminha a passos largos rumo a sua própria extinção.
Eugênio Giovenardi

Uma Obra em Verde é uma proposta ousada, porém simples, que deve figurar urgentemente como manual de sobrevivência em todas as comunidades leigas e científicas. E é, antes de tudo, o testemunho de um homem que, em mais de quarenta anos, vem observando, estudando e respeitando a vida em suas mais diversas manifestações, e agora quer compartilhar conosco as suas preocupações legítimas com relação ao futuro das espécies.

E Eugênio Giovenardi também nos diz que a Terra, apesar de tudo, continuará girando a trinta quilômetros por segundo em volta do Sol, independentemente do homem, que poderá estar aqui ou não.


Brasília, 11 de setembro de 2015.   


João Carlos Taveira
* João Carlos Taveira é poeta e crítico literário, autor de vários livros publicados, entre os quais Arquitetura do homem (poesia) e A arquitetura verbal de Nilto Maciel (fortuna crítica). Em 1994, recebeu do Governo do Distrito Federal a Comenda da Ordem do Mérito Cultural de Brasília. E em 2002 foi eleito para a Cadeira n.º 26 da Academia Brasiliense de Letras, cujo patrono é o poeta simbolista Cruz e Sousa.



quarta-feira, 24 de maio de 2017

A CONSTRUÇÃO POÉTICA DE NAPOLEÃO VALADARES João Carlos Taveira



Nestes tempos de pós-modernidade, de poesia neobarroca, de poema verbivocovisual e outras designações que têm norteado certa poesia praticada entre nós, o surgimento de um livro de poesia que explora a linguagem dos signos e dos símbolos, concomitantemente palatáveis à compreensão geral, é motivo suficiente para a manifestação de uma resenha ou de um artigo em letra de imprensa.


Vamos, pois, ao livro. Trata-se de Delírio Lírico, poema longo, em trinta e quatro cantos, de Napoleão Valadares, editado por Edições Galo Branco, Rio de Janeiro, 2008, e lançado em Brasília em novembro deste ano. O poema é todo construído em decassílabos brancos, sem estrofes, cujos cantos têm 49 versos cada um, exceto os de números V, VI e VII que se estendem a 80, num total de 1.759 versos. O assunto é tratado em ordem cronológica e abrange mais de 30 séculos de história, que se inicia com a Guerra de Troia (séc. XIII a. C.), passando por Sócrates, Platão, Aristóteles, até chegar praticamente aos nossos dias.
Napoleão Valadares, na sua construção poética, optou pela narrativa épica em que, com mestria e bom humor, funde a linguagem nobre, clássica, à linguagem popular, atual, numa tirada muito interessante e jamais vista em nenhum poeta brasileiro de qualquer escola. Mas o que salta aos olhos e aos sentidos é a correção gramatical, o domínio da língua, a clareza de expressão, a concisão. Além, é claro, do senso de humor nas “pilhérias” e “invenções” que o Autor derrama pelo texto afora. Sirva-se de exemplo o Canto XXVI, em que o narrador, em diálogo com Camões, ouve do mestre de Os Lusíadas a seguinte confissão: “Amor é fogo”, numa clara alusão ao célebre soneto “Amor é fogo que arde sem se ver”, do bardo português.
Por força da circunstância de leitura, há que se fazer agora uma referência enfática: ao longo do poema são praticados os mais variados tipos de verso decassilábico, que vão dos mais comuns (heroico e sáfico) aos de maior raridade. Por exemplo: a gaita galega (também chamada moinheira), decassílabo que apresenta sílabas tônicas nas posições 4, 7 e 10; e o que Anderson Braga Horta chama de “decassílabo átono”, aquele cuja décima sílaba abre mão da tônica para criar um novo tipo de enjambement – o que desafia a linguagem poética em benefício da fluência rítmica da prosa. Deve-se acrescentar que, de rara apresentação nos poemas latinos, esse tipo de verso aparece, no entanto, algumas vezes em letras de música. (Quem ama a poesia e conhece um pouco os seus mistérios sabe que a figura da métrica no poema não é, como na música, uma regência implacável sobre o ritmo. Mas sabe, sobretudo, que é o ritmo que dá beleza à música, bem como ao poema. Fora disso, a poesia escrita sob os parâmetros do que foi mencionado no primeiro parágrafo deste texto corre sério risco: pode cair no vazio absoluto ou no descrédito normativo da língua. E aqui cabe um provérbio chinês: “O tolo corre onde o sábio não andaria”.)
Napoleão Valadares
A temática simples, porém inusitada de Napoleão Valadares, exposta por intermédio de um personagem delirante, vítima de febre intermitente, abrange o conhecimento universal da política, da filosofia, da cultura, das artes; enfim, da história da humanidade, em seus mais variados arcabouços linguísticos e semânticos. E apresenta – et pour cause – um conhecimento profundo das coisas e das mazelas do mundo. A exemplo de Machado de Assis e Francisco Carvalho – para citar somente dois escritores que nunca saíram de sua terra natal e conhecem cada canto do mundo, cada rua e cada pedra de muitas cidades, sem ter viajado para nenhuma delas –, Napoleão Valadares vai descrevendo vilas, urbes, países, continentes inteiros, só pela leitura sistemática e pelo estudo regular. Seu texto é uma vitória sobre o turismo funcional e dirigido...
Outro registro que vale a pena ser consignado é com relação à simetria de alguns grupos de versos encontrados em três cantos do poema. A saber: no Canto XXV, que trata do Descobrimento da América, há, além da simetria, um reducionismo consciente do verso “Colombo olhando o azul” para, dez versos abaixo, “Olhando o azul” e nos dez seguintes, simplesmente “O azul”. No Canto XXVIII – sobre Shakespeare – ocorre semelhante simetria do número oito entre os versos “Hamlet, o Príncipe da Dinamarca”, “Depois, Otelo, o Mouro de Veneza” e “rapazes muito diferentes delas”. Finalmente, no Canto XXXII – num encontro com Dostoiévski e Tolstói – pode ser facilmente encontrada a relação com o número sete entre os versos “porque o primeiro, condenado à morte”, “O outro, mundana mocidade, estroina” e, finalmente, “os meandros da alma humana conhecia”. Mas esta numerologia deverá ser tratada em outro estudo.
Napoleão Valadares, com este livro, apresenta um poema novo e singular, mas não pretende inventar ou reinventar estilo nem fundar escola. Quer tão-somente fazer partícipe o leitor dos delírios da febre, nesta grande viagem pelo mundo e pela história da humanidade, empreitada que realiza, com percuciente habilidade, por intermédio de uma linguagem poética fluente e agradável.
Delírio Lírico é leitura obrigatória para todos aqueles que amam a tradição e aceitam o novo, pois essa dicotomia geralmente possibilita maior compreensão e fruição da Arte, seja ela musical, pictórica ou literária.


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João Carlos Taveira
* João Carlos Taveira, mineiro de Caratinga em Brasília desde 1969, é poeta e crítico literário, com vários livros publicados, entre os quais: O Prisioneiro (1984), Aceitação do Branco (1991), A Flauta em Construção (1993), Arquitetura do Homem (2005). Em 1994, recebeu do GDF a Comenda da Ordem do Mérito Cultural de Brasília.

sábado, 20 de maio de 2017

BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO DA VIDA E OBRA DE SALOMÃO SOUSA - João Carlos Taveira



Salomão Sousa
O poeta Salomão Sousa nasceu na zona rural, onde passou a infância, foi alfabetizado e teve as primeiras experiências com o universo da poesia e profundas vivências com a natureza, que alimentam de maneira inequívoca o seu modo de expressão criativa. Em 1964, aos doze anos, transferiu-se para Silvânia, cidade do percurso de desbravamento do estado de Goiás, para continuar o ensino fundamental. Ali, aprofundou o contato com a poesia brasileira no acervo da biblioteca pública do município.
No início de 1971, transferiu-se para Brasília, onde concluiu sua formação secundária e superior. Formou-se em Jornalismo e, por concurso, ingressou no serviço público federal; desde então, vem construindo “a poesia de consciência e a escritura de combate”, conforme destacou o escritor Ronaldo Cagiano em resenha definidora da obra do autor de O susto de viver.
Ainda na década de 1970, Salomão Sousa fez algumas incursões no movimento da Poesia Marginal e publicou A moenda dos dias (1979), livro inaugural de “uma poesia inovadora, sem as camisas de força estilísticas, arejada, original, portanto moderna”, como aponta Cagiano na resenha referida. Safra quebrada, que reúne os livros publicados até 2007, dá a dimensão humana e artística de quem soube produzir sem pressa e, ao mesmo tempo, manter-se consciente de cada etapa de sua carreira. 
A obra de Salomão Sousa dá seu contributo ao cenário da moderna poesia brasileira de forma muito contundente. Das muitas leituras já feitas sobre essa poesia, é importante destacar a observação crítica de Naomi Hoki Moniz – atual diretora de Estudos Portugueses na Universidade de Georgetown –, publicada em 1979 na Revista Iberoamericana, sobre A moenda dos dias, quando a articulista fazia mestrado na Harvard University:  
Sua utilização de uma tradição poética permite diferenciá-lo do muito que existe no país de modismo de vanguarda superficial que caracteriza certos movimentos. Ele evita traços de populismo e espontaneísmo, constrói um discurso despojado e simples, mais comprometido com a veracidade do que está sendo dito do que com obscuras e vazias ordenações estéticas.
Ao resenhar Estoque de relâmpagos para o Correio Braziliense, a professora de literatura Lígia Cademartori, respeitada tradutora e ensaísta, contextualiza a poesia que Salomão Sousa passou a praticar a partir do livro em epígrafe:
... a particularidade de sua poesia não reside nos efeitos de som e, sim, na organização das imagens. A profusão delas provoca o leitor para que procure as relações que estabelecem e, por esse modo, descubra a mitologia autoral que as ordena. Ao extrair força poética do substantivo, Salomão Sousa compõe sua própria lição de coisas. Nem todas imediatas, é verdade. Algumas são inalcançáveis. Mas, no radical contraste entre certas imagens, podem-se encontrar essenciais efeitos de sentido e o provável princípio que preside as expressões figuradas. Pois a linguagem não faz concessões. Concisa e avessa ao voo livre, essa é poesia de linhagem autorreflexiva.
Antônio Miranda e Salomão Sousa
Antonio Miranda, poeta de múltiplas invenções e vasta obra publicada, no Portal de Poesia Ibero-Americana registra o seguinte sobre Ruínas ao sol:
Não é uma leitura fácil, muito menos óbvia, por causa da linguagem densa e das desavisadas associações de imagens e de ideias, da ausência de pontuação, do automatismo verbal que vai anunciando, mas não necessariamente enunciando, numa espécie de neobarroco consciente.
 Salomão Sousa é um poeta moderno em estado puro, na sua exaustiva utilização do real, seja do tempo presente, seja dos fragmentos da memória. Intelectual consciente, ele sabe enriquecer essa veia com uma crítica mordaz das mazelas humanas e do contexto social em que está inserido. Sua poesia se alimenta, por vezes, dessa cosmovisão para fundar uma solidez estrutural muito próxima da estética pós-moderna, com suas vanguardas posteriores. Sua linguagem é construída mais de impulsos fragmentados do que de uma forma gramatical preestabelecida. Seu verso é livre e geralmente curto, as frases raramente se completam, a pontuação nem sempre está presente, e as estrofes não têm compromisso com a uniformidade. Outra característica de sua poesia mais recente é a ausência de títulos nos poemas. Quem não acompanhou a trajetória deste poeta, julga-o sempre jovem, pois ele se insere no contexto do tempo presente. Mas tem plena consciência de seu ofício.

Bibliografia
● A moenda dos dias, Ed. Coordenada, Distrito Federal, 1979. 
● A moenda dos dias/O susto de viver, convênio INL/Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1980. 
● Falo, Thesaurus Editora, Distrito Federal, 1986. 
● Criação de lodo, edição do autor, Distrito Federal, 1993. 
● Caderno de desapontamentos, edição do autor, Distrito Federal, 1994. 
● Estoque de relâmpagos, prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, Brasília-DF, 2002. 
● Ruínas ao sol, Prêmio Goyaz de Poesia, São Paulo: Ed. 7Letras, 2006. 
● Safra quebrada (reunião dos livros anteriores e de dois inéditos: Gleba dos excluídos e Marimbondo feliz), publicado com rec
Brasília-DF, maio de 2016.
 ursos do FAC, Brasília-DF, 2007. 
● Momento crítico, de textos críticos, crônicas e aforismos, Brasília: Thesaurus Editora/FAC Fundo de Apoio à Cultura, 2008.
● Vagem de vidro, poesia, Brasília: Thesaurus Editora, 2013.

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sexta-feira, 28 de abril de 2017

O SILÊNCIO DE UM HOMEM ENTRE RUÍDOS João Carlos Taveira*

O SILÊNCIO DE UM HOMEM ENTRE RUÍDOS


João Carlos Taveira*



O escritor Eugênio Giovenardi milita no verso e na prosa com a desenvoltura de quem sabe o caminho das pedras, em sua caminhada pelo mundo e pelos insondáveis mistérios da metafísica. Mas o seu forte, pelo visto, é o gênero em que melhor se acomoda dentro da linguagem: o romance de ficção, no qual já publicou cinco títulos dos onze que constam de sua bibliografia. 
Seu novo trabalho nesse campo saiu em meados de 2011, e se intitula Silêncio. É um romance que, pela proposta de conceitos e desmembramentos de significados, pode ser perfeitamente incluído naquela lista de obras ousadas e bem-sucedidas, embora não muito fáceis de assimilação. O volume, de 198 páginas, em formato 14X21, traz capa de Thiago Sarandy e editoração eletrônica de Cláudia Gomes, com acabamento bem cuidado da Thesaurus, e está disponível nas boas casas do ramo e também pela internet no site da editora.

Todo autor almeja escrever um livro perfeito, mas poucos o conseguem. A tarefa é árdua e espinhosa, por iniciar-se além do mundo real e materializar-se no plano consciente e palpável da natureza humana. Mas Eugênio Giovenardi, neste caso, busca alcançar a proeza do intento com bons resultados. Embora não tenha conseguido de todo livrar-se de referências autobiográficas, contidas, aliás, em seus romances anteriores, neste livro da maturidade o autor de As pedras de Roma se enveredou pelas florestas obscuras do inconsciente e trouxe à luz a história de seres díspares criados à nossa imagem e semelhança; portanto, personagens de carne e osso — em toda a sua extensão física e psicológica. Com exceção de Lídice, que surge como um anjo e, como tal, desaparece, para ao fim e ao cabo da narrativa juntar-se ao protagonista, mas que em momento algum se entrega ao jogo ou controle de seu criador.


A ação se passa em Brasília e arredores, em cenários físicos e extrafísicos, em que Pedro de Montemor é personagem principal e narrador. E ele, com frases curtas e domínio vocabular, descreve na primeira pessoa a sua experiência vivida e, até certo ponto, compartilhada, em flashes ou lampejos de consciência. São angústias e desassossegos a incomodar a visão de um ser atormentado pelas conquistas do progresso em contraste com os recuos de gestão numa administração arcaica, cada vez mais inapta e incompetente. E isso se dá no coração de uma das mais modernas cidades do mundo, ao lado, naturalmente, da insistência de tenebrosos fantasmas a perseguir o trajeto de quem já caminha meio de lado, devido ao peso excessivo de um viver entre as lembranças do passado e as incertezas do futuro. E mais: Pedro de Montemor busca nos mistérios da própria vida uma certeza para seus questionamentos e, como faz com os personagens do romance, nos instiga a acreditar num mundo paralelo situado bem na rota de suas descrenças ou perquirições. Ao contrário de Hamlet, para ele, o silêncio é o limite.

Na construção do romance, segundo palavras do próprio autor, combinam-se episódios verídicos e ficcionais. Ao redor deles, o silêncio fala de maneira intemporal. “O cérebro, envolto pelo silêncio interior e exterior, fabrica associações intermináveis, superpostas e contrastantes de fatos, palavras, gestos, atos e pensamentos, expectativas e desejos produzidos no passado, memorizados no presente e lançados ao futuro.” O silêncio é desordenado. As vozes interiores se atropelam e nem sempre respeitam a ordem e a sequência de sua origem. “A liberdade do silêncio libera o inconsciente e exacerba o consciente.” Toda essa história pessoal é personificada e projetada nos indivíduos e grupos que intermitentemente formam os laços da convivência social.

Eugênio Giovenardi
Eugênio Giovenardi, além de escritor, é também sociólogo, e sabe que a vida se situa mais dentro da visão de um Guimarães Rosa que da de um Paulo Coelho. E que os perigos são numerosos, principalmente para aqueles que trazem, desde sempre, as marcas de uma formação baseada nos princípios da fraternidade entre os homens, da liberdade inalienável do indivíduo, da igualdade de todos os seres humanos e — mais forte que tudo — do respeito a todos os seres vivos deste planeta. E isso parece bastante, mesmo quando colocado de maneira não muito marcada nos entremeios de uma narrativa ficcional pouco linear. De forma insistente e quase obsessiva, o silêncio — que para Montemor é um fim em si mesmo — atravessa as páginas do livro, sem deixar vestígios. 
João Carlos Taveira

Brasília, 31 de outubro de 2011.

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*João Carlos Taveira é poeta e crítico literário, com vários livros publicados, entre os quais O Prisioneiro (1984), Na Concha das Palavras Azuis (1987), Canto Só (1989), Aceitação do Branco (1991). Tem poemas traduzidos para o russo, o romeno, o espanhol, o italiano.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

UM HOMEM E SEUS POEMAS EM TRADUÇÃO PRIMOROSA João Carlos Taveira*

UM HOMEM E SEUS POEMAS EM TRADUÇÃO PRIMOROSA


João Carlos Taveira*




(Ático Vilas-Boas)


Em todas as artes podem ser encontradas com certa facilidade duas vertentes categóricas: a de jovens gênios que, numa idade mais avançada, se apagam completamente para a criação, e a de artistas maduros que ignoram o passar do tempo e continuam criando obras de grande vigor estético talvez até mais transgressoras do que aquelas do tempo de juventude. Os exemplos são muitos. E em todos os segmentos. A título de ilustração, tome-se como exemplo apenas um nome da história da música: Giuseppe Verdi, o gênio da ópera italiana que viveu 88 anos e construiu uma das obras mais altas e coerentes de que se tem notícia, produzindo verdadeiras filigranas da música lírica até o fim da vida.

Essas abstrações me vêm à mente a propósito de um fato e de um nome singular no campo da literatura brasileira: Ático Vilas-Boas da Mota, professor, tradutor, filólogo, linguista, ensaísta, dicionarista, folclorista e poeta dos mais sérios, que tive a honra de conhecer em Brasília, na década de 1980, e o privilégio de poder privar de sua amizade fraterna nesses quase trinta anos de convivência. Pois bem, este homem culto e cordial, hoje na casa dos 80 anos, continua escrevendo e publicando com o mesmo ímpeto dos primeiros tempos. Aliás, em alguns casos, até com mais ousadia e coragem.

Depois de suas passagens por universidades brasileiras (é um dos fundadores da Universidade Federal de Goiás, em que desenvolveu praticamente todas as suas atividades literárias e científicas) e pela Universidade de Bucareste, na Romênia, tendo residido nas capitais de alguns dos principais estados brasileiros, este baiano de Macaúbas resolveu voltar às origens e fixar-se de vez no oeste da Bahia, mais precisamente na Chapada Diamantina Meridional, na bacia do Rio São Francisco. E ali, no conchego do solar da família, ao lado de dona Alzira, de fiéis assistentes e de muitos amigos, Ático Vilas-Boas vive entre livros, discos, quadros, objetos de arte, arquivos e documentos raros da cultura brasileira, dando vazão às inquietações pessoais na criação de obras cada vez mais sérias e indispensáveis à compreensão da nossa brasilidade.

O professor Ático, como é conhecido d’aquém e d’além mar, dirige com mão firme a Fundação Cultural Professor Mota, criada há mais de 30 anos para resgatar e perpetuar as ideias e iniciativas de seu pai em Macaúbas, cidade que tem sido um baluarte da baianidade e centro de apoio para diversos pesquisadores nacionais e estrangeiros. A fundação abriga biblioteca, galeria de arte, salas de pesquisas, arquivos de referência e museu.
Em 2011, o governo da Romênia, em reconhecimento aos relevantes serviços prestados àquele país de língua latina pelo autor do livro Brasil-Romênia — pontes culturais, concedeu ao intelectual Ático Vilas-Boas uma alta condecoração: Ordem Nacional Romena “Serviço dedicado” em grau de Comendador, que lhe foi entregue na Embaixada da Romênia em Brasília, em cerimônia presidida pelo embaixador Mihai Zamfir, com a presença do editor Victor Alegria, de quatro embaixadores, diversos representantes diplomáticos, jornalistas, professores universitários, artistas e escritores.

Pois bem. Hoje, o que motiva estas linhas acerca do autor de Alpondras: travessia de Bucareste e Ciganos é outro livro de poesia: Romênia, poemário telúrico, edição bilíngue português/romeno, de 2010, na tradução primorosa de Micaela Ghitescu, talvez a maior especialista na língua e na cultura brasileiras e portuguesas, que assina também o prefácio “Pontes entre dois mundos”. Os poemas da coleção, todos de temática romena, descrevem lugares, paisagens e locais muito caros a Ático Vilas-Boas, que, além de ser “o mais romeno dos brasileiros”, conhece bem não só a geografia do país amigo, como também os modos de ser, de ver e de sentir de sua gente. É um expert nas culturas que contribuíram para a formação daquele povo. E que, mesmo antes da chegada dos romanos, são tantas e das mais variadas etnias.

Romênia, poemário telúrico enfeixa criações as mais diversas dentro de um universo irrestrito: o olhar de sabedoria de um homem cuja espiritualidade transcende fronteiras físicas e culturais entre os povos. E esse olhar magnânimo percorre, no dizer de Antonio Olinto, ruas estreitas e largas avenidas com o mesmo desvelo e a mesma ternura com que vagueia pelas veredas da terra natal. É, em suma, um documento valiosíssimo de um livre-pensador que tem o coração tão grande quanto o gênio. Ático Vilas-Boas, neste livro precioso, mostra que é o poeta das causas possíveis. Mostra que, independentemente da língua, dos costumes e da formação social e política, o homem é sempre o mesmo em todos os quadrantes do planeta. A única diferença perceptível fica por conta do grau de evolução espiritual a que teve acesso e que varia de acordo com as possibilidades do meio em que está inserido. E esta lição de humanismo se circunscreve — ad infinitum — em cada poema do presente volume. Senão, vejamos na versão original:


Hospício


Visitando o Hospital n.º 9, de Bucareste


Os sonhos dos loucos
são pássaros assustados.
Ninguém achará os seus rastros
nem o bater de suas asas.

Os sonhos dos loucos
não são de ouro,
nem sequer de prata:
ferrugem que assusta,
fuligem que sufoca e mata.

Os sonhos dos loucos
são a sombra da saliva
e o cheiro dos remédios
que não curam, mas insistem.

Os sonhos dos loucos
são os passos na calçada,
cartas sem endereços,
jornada sem retorno,
gesto pela metade.

Por isso mesmo, agora,
no giz desta parede torta,
todas as palavras foram ceifadas
pela guilhotina da indiferença.

Nos mostradores dos relógios
dormem sorrisos postergados,
visitas que nunca chegam,
respostas de fantasmas.

Sonho é sonho,
neste delírio de navalhas.

Os loucos moram neste mundo
carregado de feridas abertas, em todos os lados,
sem depois, sem amanhã,
sem aviso prévio, sem recado,
sem o anúncio da felicidade
nem de sua chegada.

Só o abraço de urtigas,
pesadelo que nunca se desfaz…

Após a leitura desse poema, a vontade que se tem é de transcrever outros e mais outros. Mas a tentação é contida. Afinal, os espaços de publicação estão cada vez mais exíguos e não permitem veleidades nem excessos por parte de ninguém. Dito isso, voltemos ao livro e seu conteúdo concentrado.

A presente edição saiu em Bucareste, em 2010, pela Editura Fundatiei Culturale Memoria e traz na quarta-capa uma curiosidade: a Baía de Guanabara, sobreposta a um ramo amarelo em que um beija-flor passeia sua majestosa mestria de voo, é contemplada pelo olhar sempiterno do Cristo Redentor do alto do Corcovado. Mas por que o Cristo Redentor na capa de um livro traduzido para o romeno? É que a cabeça do Cristo foi esculpida por um romeno chamado Gheorghe Leonida (1892-1942), que trabalhou no atelier do escultor francês de origem polonesa Paul Landowski (1875-1961), responsável pela execução do trabalho que foi doado ao Brasil pelo governo da França. Essa informação preciosa de Ático Vilas-Boas encontra-se, entre outras, no já citado livro Brasil-Romênia — pontes culturais, publicado pela Thesaurus Editora também no ano passado e cuja segunda edição, revista e ampliada, deverá sair em breve.

Completam a bela edição ilustrada um índice, notícias biobibliográficas do autor e da tradutora e um elucidário, com informações precisas sobre certos nomes próprios, vocábulos e expressões romenos.

O romancista Daniel Barros e o Poeta João Carlos Taveira visitam o Prof.º Ático Vilas-Boas da Mota um dos fundadores da UFG -Universidade Federal de Goiás.





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*João Carlos Taveira é poeta e crítico literário, com vários livros publicados, entre os quais A Arquitetura Verbal de Nilto Maciel (2012) e Sonetos de Bolso, Antologia Poética (2013), em parceria com Jarbas Junior, e O Prisioneiro (2014), edição comemorativa de 30 anos, com capa de Patrícia Ferreira.

sábado, 18 de março de 2017

ADIRSON VASCONCELOS E A VOCAÇÃO HISTÓRICA DE BRASÍLIA - João Carlos Taveira

ADIRSON VASCONCELOS E A VOCAÇÃO HISTÓRICA DE BRASÍLIA



João Carlos Taveira*



Brasília, a pouco mais de cinquenta anos de fundação, já revelou dois aspectos importantes e inquestionáveis: confirmação de seu destino socioeconômico e geopolítico e vocação inata para uma espiritualidade cada vez mais transcendente. Hoje não se duvida mais do desenvolvimento do Centro-Oeste como polo gerador de riquezas para o resto do país. Basta um olhar em direção aos estados de Goiás e Mato Grosso que, após a divisão de seus territórios, confirmam à larga os avanços apontados por cientistas e estudiosos favoráveis à interiorização. E gente do mundo inteiro se sente cada vez mais atraída e magnetizada pelos misteriosos encantos da cidade-síntese edificada no Planalto Central, e até mesmo por algumas regiões do entorno, como Vale do Amanhecer, Cristalina, Alto Paraíso. Brasília é um verdadeiro milagre da modernidade!

Lembremos. Os homens que acorreram ao chamado de um sonho antigo talvez não soubessem da extensão dos caminhos que teriam de percorrer e das dificuldades que teriam de enfrentar; talvez nem imaginassem que aquela mera convocação seria, na verdade, o chamamento para o traçado de uma linha divisória no mapa do Brasil: o antes e o depois da construção de Brasília. Com a transferência do poder, nosso país nunca mais seria o mesmo, tanto para o bem quanto para o mal. Porém essa é outra história.

Adirson Vasconcelos recebe, em 1960, no jornal Correio Brasiliense, a visita do Presidente Juscelino Kubitschek, acompanhado de Dona Sarah. O presidente JK senta-se à mesa de trabalho do amigo. Adirson retribuiu a visita, em 1964, indo se solidarizar com o Presidente em Paris, onde se encontrava exilado e perseguido.
Hoje, pretende-se falar um pouco de um desses homens pioneiros que, a exemplo do grande e saudoso Ernesto Silva, têm dado valioso contributo ao processo de consolidação da nossa cidade: Adirson Vasconcelos — o jornalista que pressentiu no gesto audaz de Juscelino Kubitschek mais que uma façanha política, mais que uma simples exibição de talento e ousadia. Adirson Vasconcelos, de imediato, compreendeu que a empresa proposta pelo destemido Juscelino trazia no seu bojo elementos cuja transcendência espiritual ia além dos costumeiros fogos de artifício dos bastidores do poder. Aquele homem estava propondo uma mudança radical nos destinos da nação, uma quebra de paradigmas sem paralelo na história do Brasil, uma revolução comportamental nunca vista desde a Inconfidência Mineira, no fim do século XVIII.

E, assim, em 1957, o advogado e jornalista cearense — ainda jovem e sequioso de novidades — desembarca no Planalto, mais precisamente no canteiro central da grande obra. E, no meio daquele ermo de poeira e vento, olha em volta, perscruta, pergunta, questiona, faz anotações e resolve não mais retornar ao Recife, onde trabalhava no jornal Correio do Povo. Naquele mesmo ano, como correspondente, é designado para dar cobertura jornalística aos preparativos da primeira Missa Campal aqui celebrada, em três de maio, por Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota. Três anos depois, assistiu à inauguração da cidade nascida do esforço e da determinação do povo brasileiro. Sim. Brasília é uma vitória do improvável sobre a realidade.

Adirson Vasconcelos
Tão logo pôde acomodar-se, Adirson tratou de fincar os pés no barro deste solo e nunca mais voltar para o lugar de onde veio. Estabelecido, procura registrar as primeiras impressões da urbe recém-inaugurada e, naquele ano de 1960, publica seu primeiro livro O homem e a cidade. Daí por diante, não para de escrever e publicar livros sobre a história de Brasília, em que dá seu testemunho sincero na defesa de aspectos que julga indispensáveis à consolidação da cidade como estratégia de desenvolvimento para o terceiro milênio. Com clarividência de cronista, pôde perceber também que deste chão havia brotado um novo conceito de arquitetura e urbanismo, uma nova concepção de sociedade e uma grande esperança para o sonho de grandeza de um povo ainda sofrido e castigado pela desídia e incompreensão dos que buscam o ganho fácil a qualquer custo.

Profº Adirson Vasconcelos e Daniel Barros
Foram vinte e sete livros nascidos da pena deste filho de Santana do Acaraú, que chegou também a estudar Administração e História. Em cada um deles, um novo aspecto é acrescentado à historiografia da cidade. Em muitos deles, uma abordagem enriquecedora de fatos ligados à construção, com destaque para os pioneiros mais humildes e esquecidos. E em todos eles, a marca de quem sabe o caminho das pedras, os segredos mais recônditos encravados nos corações dos verdadeiros partícipes da venturosa jornada...

O jeito simples e afável no convívio com as pessoas fazem do autor de Efemérides: As grandes datas de Brasília e JK (Thesaurus, 2009) um estimado companheiro de todas as horas, quer seja em reuniões acadêmicas, de trabalho, ou mesmo em salas de concertos. Humildade e sabedoria já se tornaram marca registrada deste homem cordial e arguto, que continua trabalhando em advocacia e a desencavar “causos” e fatos do período da construção, para contar a histórica saga de candangos, pioneiros da maior epopéia do século XX.

Como jornalista, trabalhou em diversos órgãos de imprensa, como Jornal do Commercio, Correio do Povo, Agência Meridional, TV Goyá, Rádio Planalto (de que foi presidente de 1968 a 1984) e Correio Braziliense, tendo sido ali Redator (1960), Diretor de Redação (1963 a 1965 e 1966 a 1968), Supervisor Regional (1974 a 1980) e Assessor Administrativo da Presidência (1984 a 1995). Trabalhou também, como Assessor Cultural, na Fundação Assis Chateaubriand (1996 a 2003).

Na vida acadêmica, Adirson Vasconcelos presidiu o Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal e é membro de diversas entidades literárias, entre as quais: Academia de Letras e Artes do Planalto (com sede em Luziânia), Academia de Letras de Brasília, Academia Maçônica de Letras (da qual foi presidente), Academia Taguatinguense de Letras, Associação Nacional de Escritores, Sindicato dos Escritores do Distrito Federal. Ainda como jornalista, ganhou prêmios importantes de âmbito nacional. Como escritor, recebeu distinções e louvores pelo teor de suas obras, a maioria voltada para a história de nossa cidade, o que lhe valeu ainda o epíteto de “Historiador de Brasília”. E isso não é pouco.

Hoje, resolvido profissionalmente e com largo trânsito em todos os segmentos da sociedade brasiliense, o pioneiríssimo Adirson Vasconcelos se dedica de corpo e alma a promover filantropia e ação social para os menos favorecidos e a divulgar fatos históricos junto à comunidade estudantil. Um verdadeiro paladino da histórica realização humana e espiritual de Juscelino Kubitschek.


* João Carlos Taveira, mineiro de Caratinga em Brasília desde 1969, é poeta e crítico literário, com vários livros publicados, entre os quais: O Prisioneiro (1984), Aceitação do Branco (1991), A Flauta em Construção (1993), Arquitetura do Homem (2005). Em 1994, recebeu do GDF a Comenda da Ordem do Mérito Cultural de Brasília.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

A ARQUITETURA VERBAL DE NILTO MACIEL(*) - JOÃO CARLOS TAVEIRA

A ARQUITETURA VERBAL DE NILTO MACIEL(*)


João Carlos Taveira 


Nilto Maciel não é só um escritor. Além de um bom escritor e de um imprescindível articulador literário, é o artista da palavra que sabe compreender e assimilar os avanços estilísticos de seu tempo. E, como tal, procura, sem nenhuma demonstração de cansaço, o aperfeiçoamento do próprio estilo, para melhor conduzir a narrativa na construção de seus personagens. Nesse sentido, sua escritura o aproxima não de um Graciliano Ramos, também nordestino, mas do Machado de Assis, maduro e inconfundível, de Quincas Borba e Memorial de Aires.

Nilton Maciel 1945-2014
O romance A Rosa Gótica, (...) publicado recentemente, é um verdadeiro testemunho da maturidade da pena de Nilto Maciel. Ali se encontram, com facilidade, fundamentos inarredáveis para a confirmação dessa tese. Com aquele livro, o criador de Os Varões de Palma consegue a perfeita sincronia entre memória e ficção, entre verdade histórica e verdade ontológica, numa clara exibição de seu domínio dos arquétipos da linguagem, dos liames da narrativa.

Sua oficina romanesca comporta o absurdo, o fantástico, o linear, o surreal e, não raras vezes, o satírico, o burlesco, o humorístico. Seus temas, por diversos, exploram desde o corriqueiro e trivial triângulo amoroso, passando por perquirições do gênero policial, até o mais intrincado universo psicológico – carpintaria digna dos melhores mestres da arte ficcional.

Após a publicação de mais de uma dezena de livros (romances, contos, crônicas, poemas, infanto juvenis), o autor de Babel vem se firmando como um dos mais promissores representantes de uma geração de escritores que hoje vivem fora do eixo Rio/São Paulo. Isto comprova mais uma vez que a Literatura, como a Arte de um modo geral, não depende de geografia, de localização espacial, muito menos de escolas ou de círculos fechados, para poder manifestar-se e, quando genuína, consolidar-se. 

Detentor de vários e importantes prêmios literários, Nilto Maciel permanece fiel ao seu artesanato meticuloso. A cada livro publicado, verificam-se novas descobertas e uma outra luz se acendendo às possibilidades do leitor. E essa versatilidade do ato de contar histórias vai criando, ao mesmo tempo, uma atmosfera cada vez mais propícia àquele compromisso com a verdade e a beleza, assumido desde os primeiros livros, e que faz do autor de Baturité um artista completo.

II
Vasto Abismo, 1998, Ed. Códice, Brasília.


Vasto Abismo é sua estreia no gênero novela. Com este livro, Nilto Maciel inaugura ampla possibilidade para suas inquietações criadoras: outro canal para sintonia e transmissão de suas desconcertantes mensagens. E se inscreve, sem hipérbole, no fechado círculo da genuína arquitetura verbal iniciada por Cervantes. Este livro, deve-se dizê-lo, vem envolto pela aura e pelo signo da maturidade, uma vez que seu autor já ultrapassa a casa dos cinquenta e encontra-se em pleno domínio das técnicas exigidas para a construção da narrativa ficcional deste fim de século.

A primeira novela da coletânea, intitulada “A Busca da Paixão”, está dividida em três partes e representa a espinha dorsal do conjunto. A peça constitui um mergulho nas lembranças de um homem que parte em busca de seu passado e, principalmente, de sua infância, de suas origens étnicas, – viagem que compreende um desnudar-se contínuo, num jogo de claros-escuros intermitentes e silêncios povoados de doces reminiscências e terríveis fantasias. (Há pouco, verifiquei na obra poética de Anderson Braga Horta uma interação com a Música. Em Nilto Maciel, encontro, com indisfarçada alegria, uma aproximação com o Cinema, que hoje já não pode prescindir da linguagem musical para realizar-se artisticamente como uma linguagem visual.)

Feito Orfeu, o protagonista vai aos infernos à procura de sua identidade, tendo por companheiros Helena, a namorada de circunstância, a memória dos lugares antes percorridos e (des)conhecidos e o desespero de estar só. (“Aqui estamos, eu e meu desespero, a guiar os passos para não pisar em falso e cair na arapuca.”) A trama, labiríntica, constrói-se de sobressaltos e incertezas que vão, a pouco e pouco, desvelando a traumática personalidade de um ser que, ao se descrever, se circunscreve no terreno próprio da Mitologia, com suas implicações no campo da psique humana.

Encontram-se, ali, focos esparsos, porém contundentes, da gênese do mito do eterno retorno de Nietzsche: como se chega a ser o que se é. Nilto Maciel, nesta novela, cria um personagem-narrador autossuficiente, cujo nome Tanguera é apenas uma referência indígena circunscrita ao universo da linguagem e cuja vida vazia e sem sentido o situa perante um dilema permanente: precisa desvencilhar-se com urgência da mediocridade do tempo presente, da existência sem brilho, da falta de objetivos, para tentar reencontrar-se e, consequentemente, salvar-se de si mesmo e do mundo que o rodeia. (“Tanguera sou eu. Tanguera não existe. Tanguera é aquele menino que envelheceu e virou fantasma.”) E, nesse desespero metafísico, empreende a busca definitiva — pessoal, intransferível — do que está irremediavelmente perdido, mas que, no seu desvario, pode perfeitamente ser reinventado. Leia-se a infância e suas possibilidades agora extintas para sempre. (“E eu temia não passar da primeira frase.”)

A novela termina. O que era temor e incerteza transformou-se em pedra, sedimentou; e o que tinha a simples feição da aspereza, com suas vísceras de fel e fogo, voltou a fazer vicejar outros sonhos e esperanças. A conclusão do leitor, no entanto, não será jamais aquela em que os meios justificam os fins. Dentro da visão artística de Nilto Maciel, nada tem valor por si mesmo nem está a salvo da corrosiva ação do tempo, se para a reconstrução do ser não se tentar pelo menos o risco do improviso, mesmo sabendo-se, de antemão, que este ser configura-se na imperativa certeza do não-ser. 


III

Seguem-se-lhe outras seis narrativas viscerais, sendo que as três últimas se caracterizam mais dentro dos limites daquilo que se poderia chamar de mininovela. São elas: “O Julgamento de Rui”, “Taciba Vai ao Céu” e “Quarteto”.

A segunda narrativa, intitulada “Vasto Abismo”, e que dá o título geral da obra, constrói-se dentro de dois universos opostos: a erudita e ordinária existência de Isaque Paiva, com seus conhecimentos da língua de Virgílio e sua paixão avassaladora pelos livros, e, em contraposição, os seus sonhos de poeta frustrado diante do amor de uma bibliotecária que, além de leitora inveterada de subliteratura, ainda é casada com um militar estúpido e ciumento. 

Nessa novela, Nilto Maciel explora seus conhecimentos da literatura policial de maneira muito velada, não entrando nos domínios do mistério, tampouco no campo da investigação. A história desenvolve-se naturalmente sob os influxos do próprio enredo, e me parece bem próxima daquela tensão ambicionada pelo romance psicológico — em que a tragédia se delineia desde o início, e, a cada página, a cada capítulo, vai preparando o leitor para o seu desfecho inevitável. Isaque Paiva é um ser atormentado em busca de redenção. E esta redenção está muito bem esculpida pela mão ágil do criador de A Guerra da Donzela. Enfim, Vasto Abismo cumpre, ainda que timidamente, todas as exigências patenteadas pelo modernismo surgido após a década dos anos 1960.

Em “Boi da Cara Triste (Parábola de Escárnio e Maldizer)” — analogia com o folclórico “Boi da Cara Preta” –, o foco narrativo se volta para um tema tipicamente nordestino, com as paisagens áridas e miseráveis da região, onde a vida só tem sentido em si mesma. As relações sociais há muito estão desintegradas, e não se sabe mais onde começa o homem e termina o animal. O que impera naquele cenário grotesco é a carência, quer seja no terreno econômico, quer seja no campo afetivo. O drama vivido pelo protagonista, o Zé Carroceiro, uma espécie meio às avessas de Dom Quixote e Zé Bigorna, é descrito por intermédio de uma linguagem elaborada com base no seu universo psicológico. Tudo é pensado e realizado com a maior economia de meios, sendo que o resultado, surpreendente, já nem choca, conquanto possa estarrecer. Denúncia? Impotência diante de um mundo desumano e cruel para com seres vitimados pela injustiça social? Certamente sim.  

Já em “O Bom Selvagem”, narrada na primeira pessoa, temos a história de um índio bororo desencantado com a cultura do homem branco. Depois de ter-se diplomado em Letras, viajado pela Europa e adquirido conhecimentos em várias línguas — muitas das quais fala fluentemente —, resolve, sob a influência de um padre, escrever a História do Brasil, ou melhor, traduzi-la para a língua de seu povo — conforme fica estabelecido desde o início da narrativa. Só que nessa empreitada não se deixa enganar pelas aparências, pelas artimanhas contidas no manuscrito. Sabe perfeitamente que o Brasil não nasceu dos portugueses, o que o situa em permanente conflito consigo mesmo. À medida que vai narrando, a reflexão surge automática. Seu propósito, entretanto, não é ser tradutor; no íntimo gostaria mesmo era de contar a própria vida e realçar as peripécias da infância até a idade adulta. Daniel Álvares — nome que os brancos lhe deram, ao aculturá-lo — antes se chamava Bokodori, fato que certamente muito contribuiu para o acirramento de seus conflitos. (“Meu desejo é esquecer o que aprendi e pôr para fora minhas verdadeiras emoções, ser eu mesmo, Bokodori e não Daniel Álvares.”)

Esse índio, na verdade, não é mais índio, tampouco branco. Vive entre dois mundos e não pertence a nenhum deles. Sua identidade está definitivamente comprometida: critica os brancos e não aceita mais os índios. E dessa tormenta existencial nasce, malgrado suas ponderações satíricas sobre o teor do texto em elaboração, todo o inconformismo que marca seu trabalho de tradutor, de intelectual.

Nilto Maciel, sempre senhor do seu ofício, conduz a novela num vaivém de símbolos e signos, em que a beleza sintática está a serviço da verdade humana mais recôndita; seu labor instrumental, ao revelar-se na feitura do texto literário, impõe leituras as mais diversas, não obstante a limitação da forma e dos meios impostos pela contenção verbal que caracteriza seu processo criador.  


IV

Para mim, que venho estudando, com prazer e afinco, a História da Música e a História da Literatura — sobretudo no campo da ópera e da poesia —, resta uma conclusão até certo ponto bastante óbvia: a Arte, com o passar dos séculos, é a mais genuína manifestação humana sobre a face da Terra. Nenhum trabalho realizado pela mão do homem deixa frutos tão perenes quanto a expressão artística, porque esta é o código que delimita seu espaço entre o Sagrado e o Profano. E, consequentemente, seu vínculo com a espiritualidade transcendente, com o mistério que envolve a origem e o destino de todos os seres e coisas.
João Carlos Taveira

Desse modo, encontro na produção do Autor deste belo e instigante Vasto Abismo — coleção de novelas curtas, incisivas e originais — uma completa incorporação dos caracteres humanos, com toda a sua problemática psicológica, econômica e social, em consonância com os valores estéticos embutidos na proposição de uma arte sempre comprometida com a solidariedade, com a catastrófica situação em que se encontra o homem moderno, completamente desassistido por um sistema cada vez mais mecânico e imbecilizante.  

Portanto, para a obra de Nilto Maciel, posso usar tranquilamente as palavras finais do prólogo de Jorge Luis Borges a A Invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares: “Não me parece uma imprecisão ou uma hipérbole qualificá-la de perfeita.”  


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* Texto de introdução do livro de novelas Vasto Abismo, 1998, Ed. Códice, Brasília.