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sábado, 20 de maio de 2017

BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO DA VIDA E OBRA DE SALOMÃO SOUSA - João Carlos Taveira



Salomão Sousa
O poeta Salomão Sousa nasceu na zona rural, onde passou a infância, foi alfabetizado e teve as primeiras experiências com o universo da poesia e profundas vivências com a natureza, que alimentam de maneira inequívoca o seu modo de expressão criativa. Em 1964, aos doze anos, transferiu-se para Silvânia, cidade do percurso de desbravamento do estado de Goiás, para continuar o ensino fundamental. Ali, aprofundou o contato com a poesia brasileira no acervo da biblioteca pública do município.
No início de 1971, transferiu-se para Brasília, onde concluiu sua formação secundária e superior. Formou-se em Jornalismo e, por concurso, ingressou no serviço público federal; desde então, vem construindo “a poesia de consciência e a escritura de combate”, conforme destacou o escritor Ronaldo Cagiano em resenha definidora da obra do autor de O susto de viver.
Ainda na década de 1970, Salomão Sousa fez algumas incursões no movimento da Poesia Marginal e publicou A moenda dos dias (1979), livro inaugural de “uma poesia inovadora, sem as camisas de força estilísticas, arejada, original, portanto moderna”, como aponta Cagiano na resenha referida. Safra quebrada, que reúne os livros publicados até 2007, dá a dimensão humana e artística de quem soube produzir sem pressa e, ao mesmo tempo, manter-se consciente de cada etapa de sua carreira. 
A obra de Salomão Sousa dá seu contributo ao cenário da moderna poesia brasileira de forma muito contundente. Das muitas leituras já feitas sobre essa poesia, é importante destacar a observação crítica de Naomi Hoki Moniz – atual diretora de Estudos Portugueses na Universidade de Georgetown –, publicada em 1979 na Revista Iberoamericana, sobre A moenda dos dias, quando a articulista fazia mestrado na Harvard University:  
Sua utilização de uma tradição poética permite diferenciá-lo do muito que existe no país de modismo de vanguarda superficial que caracteriza certos movimentos. Ele evita traços de populismo e espontaneísmo, constrói um discurso despojado e simples, mais comprometido com a veracidade do que está sendo dito do que com obscuras e vazias ordenações estéticas.
Ao resenhar Estoque de relâmpagos para o Correio Braziliense, a professora de literatura Lígia Cademartori, respeitada tradutora e ensaísta, contextualiza a poesia que Salomão Sousa passou a praticar a partir do livro em epígrafe:
... a particularidade de sua poesia não reside nos efeitos de som e, sim, na organização das imagens. A profusão delas provoca o leitor para que procure as relações que estabelecem e, por esse modo, descubra a mitologia autoral que as ordena. Ao extrair força poética do substantivo, Salomão Sousa compõe sua própria lição de coisas. Nem todas imediatas, é verdade. Algumas são inalcançáveis. Mas, no radical contraste entre certas imagens, podem-se encontrar essenciais efeitos de sentido e o provável princípio que preside as expressões figuradas. Pois a linguagem não faz concessões. Concisa e avessa ao voo livre, essa é poesia de linhagem autorreflexiva.
Antônio Miranda e Salomão Sousa
Antonio Miranda, poeta de múltiplas invenções e vasta obra publicada, no Portal de Poesia Ibero-Americana registra o seguinte sobre Ruínas ao sol:
Não é uma leitura fácil, muito menos óbvia, por causa da linguagem densa e das desavisadas associações de imagens e de ideias, da ausência de pontuação, do automatismo verbal que vai anunciando, mas não necessariamente enunciando, numa espécie de neobarroco consciente.
 Salomão Sousa é um poeta moderno em estado puro, na sua exaustiva utilização do real, seja do tempo presente, seja dos fragmentos da memória. Intelectual consciente, ele sabe enriquecer essa veia com uma crítica mordaz das mazelas humanas e do contexto social em que está inserido. Sua poesia se alimenta, por vezes, dessa cosmovisão para fundar uma solidez estrutural muito próxima da estética pós-moderna, com suas vanguardas posteriores. Sua linguagem é construída mais de impulsos fragmentados do que de uma forma gramatical preestabelecida. Seu verso é livre e geralmente curto, as frases raramente se completam, a pontuação nem sempre está presente, e as estrofes não têm compromisso com a uniformidade. Outra característica de sua poesia mais recente é a ausência de títulos nos poemas. Quem não acompanhou a trajetória deste poeta, julga-o sempre jovem, pois ele se insere no contexto do tempo presente. Mas tem plena consciência de seu ofício.

Bibliografia
● A moenda dos dias, Ed. Coordenada, Distrito Federal, 1979. 
● A moenda dos dias/O susto de viver, convênio INL/Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1980. 
● Falo, Thesaurus Editora, Distrito Federal, 1986. 
● Criação de lodo, edição do autor, Distrito Federal, 1993. 
● Caderno de desapontamentos, edição do autor, Distrito Federal, 1994. 
● Estoque de relâmpagos, prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, Brasília-DF, 2002. 
● Ruínas ao sol, Prêmio Goyaz de Poesia, São Paulo: Ed. 7Letras, 2006. 
● Safra quebrada (reunião dos livros anteriores e de dois inéditos: Gleba dos excluídos e Marimbondo feliz), publicado com rec
Brasília-DF, maio de 2016.
 ursos do FAC, Brasília-DF, 2007. 
● Momento crítico, de textos críticos, crônicas e aforismos, Brasília: Thesaurus Editora/FAC Fundo de Apoio à Cultura, 2008.
● Vagem de vidro, poesia, Brasília: Thesaurus Editora, 2013.

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quinta-feira, 18 de maio de 2017

O livro MENINO DE DEUS - Nélio da Matta Parreira


O livro MENINO DE DEUS – A história de um sequestro, do amigo Lindoberto Ribeiro, achei muito detalhado dentro de certa concisão. Em suma, achei dinâmico, consistente e interessante. Impressionou-me a riqueza de detalhes apesar de ser uma estória pequena. Como amante do Naturalismo, ao ler esta estória, se pode saborear o cafezinho servido nos balcões dos bares Cariocas. Faz-me falta este tipo de Literatura onde não só fico atraído, como é contemporânea. Bola pra frente Lindoberto. 
Um abraço, Parreira.
Nélio da Matta Parreira

https://www.amazon.com.br/MENINO-DEUS-hist%C3%B3ria-um-sequestro/dp/8564898837/ref=sr_1_1?s=books&ie=UTF8&qid=1494675628&sr=1-1&keywords=lindoberto+ribeiro

terça-feira, 16 de maio de 2017

Jornalista Shirley M. Cavalcante (SMC) entrevista o escritor Daniel Barros


Shirley M. Cavalcante
Jornalista Shirley M. Cavalcante (SMC) entrevista o escritor Daniel Barros
         Daniel Barros, 48 anos, alagoano de Maceió. Foi colaborador em O jornal e Gazeta de Alagoas, na década de 1990. É engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal de Alagoas no ano 1992. Em Brasília, desde o fim dos anos 1990, onde pós-graduou-se em Segurança Pública e iniciou sua carreira literária publicando: O sorriso da cachorra, romance, editora Thesaurus, Brasília 2011; Enterro sem defunto, romance, LER editora, Brasília 2013 e Mar de pedras editora Thesaurus, Brasília 2015;.Participa das coletâneas: Contos eróticos, editora APED, Rio de Janeiro, 2013; e de Enquanto a noite durar, contos sobrenaturais, editora APED, Rio de Janeiro 2013. 

1. Escritor Daniel, é um prazer tê-lo conosco no projeto Divulga Escritor. Conte-nos em que momento pensou em escrever o seu romance “O Sorriso da Cachorra”?

O desejo de expressão é inerente à espécie humana, potencializado quando se refere ao sentimento. É preciso pôr para fora para não se sufocar. Como dizia Paulo Leminski no poema “Pergunte ao Pó”: “... O que a gente sente / e não diz / cresce dentro”. Comecei a escrever justamente por essa necessidade de expor sentimentos e ideias. E criar uma história divertida e prazerosa. Entretanto, sem esquecer o espírito de denúncia que temos, nós, os escritores nordestinos. 
2. Como foi a construção do enredo e dos personagens?

Normalmente começo pelo fim. Penso no desfecho final e desenvolvo em cima dessa ideia. Os personagens surgem naturalmente, mas, à medida que escrevo, eles vão tomando formas e crescem. Às vezes, um personagem que a principio seria um coadjuvante, cresce e se torna grande. Aconteceu em ENTERRO SEM DEFUNTO. Catarina era para ser apenas a namorada de Alcides, mas de repente cresceu ao ponto de ser, talvez, a personagem mais forte do livro. Não quero dizer com isso que eles tenham vontade própria, não! Quem manda é o autor, mas tem personagens que nos conquista.

3. Ao terminar de escrever “O Sorriso da Cachorra” você já tinha planos para escrever o “Enterro sem defunto”?


Sim. Tinha a intenção de escrever sobre um tema mais polêmico, mais forte. Abordar aspectos estruturais da sociedade, no que se refere à segurança pública. E escrever um romance policial mais próximo da realidade. Diferente do estilo clássico, em que o mistério vai sendo desvendado à medida que surgem as provas, como os livros de Arthur Conan Doyle, Agatha Christie e Edgar Allan Poe. Enterro sem defunto tende mais para o romance noir, mas foge daquele noir estereotipado. Estamos no Brasil, nos arredores de Brasília ou em uma praia de Maceió. O tom é colorido como nos convém, longe do preto e branco ianque, personagens mais humanizados, bebem, fumam, brigam e se envolvem em casos sexuais. E surgem tramas paralelas. Tanto que no meu romance o enredo se dá em dois tempos, numa estética não-linear, intercalando capítulos entre o presente, em que o personagem é policial, e seu passado como fotógrafo.

4. Que temas você aborda em sua obra “Enterro do defunto”?
Havana - Cuba

Os temas são variados, desde as oligarquias políticas de Alagoas, a polêmica ilha de CUBA e seu povo, sexo, sensualidade, paixão, amizade, luta contra a corrupção e ao trafico de droga e até sobre a estrutura organizacional da polícia judiciária no Brasil. Tema bem atual, como bem podemos acompanhar no noticiário, como a CRISE na Polícia Federal, que é fruto de uma estrutura arcaica e corroída pela corrupção. Mas como escreveu o jornalista Marcos Linhares em uma resenha sobre meu livro: “... obra com seu toque de fino humor, retrato refinado e cru da realidade, recheado com dose de sonho, medo, dor, paixão, sexo, enfim, de vida. A vida espalhada pelas páginas das obras bem ornadas com o barro das palavras desse Daniel alagoano”. 

5. Como foi a escolha do título?
Ariano Suassuna

O sorriso da cachorra foi inspirado na obra de Ariano Suassuna, O auto da compadecida. Lá, a esposa do padeiro compra o padre para fazer o testamento da cachorra. Já Enterro sem defunto surge do mistério e da trama que envolve o final do livro, que não posso revelar, pois acabaria o enigma (risos). Busco escolher títulos espirituosos e que despertem o interesse do leitor pela história, bem como o porquê do título. 

6. Soube que você gosta de escrever contos. De forma geral, qual a mensagem que você quer transmitir ao leitor através de seus textos literários?
E. Hemingway

Uma vez perguntado por uma repórter, Ernest Hemingway respondeu: “Se quisesse transmitir mensagens, enviaria telegramas.” Mas longe de mim, o velho mau humor do célebre autor de Por quem os sinos dobram? Sou apenas um contador de histórias, e pela minha origem coloco nelas a realidade dura do nosso país. Como dizia Lêdo Ivo: “... nós, romancistas do Nordeste, denunciadores incômodos e incorrigíveis da pobreza e da injustiça, dos pesadelos e das calamidades, sempre nos distinguimos de nossos confrades do Centro e do Sul pelo nosso ar de estrangeiros, de emissários dessa interminável Oriente que é a nossa terra natal”.

7. Daniel, onde podemos comprar os seus livros?

ed. Em Brasília, em diversas livrarias, entre elas: Livraria Leitura do Conjunto Nacional e Terraço Shopping, Livraria e distribuidora horizonte do Saber (SCLN 714/715 Bl:A Lj: 16 ASA NORTE BRASÍLIA DF) e Restaurante Fausto & Manoel, CLSW 101, Bloco C, lojas 8/9/10, Sudoeste- Brasília/DF. No site da Livraria Cultura os dois livros podem ser encontrados facilmente. 

8. Quais os seus principais objetivos como escritor? Pensa em publicar um novo livro?
www.amazon.com.br/Mar-Pedras-Daniel-Barros

Simples; ser lido! Tornar-me imortal, pois enquanto nossos livros são lidos, nós vivemos. Meu próximo livro, Mar de pedras já está nas mãos do meu revisor (João Carlos Taveira), e estou escrevendo outro, ainda sem título e sem pressa, pois pretendo escrever um livro mais denso, introspectivo... o que demanda um maior cuidado e um desgaste pessoal muito grande. Espero conseguir.

9. Quais os seus principais hobbies?
Quintal da casa do autor

Não gosto de esporte, não jogo bola, tênis, não pratico corridas... sou um boêmio! Cuido dos meus animais, cachorros, galinhas, perus, carneiros e peixes, não os ornamentais, crio-os para comer (tilápias, tambaquis, etc.) – E a leitura, naturalmente. Pescar é algo também que me proporciona muito prazer.


10. Quais as melhorias que você citaria para o mercado literário no Brasil?

Sem dúvida, precisamos baixar os preços dos livros. O livro brasileiro ainda é um dos mais caros do mundo, mesmo sem a cobrança de impostos. Precisamos de prêmios literários sérios, onde pelo menos os livros sejam lidos pelos jurados. Na II bienal do livro de Brasília cada jurado teria pouco mais de um mês para ler 50 livros, é evidente que não é possível. O que fazem então para escolher? 



Daniel Barros e seu cão: Papa Hemingway
13. Pois bem, estamos chegando ao fim da entrevista. Agradecemos sua participação no projeto Divulga Escritor. Foi muito bom conhecer melhor o Escritor Daniel Barros. Que mensagem você deixa para os nossos leitores?

Leiam! Sobretudo meus livros... (risos). Brincadeiras à parte, devemos ler e estimular a leitura. Não só as crianças devem ser incentivadas, mas todos! Jovens, adultos... Nunca é tarde para se tornar um ávido leitor.


domingo, 14 de maio de 2017

UM ROMANCE EXTRAORDINÁRIO João Carlos Taveira*


Quando chegaram às minhas mãos os originais do romance de costumes de Josefina Duailibi Mahfuz, nem pude acreditar no que estava vendo, no que estava lendo. Esse livro levou mais de vinte anos para ser escrito e, mesmo assim, não teve a oportunidade de ser publicado. E certamente não mais o terá, pois sua autora faleceu no interior de Minas há mais de sete anos e a família nem quer saber do assunto. Pelo menos por enquanto.

Claude Monet 
O país do faz de conta, escrito na terceira pessoa, numa linguagem tensa e avassaladora, narra a história de uma mulher que, impossibilitada de ter filhos, resolve adotar crianças pobres da periferia de uma cidade média, situada num país imaginário da América do Sul. Na verdade, são muitas histórias paralelas que se cruzam e se distanciam no tempo e no espaço para, ao fim e ao cabo da narrativa, se juntarem num só emaranhado de situações plausíveis e, não raro, bem próximas da realidade: o desfecho inexorável e surpreendente ultrapassa qualquer tentativa de compreensão. Embora apresente personagens e cenários deliberadamente atuais, trata-se de um livro de difícil classificação e quase impossível de ser analisado. Mas tentemos.

Sartre e Beauvoir
Aurora Solrac, professora de piano e ativista política, chegou a casar-se pelo menos três vezes, fora duas tentativas frustradas de relação à la Sartre e Beauvoir — o que lhe causou problemas com a polícia e, consequentemente, com a justiça de sua cidade. Pois bem. Aos quarenta e sete anos, resolve pendurar as chuteiras amorosas e adotar três crianças de uma favela próxima. A decisão, entretanto, não foi tomada antes de consultar seus velhos pais, que, embora apreensivos e descrentes, concordaram com o ímpeto da filha única. Documentação reunida e aprovada pelas autoridades competentes, dentro de três meses os pequenos puderam se transferir para a casa da nova mãe. Em resumo: começam aí dramas e conflitos, em cenário surreal e fantasmagórico, narrados com frieza e precisão sintática. Um verdadeiro soco no estômago.

Gabriel García Márquez
A autora, utilizando-se da tessitura de uma aranha, faz o tempo passar devagar, contando outras histórias paralelas e pintando novos quadros, em que transporta o leitor para situações sempre inusitadas. O país do faz de conta não lembra Cem anos de solidão, mas se aproxima do misterioso universo de Gabriel García Márquez pelo que traz de informações e representações simbólicas da condição humana, ao descrever um painel psicológico digno dos melhores prosadores do século XX. O livro trata de guerras conjugais, litígio por posse de terra, desavença familiar por espólio, corrupção política, homossexualismo e, de maneira soberba e cristalina, luta pelo poder — em todos os seus desdobramentos e especificidades. E mergulha também nas relações pessoais dos personagens, desnudando um quadro perturbador de tragédias que deságuam em crimes hediondos e todo tipo imaginável de perseguição, em que a inveja é sempre o fio condutor de todos os percalços e atribulações.

Dividido em seis partes e 66 capítulos, O país do faz de conta consegue a proeza da poesia em sua prosa tensa, contida e ritmada, e o milagre do permanente interesse pela leitura, a cada frase, a cada parágrafo, a cada capítulo. As situações e tipos descritos apresentam consistência e verossimilhança. São seres marcados por distúrbio psíquico, por desvio de conduta e por irremediável fracasso social. E todos de carne e osso. Poucos volumes romanescos de mais de 800 páginas conseguem efeito literário como esse. Aliás, um feito para poucos narradores contemporâneos. Salvo raríssimas exceções.
   
Há no capítulo 13, da segunda parte do romance, descrições pormenorizadas de questões marcadas pelo sentimento da inveja e do despeito. (E aqui o narrador, malabaristicamente, destrincha os dois substantivos com a lente da clareza e os conhecimentos da filosofia.) Há no livro referência também ao escritor ítalo-argentino José Ingenieros sobre a mediocridade sistêmica a pairar sobre a humanidade, que vegeta sem nenhuma possibilidade de salvação. O homem é, antes de tudo, um animal, o mesmo animal de Neanderthal, embora hoje use computador, trafegue em automóveis possantes e voe em aviões a jato. Segundo análise feita a partir do discurso livre indireto da narrativa josefiniana, poucos, pouquíssimos homens — aqui tratados de “lúcidos”, “luminares”, “visionários” — conseguem, com seu trabalho, sua fé ou sua arte, transformar o curso da história, o fluxo da vida e a face do mundo, revolucionando conceitos, práticas e mesmo culturas milenares, para o bem da maioria de seres que caminham sem nada perceber, tamanha a cegueira coletiva que os condiciona e aliena.

O narrador não deixa, entretanto, de apontar, nas entrelinhas, aqueles outros seres que, meio vivos, meio mortos, fingem ser o que de fato não são e que, certamente, jamais serão: homens que não criam nada e nada fazem, a não ser corromper, matar, roubar, futricar e viver na sombra de alguns luminares, só por ter-lhes um dia engraxado as botas, esfregado as costas, ou servido de fantoches em suas caminhadas extraconjugais, nalgum momento de suas vidas. O clímax desse episódio retorna noutra história, lá no penúltimo capítulo, em um conflito autoral pela disputa dos originais de um livro secreto, cujo prefácio fora grosseiramente arrancado, não se sabe como, quando e por quem.

A falsidade e o ressentimento tiveram tratamento quase cirúrgico em três capítulos do livro (17, 36 e 64), justamente quando a autora se detém no complexo de inferioridade. Dessa anomalia estritamente humana, vão surgindo, aqui e acolá, infelizmente, nuanças de uma convicção cada vez mais cristalizada. Homens e mulheres protagonizam cenas ridículas repletas de significados supraliterários. Em contraposição a um conjunto de situações ficcionais de cunho fantástico, o quadro exposto quase toca o real, quando leva o leitor a mergulhar numa análise das similaridades de suas próprias vivências. Pululam nestas páginas personagens que fingem dar aquilo que, na verdade, estão a subtrair de alguém supostamente necessitado de alguma ajuda ou cuidado — não se pode admitir nunca a superioridade intelectual de quem se revela contrário aos apelos da etnia e ao determinismo genético. Naturalmente, as comparações são inevitáveis.

As referências que tratam da inveja, caracterizadas nos capítulos 13 e 52, trazem-nos uma constatação terrível: a inveja — ao lado do despeito — é um sentimento de inferioridade quase infantil. O grande perigo reinante, embora subterrâneo, é o despeito. Na inveja, deseja-se um objeto, um cargo, uma posição e vive-se, de fato, a tormenta de não tê-los; no despeito, mais avassalador e cruel, além de desejar-se o objeto, o cargo, a posição alheios, busca-se a eliminação do outro, social e fisicamente, numa tentativa desesperada de tomar-lhe o lugar cobiçado e colocar/vestir sua máscara na face despersonalizada pelo distúrbio psíquico e má formação de caráter. Retrato bem característico de nossos dias.
Josefina Duailibi Mahfuz, aqui e ali, descreve uma paisagem humana hostil sendo devastada pela fraqueza e apatia de uns e pela ganância e corrupção de outros. Devido à omissão do Estado e de carcomidas leis, suas criaturas não conseguem vislumbrar, em curto prazo, uma solução para o impasse de suas vidas mesquinhas e sem sentido. Por isso, os personagens do livro, espectrais, em sua caminhada para o aniquilamento, vão se diluindo em autômatos, mortos vivos ou sonâmbulos, ao deixarem na cidade um rastro de desolação e uma aparência de abandono. Não se pode dizer, no entanto, que seja uma cidade fantasma, após a avalanche de desgraças que se abateu sobre a sua população. Os recursos linguísticos utilizados pela escritora, por diversos, vão a pouco e pouco enriquecendo a trama com sutilezas verbais as mais insólitas e surpreendentes. Um alívio para as nossas aflições silenciosas.

Nos capítulos 27 e 43 há referências explícitas também sobre o ciúme. Em cenas meticulosas, plasmadas com o esmero artesanal de um escultor impressionista, surge um emaranhado de intrigas e dissimulações. Um exemplo será bastante. No último diálogo entre enteado e padrasto, há frases lapidares sobre esse sentimento: — “Deixa-me em paz, Orestes. Não vês que estou em outra? – argumenta o jovem Fernando, tentando se desvencilhar do abraço do padrasto”. — “Se não me queres mais, não devias me enganar assim tão abertamente. Nem por isso deixo de te amar, mesmo sabendo da existência de Sandro. Mas saiba de uma coisa: se não ficares comigo, não ficarás com mais ninguém – esbraveja com fúria o esposo de Juliana.” E, após dizer isso, saca do revólver e, cego de cólera, atira diversas vezes contra o rapaz, matando-o friamente. Esse gesto faz pensar que o ciúme de um homem por outro homem é mais compulsivo e neurótico do que o ciúme de um homem por uma mulher, ou o ciúme de uma mulher por um homem ou por outra mulher. E isso, não só na ficção de Josefina Duailibi Mahfuz, como também na vida real, tem gerado desavenças e desencontros na rotina de muita gente, com resultados assustadores e consequências desastrosas. Os jornais têm estampado manchetes dessa natureza, cotidianamente, sem nenhum pudor.

Ao fim do sexagésimo sexto e último capítulo, lá pela página 880 desse livro apocalíptico, as trinta e três histórias, inicialmente díspares e independentes, se fecham uniformemente como por encanto: Aurora Solrac, rediviva, contempla o sonho de ser mãe com uma ponta de decepção, e se vê desamparada frente ao mistério da vida, totalmente entregue à impotência e à desesperança. Mas, do seu desconforto existencial, ainda encontra força para proferir uma frase extraída e adaptada do relatório final de Albert Einstein sobre o famoso “Manhattan Project”, que há de ficar martelando por muito e muito tempo na cabeça dos leitores...

Brasília, 20 de abril de 2012.

João Carlos Taveira
* João Carlos Taveira é poeta e crítico literário, autor de vários livros publicados, entre os quais Arquitetura do homem (poesia) e A arquitetura verbal de Nilto Maciel (fortuna crítica). Em 1994, recebeu do Governo do Distrito Federal a Comenda da Ordem do Mérito Cultural de Brasília. E em 2002 foi eleito para a Cadeira n.º 26 da Academia Brasiliense de Letras, cujo patrono é o poeta simbolista Cruz e Sousa.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Mar de Pedras é o terceiro romance do escritor Daniel Barros - Juvenil Tomás


Mar de Pedras é o terceiro romance do escritor Daniel Barros

Vista del mar en Scheveningen - Vincent van Gogh
O ritmo vívido e o passo firme da narrativa não permite sonolência.

Embalado e envolvido pelo clima quente do romance, o leitor viaja, sentindo as emoções e o sabor da história.

Isto, literalmente, o clima quente, não só da narrativa, mas também do cenário, que são, principalmente, as praias do litoral alagoano. O sabor vem das combinações, às vezes excêntricas e exóticas, das bebidas e comidas, exploradas com maestria por Daniel. O livro descreve, com riqueza de detalhes, vários tipos de comidas e bebidas.
Foto: Daniel Barros. Barra de Santo Antônio-AL

Lindas e quentes praias, bom gourmet, fartas adegas, o que falta? Ah! Não falta. Está tudo lá, com riqueza de detalhes: os romances, o amor e, certamente, o sexo. Desde aquele veloz e tempestuoso até aquele aprouch mais tenso e lento, porém não menos intenso.

Afinal quem resiste àquela beldade carioca, malhada, panturrilhas musculosas. Panturrilhas!? Calma gente já vou subir! Rosto límpido e lívido, boca deliciosa e sedenta, seios fartos e quase desnudos. Quase? Por ora, claro. E o bumbum? Certamente perfeito, farto e empinado. Aí, do almoço à sobremesa é um passo bem frenético.

Mas, lembram-se daquela frase: “Laranja madura na beira da estrada, tá bichada zé, ou tem marimbondo no pé”. Bem! isso Henry tratou de verificar minuciosamente: tocou, apertou cheirou… milimetricamente, externa e internamente Com certeza absoluta ela não estava bichada!

Daniel sabe falar também do aprouch mais cauteloso e tenso, falar do perfume que inebria, dos pensamentos fortes, latentes e recorrentes.


Quem é a família tradicional brasileira? A burguesia com seus filhinhos bombados fumando maconha e causando confusão nas praias e nos bares? (Só se dão mal quando encaram um tal de Treme Terra). Ou são as famílias de trabalhadores - pescadores, por exemplo - que levam uma vida simples mas honrada.

Daniel Barros e o escritor Juvenil Tomás
São muitos argumentos. Vou falar um pouco mais do livro no próximo post. Mas você não precisa esperar, entre no site abaixo, peça o seu exemplar e embarque nessa viagem deliciosa… e perigosa!

quarta-feira, 10 de maio de 2017

PEQUENA NOTA SOBRE UM LIVRO ADMIRÁVEL João Carlos Taveira





O livro mais delicioso e sério que li ultimamente, com atraso de quinze anos, intitula-se Paris... nos tempos de Debussy e é de autoria do pianista e acadêmico Oriano de Almeida, já falecido. Publicado em 1997, com apoio do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e do Banco Real, o livro é uma biografia do autor de Prélude à l’après-midi d’un faune, La mer e Pelleas et Melisande, mas também um retrato vivo da Cidade Luz, pintado na segunda metade do século XIX. Mas, nesse curto espaço de tempo, somos levados a empreender uma viagem vertiginosa pela vida parisiense, com suas ousadas, borbulhantes e surpreendentes cenas de humanidade explícita. Poucas cidades do mundo disseminaram conhecimento científico, literário, musical e pictórico como a capital da França naquele período.

  
Oriano de Almeida, com riqueza de detalhes, compõe um painel histórico abrangente, que inclui a ciência, a música, as artes plásticas, a literatura e, principalmente, a política, na transição da monarquia para os ventos inconstantes da república — num ambiente transbordante do espírito de liberdade que pairava sobre o mundo moderno. A narrativa tem início em 1862 quando nasce Achille-Claude Debussy, em 22 de agosto, na tranquila Saint-Germain-en-Laye, cidadezinha situada a poucos quilômetros de Paris.

Paralelas ao nascimento e evolução do pequeno Claude, até sua transferência definitiva para a capital, vão surgindo informações cristalinas nascidas da pesquisa minuciosa e do trabalho diligente de composição do autor norte-rio-grandense nascido em Belém do Pará. Depois, Oriano de Almeida se deteve na fase impressionista, para justificar suas descrições. Mas, por força do tema e das circunstâncias históricas, transcendeu os limites da escola que sucedeu ao naturalismo e ao simbolismo francês e pintou um quadro de época deliciosamente encantador. Nem a pobreza e parvoíce da família Debussy nem o barro que moldou a personalidade do pequeno Claude conseguiram ensombrear as páginas de seu estudo. Há uma brisa suave e um colorido ameno pairando sobre os personagens que povoaram Paris naqueles tempos, tanto os de têmpera maleável, como Charles Gounod, Camile Saint-Saëns, Gustave Flaubert, quanto os irascíveis Victor Hugo, Paul Valéry, Anatole France.

Oriano de Almeida
Além das privações que marcaram a vida do jovem Claude Debussy, no mundo da música, Oriano de Almeida descreve tipos os mais caras de pau no campo da literatura. São seres que fingem que escrevem, mas nada criam, embora conheçam a gramática e as normas cultas da língua. Fingem que leem, e até compram livros, mas só conhecem lombadas... Dizem que apreciam música, mas nunca vão a concertos. Acreditam piamente que, pelo nome da família e herança de sangue, podem pleitear vagas e cadeiras nas academias de letras e entidades congêneres, apresentando textos chinfrins, que mais lembram atas e requerimentos, numa linguagem cartorial e técnica. Por fim, vivem entre escritores, para se sentirem escritores, e até publicam, “mas suas obras (poucos ultrapassam o primeiro livro) não hão de resistir até o fim da primavera”, comenta Madame Feurville com sarcasmo e má vontade.  

Ao fundir as artes e a política num mesmo cadinho, o autor nos oferece momentos de delicada beleza plástica. Um exemplo delicioso fica por conta das viagens de Dom Pedro II àquele país, que o acolhe com entusiasmo, respeito e fidalguia. Na primeira delas, Victor Hugo, mesmo sabendo do interesse do imperador em conhecê-lo, nega-se veementemente a qualquer possibilidade de encontro. Na segunda, no entanto, o representante máximo do Brasil dá uma aula de nobreza, humildade e desprendimento: sai do hotel em que estava hospedado e, sozinho, vai até a casa do autor de Os miseráveis, batendo-lhe à porta às nove horas da manhã, naquele longínquo mês de maio de 1877. Ao vê-lo, o escritor, entre desconsertado e surpreso, o recebe já sem nenhuma hostilidade e a conversa se estende até próximo do meio-dia. Na terceira, como todos devem saber, o pai da Princesa Isabel ausentou-se do Brasil por motivo de saúde, o que deu à filha oportunidade de abolir a escravidão, para desespero e desgosto dos poderosos de plantão. Na quarta e última, por força de um golpe sujo e desrespeitoso com a sua pessoa e com a nação, está ali para morrer. Mas essa é outra história.

Claude Debussy
Há no livro, também, mil e uma tiradas repletas de humor e fanfarrice, como as do milionário Eduardo Prado, por exemplo. Mas o foco central é a vida do jovem Achille-Claude Debussy, o pianista e compositor que, com talento extraordinário, conseguiu superar as dificuldades de uma vida medíocre e se impor como um dos grandes representantes da música francesa de todos os tempos. Hoje é considerado o criador da música impressionista. E esse retrato, por outro lado, vai se construindo de pequenas filigranas políticas e alguns malabarismos diplomáticos, em que entra em cena a chegada de Eça de Queiroz a Paris, para assumir, como cônsul, a representação de Portugal na França. O fato, por si só, é impagável, ainda mais porque protagonizado pela mulher do antecessor: a Viscondessa De Faria. Mas há muitos outros momentos desse naipe espalhados pelas páginas do livro, compondo o arcabouço da narrativa almeidiana.

Ao concluir a leitura, a sensação que fica é uma só: o Brasil é um grande arquipélago composto de pequenos arquipélagos, como diz o professor Ático Vilas-Boas da Mota do alto de seus conhecimentos e experiência. Os estados da federação, mesmo com a assistência do governo central, acabam ficando muito a dever, pois os representantes políticos veem a arte e a cultura, para dizer o mínimo, como antípodas aos seus interesses pessoais, geralmente mercantilistas e corporativos.

Livros como esse deviam ser editados por uma grande editora e distribuídos nacionalmente, para que os jovens tivessem acesso a uns instantes mágicos da história universal. O pianista que o escreveu — Oriano de Almeida — partiu vendo sua obra apreciada apenas por leitores do seu pequeno arquipélago: Rio Grande do Norte. Se tanto. 

 

Brasília, 17 de junho de 2012. 




* João Carlos Taveira é poeta e crítico literário, com vários livros publicados. Pertence à Academia Brasiliense de Letras, à Associação Nacional de Escritores (ANE) e ao Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal. Mais informações biobibliográficas no Google, especificamente na Wikipédia.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Mar de pedras - HELKEM ARAUJO

Ficha técnica:
Referência bibliográfica: BARROS, Daniel. Mar de pedras. 1ª edição. Brasília, Thesaurus Editora, 2015. 255 páginas.
Gênero: Romance;
Temas: Romance, traições, política, fotografia.
Categoria: Literatura Nacional.
Ano de lançamento: 2015.









“– Francesca, quer namorar comigo?
            O sorriso provocado pela queda agora se transforma em pasmo. Ela abaixou o rosto e seus olhares se entrelaçaram, e os lábios se tocaram. Henry pôde sentir uma boca como nunca havia sentido, num beijo macio e apaixonante. Um torpor de contentamento e felicidade tomou conta da sua mente. Queria falar, mas as palavras não saíam. A alegria parecia se espalhar fisicamente para os lados; o pensamento por certo momento desvaneceu. Nunca havia sentido algo tão especial. Recomposto, levantou-se e, sem dizer nada, voltou a beijá-la prazerosamente. A cada toque, seus corpos se excitavam e um calor corria por sua pele. Era prazer físico e, ao mesmo tempo emocional. Voltaram abraçados para o hotel. No elevador, já sentiam a falta de outro beijo. Não queriam se despedir, até que ela abriu a porta do quarto e entrou devagarzinho para não acordar Carolina.
            Ao deixá-la, Henry ainda sentia o cheiro dos lábios dela, que permanecia no bigode. Não quis lavar o rosto para não perdê-lo. O fervor de contentamento não o deixava dormir, e o semblante de Francesca não saía de sua mente. Ele fechou os olhos para ver melhor. Não quis deixar de pensar nela, pois queria continuar, mesmo depois de adormecer.”
*Mar de pedras (pág. 129).



                Henry Melo, fotógrafo profissional, solteiro, boêmio e galanteador, divide seu tempo entre a ilha de pescadores no interior do Alagoas onde vive e as várias cidades para onde viaja a trabalho com relativa frequência. Sua profissão lhe permite conhecer muitas mulheres, belas e jovens modelos. Seu estilo de vida lhe proporciona relacionamentos baseados em atração física, sexo e casos de curta duração. E Henry leva a vida à sombra da amendoeira de seu quintal, regado a bebidas e embalado pelo som do mar que banha o vilarejo que tanto ama. Mas os caminhos da vida o levam a se envolver cada vez mais profundamente com os problemas e aflições daquele povo trabalhador e sofrido pelo qual sente afeição verdadeira. E enquanto se vê cada vez mais enredado pelos problemas e, consequentemente, pela política local, Henry se envolve com uma importante personalidade do vilarejo ao mesmo tempo em que, para sua própria surpresa, se descobre apaixonado por uma jovem modelo que acaba de conhecer. 
               
foto Daniel BarrosBarra de Santo Antônio- AL
Tórridos relacionamentos sexuais, uma pitada de romance e, sobretudo, política. Este é o mote de “Mar de Pedras”. O plano de fundo é um pacato e paradisíaco vilarejo de pescadores. E nele se desenrola uma história em que a “hereditariedade” do poder público, tão comum em pequenas cidadezinhas do interior, se apresenta como um dos grandes males que assolam o pacífico vilarejo. O jovem e questionável prefeito, membro de uma tradicional família de políticos, pouco se interessa pelas questões da vila de pescadores. Negligenciados por seu governante, o povo da vila recorre aos únicos com alguma condição de lhes atender: Padre Francisco e Henry. E a trama é construída em torno de Henry: seu trabalho; suas peripécias sexuais; seu relacionamento afetuoso com Seu Antônio, o velho pescador que o viu crescer, e sua neta Carolina, que cuida dos afazeres domésticos de sua casa; sua amizade sincera com Padre Francisco; seu carinho para com a cadela Lisbela; e seu empenho em ajudar o povo da vila. Há ainda uma questão que anda mexendo com a cabeça, o coração e os princípios do boêmio fotógrafo: Henry está tendo um caso com uma mulher (algo absolutamente trivial para ele) e está apaixonado por outra (algo espantosamente inédito para ele).
Foto Daniel Barros. Barra Santo Antônio AL
               Narrada em 3ª pessoa, a trama se concentra em Henry, sendo a história contada a partir do ponto de vista do protagonista. Com capítulos curtos e narrativa ágil, o texto apresenta diálogos sucintos e precisos. Mas há longos trechos de texto em que não há diálogos, sendo o próprio narrador a apontar o que eventualmente teria sido dito pelos personagens – o chamado “discurso indireto” – e isso pode causar certa estranheza em alguns leitores. As descrições das cenas de sexo não recorrem à vulgaridade, mas é desaconselhável para menores de idade. A construção do protagonista é bastante detalhada e forte. É possível ter uma noção exata de quem é Henry Melo. Quanto aos demais personagens, somente Carolina recebe um tratamento semelhante, mas não igual. Foram poucos os erros de revisão perceptíveis. A formatação é simples e consistente com a proposta. A capa é muito bela. Devo confessar que demorei a entender a relação do nome da obra, “Mar de pedras”, com a história. Mas ao final do livro, o título faz todo o sentido. Só lendo pra ver. Aliás, o final é, até certo ponto, bastante previsível, mas é lindo e comovente.
               
“Mar de pedras” é a terceira obra de Daniel Barros, um alagoano que mora em Brasília desde o fim dos anos 1990. Engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal de Alagoas e pós-graduado em Segurança Pública, é policial civil há 17 anos. Como escritor, além de seus romances, tem participações em diversas coletâneas de contos em variados estilos, passando pelo erótico, terror e policial.
                De leitura agradável e fluída, “Mar de pedras” faz uma crítica severa à maneira como é feita política nas cidades interioranas e às consequências disso para a população. Além disso, a obra mostra um homem acostumado a um estilo “solteiro pegador” de vida tendo que se redescobrir e se reinventar ao conhecer o amor. Em suma, “Mar de pedras” é um livro para quem aprecia uma literatura crítica e engajada sem abrir mão de uma história sobre o eterno embate entre o desejo carnal e o amor.

HELKEM ARAUJO
HELKEM ARAUJO



Bibliografia de DANIEL BARROS (ordem cronológica):

Livros:
O Sorriso da Cachorra – Thesaurus (2011);
 https://www.amazon.com.br/Sorriso-Da-Cachorra-Daniel-Barros/dp/8564494345/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1494179127&sr=8-1&keywords=o+sorriso+da+cachorra
Enterro sem DefuntoLer Editora (2013);
 https://www.amazon.com.br/Enterro-sem-defunto-romance-policial-ebook/dp/B00MQK7ZLY/ref=sr_1_16?s=books&ie=UTF8&qid=1494179184&sr=1-16
Mar de Pedras – Thesaurus (2015).
https://www.amazon.com.br/Mar-Pedras-Daniel-Barros/dp/8540903652/ref=sr_1_12?s=books&ie=UTF8&qid=1494179269&sr=1-12

Participações em coletâneas:
Coletânea Contos Eróticos – APED (2013);
Enquanto a noite durar – APED (2013);
Antologia Sombras e Desejos – Ixtlan Editora (2014);
Os bastidores do crime – APED (2014);
Toda forma de amor – Darda Editora (2014).

sexta-feira, 28 de abril de 2017

O SILÊNCIO DE UM HOMEM ENTRE RUÍDOS João Carlos Taveira*

O SILÊNCIO DE UM HOMEM ENTRE RUÍDOS


João Carlos Taveira*



O escritor Eugênio Giovenardi milita no verso e na prosa com a desenvoltura de quem sabe o caminho das pedras, em sua caminhada pelo mundo e pelos insondáveis mistérios da metafísica. Mas o seu forte, pelo visto, é o gênero em que melhor se acomoda dentro da linguagem: o romance de ficção, no qual já publicou cinco títulos dos onze que constam de sua bibliografia. 
Seu novo trabalho nesse campo saiu em meados de 2011, e se intitula Silêncio. É um romance que, pela proposta de conceitos e desmembramentos de significados, pode ser perfeitamente incluído naquela lista de obras ousadas e bem-sucedidas, embora não muito fáceis de assimilação. O volume, de 198 páginas, em formato 14X21, traz capa de Thiago Sarandy e editoração eletrônica de Cláudia Gomes, com acabamento bem cuidado da Thesaurus, e está disponível nas boas casas do ramo e também pela internet no site da editora.

Todo autor almeja escrever um livro perfeito, mas poucos o conseguem. A tarefa é árdua e espinhosa, por iniciar-se além do mundo real e materializar-se no plano consciente e palpável da natureza humana. Mas Eugênio Giovenardi, neste caso, busca alcançar a proeza do intento com bons resultados. Embora não tenha conseguido de todo livrar-se de referências autobiográficas, contidas, aliás, em seus romances anteriores, neste livro da maturidade o autor de As pedras de Roma se enveredou pelas florestas obscuras do inconsciente e trouxe à luz a história de seres díspares criados à nossa imagem e semelhança; portanto, personagens de carne e osso — em toda a sua extensão física e psicológica. Com exceção de Lídice, que surge como um anjo e, como tal, desaparece, para ao fim e ao cabo da narrativa juntar-se ao protagonista, mas que em momento algum se entrega ao jogo ou controle de seu criador.


A ação se passa em Brasília e arredores, em cenários físicos e extrafísicos, em que Pedro de Montemor é personagem principal e narrador. E ele, com frases curtas e domínio vocabular, descreve na primeira pessoa a sua experiência vivida e, até certo ponto, compartilhada, em flashes ou lampejos de consciência. São angústias e desassossegos a incomodar a visão de um ser atormentado pelas conquistas do progresso em contraste com os recuos de gestão numa administração arcaica, cada vez mais inapta e incompetente. E isso se dá no coração de uma das mais modernas cidades do mundo, ao lado, naturalmente, da insistência de tenebrosos fantasmas a perseguir o trajeto de quem já caminha meio de lado, devido ao peso excessivo de um viver entre as lembranças do passado e as incertezas do futuro. E mais: Pedro de Montemor busca nos mistérios da própria vida uma certeza para seus questionamentos e, como faz com os personagens do romance, nos instiga a acreditar num mundo paralelo situado bem na rota de suas descrenças ou perquirições. Ao contrário de Hamlet, para ele, o silêncio é o limite.

Na construção do romance, segundo palavras do próprio autor, combinam-se episódios verídicos e ficcionais. Ao redor deles, o silêncio fala de maneira intemporal. “O cérebro, envolto pelo silêncio interior e exterior, fabrica associações intermináveis, superpostas e contrastantes de fatos, palavras, gestos, atos e pensamentos, expectativas e desejos produzidos no passado, memorizados no presente e lançados ao futuro.” O silêncio é desordenado. As vozes interiores se atropelam e nem sempre respeitam a ordem e a sequência de sua origem. “A liberdade do silêncio libera o inconsciente e exacerba o consciente.” Toda essa história pessoal é personificada e projetada nos indivíduos e grupos que intermitentemente formam os laços da convivência social.

Eugênio Giovenardi
Eugênio Giovenardi, além de escritor, é também sociólogo, e sabe que a vida se situa mais dentro da visão de um Guimarães Rosa que da de um Paulo Coelho. E que os perigos são numerosos, principalmente para aqueles que trazem, desde sempre, as marcas de uma formação baseada nos princípios da fraternidade entre os homens, da liberdade inalienável do indivíduo, da igualdade de todos os seres humanos e — mais forte que tudo — do respeito a todos os seres vivos deste planeta. E isso parece bastante, mesmo quando colocado de maneira não muito marcada nos entremeios de uma narrativa ficcional pouco linear. De forma insistente e quase obsessiva, o silêncio — que para Montemor é um fim em si mesmo — atravessa as páginas do livro, sem deixar vestígios. 
João Carlos Taveira

Brasília, 31 de outubro de 2011.

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*João Carlos Taveira é poeta e crítico literário, com vários livros publicados, entre os quais O Prisioneiro (1984), Na Concha das Palavras Azuis (1987), Canto Só (1989), Aceitação do Branco (1991). Tem poemas traduzidos para o russo, o romeno, o espanhol, o italiano.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Todos os direitos reversados - Maurício R. B. Campos

Todos os direitos reversados




No último Over Book ficamos conhecendo um pouco sobre domínio público. O direito autoral garante ao autor a proteção de suas criações literárias, afinal, essa criação tem seus custos, nem que seja no mínimo o custo de oportunidade: o autor poderia estar fazendo qualquer outra coisa no tempo em que está sentado à frente do teclado. Dito isso, as pessoas não podem sair por aí explorando Hans Solo e a princesa Léia, pois eles foram criados por George Lucas que vendeu esse direito para a Disney.
Mas e aquela história sobre o encontro de Hans Solo e Léia com o capitão Kirk que eu li naquele site de fanfic? Fanfic pretende ser algo feito pelos fãs e disponibilizada gratuitamente. De qualquer maneira, legalmente falando, fanfic é violação de direitos autorais. Mas os advogados da Disney não vão processar o Stormtrooper da ZL por que ele escreveu essa história na qual mil donuts foram lançados no poço de sarlacc. Não há interesse econômico. Mas se o Stormtrooper da ZL lançar esse livro na CCXP e ele vender que nem Coca-Cola no boteco, aí os melhores advogados da galáxia vão afiar suas canetas e abocanhar todos os lucros do pobre Stormtrooper da ZL. 
Portanto, o que vale é o interesse econômico. Mas será que existem pessoas que discordam disso? Sim, e elas criaram um movimento cultural chamado Copyleft. Seu nome se origina do trocadilho com o termo copyright, literalmente, copyleft pode ser traduzido como "esquerdo de cópia" ou "permitida a cópia".
Copyleft, ou direito de cópia, é uma forma de usar a legislação de proteção dos direitos autorais com o objetivo de retirar barreiras à utilização, difusão e modificação de uma obra criativa devido à aplicação clássica das normas de propriedade intelectual, exigindo que as mesmas liberdades sejam preservadas em versões modificadas. Ele difere assim do domínio público, que não apresenta tais exigências; enquanto o domínio público permite qualquer utilização de uma obra, o copyleft, tem, via de regra, a única exigência de se poder copiar e distribuir uma obra. O copyleft também não proíbe a venda da obra pelo autor, mas implica a liberdade de qualquer pessoa fazer a distribuição não comercial da obra.
O copyleft denomina genericamente uma ampla variedade de licenças que permitem, de diferentes modos, liberdades em relação a uma obra intelectual. O movimento surgiu nos Estados Unidos vinculado às áreas de TI, programadores que não queriam prender suas criações a seu ponto de vista, mas dar-lhes possibilidade de crescer e continuar dando inusitados frutos nas mãos de outros criadores.
O copyleft pode ser completo ou parcial. A diferença entre copyleft "completo" e copyleft "parcial" se refere a uma outra questão: o copyleft completo é aquele em que todas as partes de um trabalho (exceto a licença em si) podem ser modificadas por autores secundários. O copyleft parcial exime algumas partes do trabalho das obrigações do copyleft ou de alguma forma não impõe todos os princípios do copyleft. Veja um exemplo de declaração de direitos de personagem open source:
"A personagem de Jenny Everywhere está disponível para uso por todos, com uma única condição. Esse parágrafo deve ser incluído em qualquer publicação envolvendo Jenny Everywhere, a fim de que outros possam usar essa propriedade como quiserem. Todos os direitos reversados."
Essa expressão todos os direitos reversados é um trocadilho com a icônica expressão todos os direitos reservados. Jenny Everywhere é um exemplo de personagem open source.
Aparecendo inicialmente em 2002 na comunidade online Barbelith, Jenny Everywhere foi criada pelo artista de quadrinhos canadense Steven Wintle e é a primeira personagem código-aberto (open-source). Wintle, que utilizou o codinome Moriarty, a descreveu dizendo, Ela tem um cabelo curto e escuro. Ela geralmente usa óculos de aviador no alto da cabeça e um lenço envolve seu pescoço. Ou então, ela usa roupas confortáveis. Ela é de tamanho médio e tem uma boa imagem corporal. É uma pessoa cheia de confiança e carisma. Ela parece ser asiática ou indígena. Ela tem um sorriso fácil.
Maurício R. B. Campos
Depois desse pontapé inicial dado por seu criador, a personagem estrelou dezenas de HQs, contos na internet e filmes independentes. Centenas de artistas debruçaram-se sobre essa proposta e criaram suas próprias versões de Jenny Everywhere, que chegou até mesmo a ganhar uma data comemorativa: o Jenny Everywhere day. Para saber mais sobre Jenny Everywhere clique aqui.
A partir de então muitos e muitos outros personagens foram criados dentro deste escopo de código aberto. A Wikia hospeda a PDSH, que é uma enciclopédia de super-heróis em domínio público, e dentro dessa wikia há uma seção com dezenas de novos personagens que podem ser utilizados livremente (essa Wikia é em inglês).