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quinta-feira, 8 de junho de 2017

A história de um povo combativo - Pedro César Batista



domingo, 4 de junho de 2017


Cabanagem
Fala-se do povo brasileiro como se ao longo dos séculos fosse um povo covarde, acomodado e que passivamente aceitasse a opressão e a exploração das classes dominantes, fossem estas os colonizadores portugueses ou as oligarquias nacionais. Os fatos mostram o contrário, pois os índios, os camponeses, os operários, os estudantes e a população mais pobre do Brasil têm sido corajosos e combativos, enfrentando a violência, a tortura, a perda-morte e o exílio, impostos pelos governos e os mais ricos para que desistam de defender os seus direitos. A história nacional é repleta de lutas, movimentos e conquistas dos setores populares e proletários, muito diferente do que as classes dominantes propagam e tudo fazem para apagar da memória coletiva popular os momentos heroicos, combativos e ousados, demonstrados pelo povo brasileiro. 

Para comprovar isso, segue uma síntese de lutas travadas pelos melhores filhos do povo brasileiro que, desde a ocupação dos colonizadores até os dias atuais, não se curvaram, nem se sujeitaram à escravidão ou à violência imposta pelos poderosos ou o Estado. Estudar cada momento da história nacional, em que houve resistência e enfrentamento na defesa dos direitos, da justiça e da igualdade, cada vez mais é uma necessidade para formular um novo tempo, em que não haja mais conciliação, nem traição aos maiores interesses das classes trabalhadoras e do povo brasileiro na caminhada pela construção de uma sociedade livre, solidária, justa e igualitária.

Algumas das lutas e movimentos por justiça foram: 

1556 – Confederação dos Tamoios - Revolta indígena contra a escravidão que os portugueses praticaram contra os povos indígenas. Ocorreu no litoral entre Bertioga (SP) e Cabo Frio (RJ). Foi liderada por Cunhambebe, mais os chefes indígenas Pindobuçú, Koakira, Araraí e Aimberê, de tribos situadas ao longo do Vale do Paraíba dos povos Goitacazes, Termiminós, Aimorés e Tupinambás (majoritários). Combateu os portugueses e todos que os apoiassem, como os Tupiniquins, que se aliaram aos colonizadores.


ZUMBI


1585 – Quilombo dos Palmares – Organizado por um grupo de escravos fugitivos, formado por índios, negros e brancos. Seu primeiro nome foi Jaguaribe, tendo se desenvolvido e se tornado uma confederação de diversos quilombos na região, com mais de 30 mil habitantes ao longo de toda a extensão da serra da Barriga, entre Pernambuco e o rio São Francisco. Possuiu governo, exército, relações com outros governos e desenvolveu o resgate da cultura africana, originária das terras do negros sequestrados pelos colonizadores. Zumbi, sua principal liderança, foi assassinado em 20 de novembro de 1694. 




1723 – Guerra de Manaus – Resistência dos povos indígenas na região do rio Negro à ocupação dos portugueses. Liderados por Ajuricaba, que não perdoava os índios traidores, capturando-os e vendendo-os para os holandeses como escravos. Pouco a pouco, ele – Ajuricaba - foi conquistando mais terras e contando com a ajuda de mais de trinta nações indígenas que formavam uma espécie de confederação na luta contra os portugueses. A resistência durou até a prisão de Ajuricaba e de centenas de guerreiros pela tropa portuguesa. Preso, Ajuricaba foi levado de canoa para Belém, quando se jogou no rio e nunca mais foi encontrado, nem vivo e nem morto. 

1750 – Guerra Guaranítica – Resistência dos povos guaranis ao tratado entre Portugal e Espanha, que os transferiam de um lado para o outro do rio Uruguai. O principal líder foi Sepé Tiaraju. Defendiam o direito legítimo dos índios em permanecer nas suas terras. Apesar da inferioridade, no tocante a armamentos e a instrução militar, os guaranis resistiram a ataques isolados ou conjugados de portugueses e espanhóis até 1767, graças à sua tenacidade na luta, às táticas desenvolvidas e à condução de chefes como Sépé Tirayu e Nicolau Languiru.

1789 – Inconfidência Mineira - Luta pela liberdade e contra a opressão do governo português. O grupo, liderado por Joaquim José da Silva Xavier, conhecido por Tiradentes, era formado pelos poetas Tomás Antônio Gonzaga e Cláudio Manuel da Costa, o dono de mina Inácio de Alvarenga, o padre Rolim, entre outros representantes da elite mineira. A ideia do grupo era conquistar a liberdade definitiva e implantar o sistema de governo republicano em nosso país. Sobre a questão da escravidão, o grupo não tinha uma posição definida. Estes inconfidentes chegaram a definir até mesmo uma nova bandeira para o Brasil. Ela seria composta por um triângulo vermelho num fundo branco, com a inscrição em latim: Libertas Quae Sera Tamen (Liberdade ainda que Tardia), atual bandeira do Estado de Minas Gerais. Tiradentes teve como punição a forca; Tomás Antônio Gonzaga, Alvarenga Peixoto e outros receberam a pena de exílio na África.

1796 – Revolta dos Alfaiates – Ocorreu na Bahia. Formada por negros e brancos, soldados e artesãos, escravos e libertos, inspirados pela Revolução Francesa, pretendiam conquistar a independência do domínio português com uma sociedade igualitária. A participação popular e o objetivo de emancipar a colônia e abolir a escravidão, marcaram uma diferença qualitativa desse movimento em relação à Inconfidência Mineira, que formada por uma composição social mais elitista, não se posicionou formalmente em relação ao escravismo, enquanto os conjurados baianos buscavam o fim da escravidão e a emancipação da Bahia. 

1824 - Confederação do Equador – Movimento separatista e republicano, que agregou setores sociais diversos, desde os usineiros até escravos libertos. O movimento, de caráter político, que visava a separação do Brasil, transformou-se em luta armada, que impôs a Convenção de Beberibe, e determinou a expulsão do governador para Portugal e a eleição pelo povo, de uma nova junta de governo. Frei Caneca determinou o fim do tráfico negreiro, o que levou a divisão do movimento. Das centenas de pessoas que participaram da revolta nas três províncias, somente 15 foram condenadas à morte, dentre elas, a de Frei Caneca e Padre Mororó. 




1834 – Cabanagem – Movimento popular, composto por camponeses, índios, caboclos e negros. Combateu a miséria, o latifúndio, a escravidão e a opressão dos dirigentes do Império e do governo regencial da província. É considerado o maior e único movimento na história do Brasil em que as camadas populares e empobrecidas ocuparam o poder, permanecendo por dez meses à frente do governo local, até serem derrotados pelas tropas portuguesas e inglesas. Os cabanos, internados na selva, lutaram até 1840, até serem completamente exterminados. Nações indígenas foram chacinadas - os murá e os mauê praticamente desapareceram. Mais de 30 mil cabanos foram mortos. Foram liderados por Padre Batista Campos, Antônio Vinagre e Eduardo Angelim. Este foi o último governador cabano, que não se entregou e acabou preso e enviado para Fernando de Noronha.

1838 - Balaiada – Rebelião popular que assolou as províncias do Maranhão, Ceará e Piauí de 1838 a 1841. A denominação provém da alcunha Balaio, dada a um de seus líderes, Manuel Francisco dos Anjos Ferreira, fabricante de cestos. Reuniu pretos e mulatos, os chamados “bodes”, que, aliados a índios e cafuzos, sem-terra e sem direitos, uniram-se contra os portugueses e seus descendentes, que constituíam a classe dominante. Foi um conjunto de lutas dos sertanejos marcado pelo desejo de vingança social contra os poderosos da região.

1845 – Revolução Praieira - Influenciados por ideais liberais e socialistas e liderados pelo general Abreu e Lima, pelo capitão de Artilharia Pedro Ivo Veloso da Silveira, pelo militante da ala radical do Partido Liberal, Antônio Borges da Fonseca, e pelo deputado Joaquim Nunes Machado, os praieiros iniciaram em Olinda e o movimento espalhou-se rapidamente por toda a Zona da Mata de Pernambuco. Em seguida, lançaram o Manifesto ao Mundo, com as seguintes reivindicações: voto livre, liberdade total de imprensa, direito ao trabalho, nacionalização do comércio varejista, adoção do federalismo, reforma do poder judiciário, extinção dos juros, abolição do sistema de recrutamento, expulsão dos portugueses.

1896 - Canudos – Reuniu sertanejos, homens e mulheres, liderados por Antônio Conselheiro, que começaram a organização de um povoado onde teria “rios de leite e mel”. Iniciaram a sua organização, de forma comunitária, recebendo sertanejos que para lá se deslocaram acreditando que poderiam viver de forma igualitária e justa. Foi duramente atacado pelo exército do Império, a pedido da igreja e dos proprietários, que se sentiram ameaçados. Segundo Euclides da Cunha, em Os Sertões: “Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até o esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos, e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5.000 soldados”. Deixou um saldo 25 mil mortos.

1912 – Contestado – Mobilizou posseiros pobres, negros, mestiços e indígenas, contra a violência do governo republicano, que expulsou milhares de camponeses de suas terras em Santa Catarina, para a construção da ferrovia entre São Paulo e o Rio Grande do Sul, pela empresa norte americana Brazil Railway, que recebeu do governo, como parte do pagamento, as terras em uma faixa de quinze quilômetros de cada lado da ferrovia. Os trabalhadores rurais e os trabalhadores desempregados, após a inauguração da estrada de ferro, formaram um vilarejo, sendo atacado pelo exército, após uma heroica resistência, até serem assassinadas mais de 5 mil pessoas. 




1917 – Greve Geral - Paralisação geral da indústria e do comércio do Brasil, em Julho de 1917, como resultado da constituição de organizações operárias de inspiração anarcosindicalista aliada à imprensa libertária. Esta mobilização operária foi uma das mais abrangentes e longas da história do Brasil. Nunca na história deste país uma greve geral provocou um impacto tão grande aos proprietários e capitalistas. Os trabalhadores pediam melhores condições de trabalho e aumento de salário. Depois de cinco dias de paralisação geral, os grevistas tiveram suas reivindicações atendidas. 

1922 – Fundação do Partido Comunista do Brasil – PCB – Durante o congresso realizado nos dias 25, 26 e 27 de março de 1922, em Niterói, surgiu em meio ao contexto internacional com a vitória da Revolução Soviética de 1917, e da criação da Internacional Comunista em 1919. Sua primeira Comissão Central Executiva foi formada por Abílio de Nequete, escolhido Secretário-Geral, Astrojildo Pereira, Antônio Bernardo Canellas, Luís Peres e Antônio Gomes da Cruz, com Cristiano Cordeiro, Rodolfo Coutinho, Antônio de Carvalho, Joaquim Barbosa e Manoel Cendón, na suplência. As resoluções congressuais apontaram para a necessidade de uma fase democrático-burguesa na revolução brasileira, indicaram a aliança política do proletariado com a pequena burguesia radicalizada, representada pelo tenentismo, visto como um movimento propenso a abraçar a luta contra o imperialismo e pela superação dos entraves semicoloniais ou semifeudais. Os comunistas davam os primeiros passos de uma longa trajetória marcada pela participação ativa nas lutas em defesa dos direitos dos trabalhadores, das mulheres, dos jovens, dos negros, pelas liberdades democráticas e pelo socialismo. 




Olga Benário
1925 - Coluna Prestes – Movimento de origem tenentista, que reuniu 1.500 homens, durou 18 meses e percorreu 25 mil quilômetros, sem perder nenhuma batalha travada com os militares enviados pelo governo. Foi liderada por Luís Carlos Prestes e Miguel Costa e defendia a reforma agrária, o direito ao voto, a obrigatoriedade do ensino fundamental, combatia a miséria e o autoritarismo imposto pelo governo de Washington Luís. No final, Prestes se exilou na Bolívia.






Marighella
1935 – Levante antifascista - Aliança Nacional Libertadora (ANL), firmada na trilogia “Terra, Pão e Liberdade”. A revolta armada explodiu em novembro de 1935 em algumas cidades do país, com destaque para a insurreição popular em Natal, Rio Grande do Norte. Foi a reação ao crescimento das forças fascistas no Brasil e ao fechamento da Aliança Nacional Libertadora (ANL). Movimento político plural, que tinha objetivos nacionais e democráticos, anti-imperialistas e antilatifundiários, com um programa popular revolucionário, como não reconhecimento e não pagamento da dívida externa; jornada máxima de oito horas; seguro social; aposentadorias; aumento de salários; isonomia salarial e garantia de salário mínimo; fim do trabalho escravo; eliminação dos latifúndios; amplas liberdades democráticas; supressão dos privilégios de cor e raça; total liberdade religiosa com a separação entre Igreja e Estado; oposição às guerras imperialistas; estreitamento de relações com as demais nações latino-americanas; solidariedade com todas as classes e povos oprimidos do mundo. Apesar de sua derrota e de seus erros, a ANL deixou o exemplo de dedicação às causas dos trabalhadores e do povo, demonstrando que o caminho para a derrota das forças da reação e do imperialismo passa pela organização, mobilização e unificação da classe trabalhadora e dos setores populares. 

1950 – Guerrilha de Trombas e Formoso - Tinha de um lado camponeses sem terra e, do outro, grileiros. A Revolta foi uma das poucas lutas camponesas vitoriosas no Brasil republicano. Após a vitória do movimento, o camponês José Porfírio foi eleito deputado estadual. Com o golpe de 1964, Porfírio foi caçado e preso pelos militares e está desaparecido, desde a década de 70. Foi um dos movimentos mais importantes que já ocorreram no estado de Goiás. A luta camponesa da década de 50 tem sua história escondida, por ter sido a primeira assim dirigida pelo Partido Comunista do Brasil, marcando o encontro da luta camponesa com a ideologia proletária, em que os camponeses defenderam armados o seu direito à terra. Foi quando o Partido Comunista travou conhecimento com José Firmino, e depois com José Porfírio, e começaram a fazer um trabalho paciente de politização dos camponeses para a luta, ao mesmo tempo, que, se uniam a eles, até a criação de uma Associação dos posseiros, em que se organizaram as massas camponesas. Dessa associação, da qual participavam todas as famílias, surgiram outras, o chamado Conselho dos Córregos, que tinha em cada região um conselho o qual era eleito por todos da área. Até mesmo um Quartel General Feminino chegou a ser organizado por mulheres sob a direção de Dirce Machado, à época membro do Partido Comunista do Brasil – PCB. 

1946 – Ligas Camponesas - Foram associações de trabalhadores rurais criadas inicialmente no estado de Pernambuco, posteriormente na Paraíba, no estado do Rio.de Janeiro, Goiás e em outras regiões do Brasil, que exerceram intensa atividade no período que se estendeu de 1955 até a queda de João Goulart em 1964.. Em poucos anos, as ligas camponesas atuaram em mais de 30 municípios e começaram a espalhar-se pelos estados vizinhos do nordeste. As Ligas Camponesas ganharam destaque, entre os levantes populares do campo, através das estratégias de luta e pela multiplicação de focos de conflito utilizada contra a ordem, sendo essa uma das razões para a repressão do movimento por parte dos grandes latifundiários e também, do poder público. Lideradas por Francisco Julião, deputado do PSB, as ligas obtiveram o apoio do Partido Comunista (PCB) e de setores da Igreja Católica. Conseguiram reunir milhares de trabalhadores rurais na defesa dos direitos do homem do campo e da reforma agrária, sempre enfrentando a repressão policial e a reação de usineiros e latifundiários. Durante o Regime Militar de 1964, Julião e seus principais líderes foram presos e condenados.

1966 – Guerrilha do Caparaó – Organizado pelo Movimento Nacionalista Revolucionário, articulado por Leonel Brizola. A ação ocorreu na serra do Caparaó, localizada na divisa dos estados de Minas Gerais com Espírito Santo, tendo como inspiração Sierra Maestra, em Cuba. Foi desarticulado em 1967, com a prisão de todos os militantes. 

1967 – Aliança Libertadora Nacional – ALN – Fundada por Carlos Marighella, depois que saiu do PCB. No mesmo ano de sua formação a ALN inicia ações sua organização a nível nacional. Desenvolveu ações armadas para se defender do arbítrio e violência praticadas pela ditadura. Realizou assaltos a bancos, a carros pagadores, inclusive um assalto espetacular a um trem pagador da Santos-Jundiaí para levantar recursos para estruturar o movimento de resistência. Também realizou atentados com bombas caseiras, como o ataque ao consulado americano em São Paulo, em 1968. Seus dirigentes foram capturados pelos DOPS, de São Paulo, que foram torturados até falarem onde estava o comandante. Em 4 de novembro de 1969 foi armada uma armadilha que fuzilou, de forma covarde, Carlos Marighela, na Alameda Casa Branca, em São Paulo. A partir do homicídio de Marighela, Joaquim Ferreira, conhecido como Toledo e também ex membro do PCB passa a liderar o aparelho até ser preso em 23 de outubro de 1970 onde teria sido torturado até a morte. Neste mesmo ano outro importante componente da organização é morto pelo DOPS, desta vez, Eduardo Collen Leite além de ter sido torturado teve seu corpo mutilado. A ditadura prendeu ou matou todos seus militantes.




1967 - Guerrilha do Araguaia – movimento organizado pelo Partido Comunista do Brasil para resistir à violência da ditadura de 64. Formado por militantes de todo o país, que se deslocaram para a região sul do Pará, conhecida como Bico do Papagaio, desenvolveram ações humanitárias na região, formada por camponeses pobres, completamente abandonados à própria sorte pelo Estado. Em 1972, as forças armadas descobriram o movimento, levando milhares de soldados para a região para reprimir o movimento, que resistiu por três anos. Durante a perseguição, os militares torturaram os camponeses para que informassem a localização dos militantes. No total mais de 80 militantes foram mortos. Os que foram presos, terminaram assassinados, não tendo ainda sido localizados os corpos de mais de 50 guerrilheiros. Na segunda metade da década de 70, o ex-coronel do exército reformado, Paulo Malhães, que chefiou uma missão de "limpeza" na área, atuou para dar fim aos corpos dos guerrilheiros abatidos. Disse o militar que eles foram desenterrados, tiveram os dedos das mãos e as arcadas dentárias arrancadas para impedir a identificação e jogados nos rios da região, em sacos plásticos impermeáveis cheios de pedras com peso calculado, depois de terem as barrigas abertas para evitar que inchassem e flutuassem. Malhães afirmou que o método usado no Araguaia para sumir com os corpos foi igual ao usado contra os mortos da guerrilha em áreas urbanas. 

1985 – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST – Organização de camponeses sem terra que atua em todo o Brasil, tendo obtido importantes vitórias ao longo de sua história, como o assentamento de milhares de trabalhadores rurais. Preserva sua mobilização, com a organização de acampamentos que lutam para ser assentados. Tem uma estrutura organizacional muito forte, estruturada por meio de cooperativas de agricultores familiares. Luta pela reforma agrária e uma sociedade mais justa e fraterna. Tem presença constante nas diversas lutas desenvolvidas pelos trabalhadores brasileiros e em todo o mundo, integrando a Via Campesina, organização internacional de camponeses. 

1997 – Movimento dos Trabalhadores Sem Teto – MTST – Nasceu da luta dos trabalhadores rurais sem terra que atuaram nas cidades ao longo da marcha de um ano após o massacre de Eldorado dos Carajás, que percorreu o Brasil rumo a Brasília. Organiza os trabalhadores urbanos na luta por moradia e contra o modelo de desenvolvimento capitalista.

Referenciais não faltam para a caminhada por justiça.

Diante de tantas ações de resistência dos povos indígenas, dos negros e das classes trabalhadoras brasileira, ao longo dos 517 anos, desde a chegada dos colonizadores, fica evidente que o povo brasileiro é de luta e combativo. O que sempre existiu foi uma ação articulada, por parte das classes dominantes, utilizando o estado, a universidade e a comunicação de massa, para negar a história das lutas populares e revolucionárias ocorridas ao largo da história nacional. Tentam passar a ideia, e conseguem em grande parte, de que o brasileiro é um povo que se sujeita à escravidão e à exploração sem resistir. Mentiras que se propagam ao longo do tempo, mas que são facilmente desmascaradas.

Nesses séculos, foram realizados pelas classes dominantes muitos massacres contra o povo (cabe outra pesquisa vasta), especialmente quando as camadas empobrecidas e exploradas se organizam para lutar por seus direitos. Foram dizimados centenas de povos indígenas, assassinados milhões de escravos e diariamente seguem matando os mais pobres, as camadas populares e a juventude. O feminicídio existente no país é resultado dessa prática genocida, aceita como normal, e que o patriarcado carrega e propaga, com o machismo e a misoginia.

Considerando apenas o período mais recente da história, limitando a partir do golpe de 1964, foram assassinados por latifundiários e pelo Estado milhares de trabalhadores rurais, sendo que a violência do latifúndio, da monocultura e da impunidade de assassinos e mandantes segue como se fosse algo natural.

Uma das causas da impunidade reinante para os dirigentes das classes dominantes assassinas foi a imperfeição nas transições ocorridas na história nacional. Os torturadores e assassinos das ditaduras de 1945 e 1964 permaneceram/permanecem impunes, apesar de serem conhecidos os seus executores e os crimes praticados, a maioria de militares, que agiram contra o seu próprio povo. Mesmo sendo do conhecimento público, o parlamento e a justiça, com a conivência da imprensa e setores estratégicos da intelectualidade brasileira, permanecem calados e aceitam a convivência com criminosos que deveriam ter sido julgados e condenados e seguem livres, alguns até com mandatos parlamentares e recebendo aposentadorias por terem praticados crimes contra a população brasileira.

Somente existindo a preservação da memória histórica das lutas do povo, as quais possibilitaram avançar nas conquistas dos direitos civis, sociais e políticos que toda a sociedade usufrui, será possível impedir os retrocessos que batem às portas do país. Os oligarcas e serviçais dos (neo)colonizadores tudo fizeram e farão para manter seus privilégios e riquezas, conseguidos por meio da escravidão, do roubo e da traição aos verdadeiros interesses e necessidades da maioria do povo brasileiro.

Preservar a memória é uma necessidade para assegurar a dignidade humana, impedir que os crimes praticados em nome de setores dominantes se repitam e sejam aceitos por quem não conhece o passado de lutas do nossos antepassados. Um passado heroico e glorioso, que deve ser conhecido e propagado. Preservar a memória de Ajuricaba, Sepé, Zumbi, Prestes, Zé Porfírio, Olga Benário, Marighella, Lamarca e tantos homens e mulheres que não se curvaram e se dispuseram a combater para acordar o amanhã, fazê-lo sorrir para que todos e todas pudessem sonhar e construir uma sociedade justa, igualitária e fraterna é uma tarefa histórica e fundamental para a efetivação da emancipação humana.

Exemplos de ousadia, combate e resistência são faltam. Avante, sempre!!!

*Pedro César Batista – escritor, poeta, jornalista e bacharel em Direito.

Referências e fontes:

http://www.infoescola.com/historia-do-brasil/confederacao-dos-tamoios/
http://brasilescola.uol.com.br/historiab/a-confederacao-equador.htm
http://brasilescola.uol.com.br/historiab/quilombo-dos-palmares.htm
http://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/?revoltas_categoria=1722
http://www.historiadobrasil.net/brasil_colonial/guerra_guaranitica.htm
http://brasilescola.uol.com.br/historiab/inconfidencia-mineira.htm
http://www.infoescola.com/historia/revolta-dos-alfaiates/
http://www.infoescola.com/historia/cabanagem/
https://educacao.uol.com.br/disciplinas/historia-brasil/balaiada-1838-1841-revolta-popular-no-maranhao.htm
https://www.todamateria.com.br/os-sertoes-de-euclides-da-cunha/
https://geekiegames.geekie.com.br/blog/100-anos-de-guerra-do-contestado-resumo/
http://www.infoescola.com/historia-do-brasil/greve-geral-de-1917/
https://pcb.org.br/portal2/10702
http://www.infoescola.com/historia/coluna-prestes/
http://anovademocracia.com.br/no-81/3628-o-levante-popular-armado-de-1935
https://trombaseformoso.wordpress.com/2009/02/24/trombas-e-formoso-a-vitoria-dos-camponeses/
http://www.ligascamponesas.org.br/?page_id=99
http://www.infoescola.com/historia-do-brasil/guerrilha-do-caparao/
http://vermelho.org.br/noticia/180122-1
http://www.mtst.org/
https://brasiledesenvolvimento.wordpress.com/2011/02/26/a-luta-por-moradia-e-pelo-direito-a-cidade/


Pedro César Batista
Jornalista, escritor e educador ambiental
Coordenador Geral do Movimento Cultural de Olho na Justiça

(61) 98322 9805

terça-feira, 6 de junho de 2017

A POESIA DO CERRADO João Carlos Taveira (*)




      
Vendas
A poesia de Emerson Vaz Borges, pelo cenário que descortina e pelos temas que apresenta, pode lembrar em uma primeira leitura o universo do poeta mato-grossense Manoel de Barros. Depois, entretanto, o leitor é conduzido para outras paragens menos minimalistas. Emerson procura contato com paisagens e personagens de um mundo em expansão, enquanto Manoel de Barros se detém num terreno típico de ciscos e gravetos — microuniverso que, muita vez, escapa ao olhar humano. São ambos poetas do Centro-Oeste brasileiro, mas com suas temáticas distintas e equidistantes no reino das palavras.

       Emerson Borges canta a fauna e a flora do cerrado, com seus verbos nervosos e inquietos, regidos por preocupação ambiental e movidos unicamente por instinto de defesa. E assim, seu livro O cerrado vive em mim (Thesaurus, 2011) percorre, adverso à contenção da forma, os caminhos de uma eloquência verbal muito próxima da crônica de costumes. São árvores, flores, frutos, rios, lagos, pássaros, insetos a testemunhar a evolução do homem — da infância até a idade adulta — pelos caminhos da natureza, em perfeita sintonia com o ambiente em que foi criado.

      
Daniel Barros, João Carlos Taveira e Emerson Vaz Borges
Nesse livro, meio arqueológico, meio documental, perpassa também a visão saudosista de quem sabe dos alvoroços surgidos na sociedade contemporânea com relação às políticas de preservação das florestas em nosso país. Suas mensagens procuram, todavia, o registro do que é belo e necessário à perpetuação das espécies no planeta. Por esse ângulo, é um canto de louvor ao homem simples da região e ao habitat natural de outros seres, que também veem ameaçadas sua casa, sua vida, sua sobrevivência.

       Escritos em versos livres, com rimas consoantes e toantes, os poemas que compõem esta coletânea trazem, junto ao título, em latim, o nome científico de cada espécie referida (vegetal ou animal) e, ao pé da página, um verbete dos significados etimológicos de cada termo. O poeta compete, assim, com o notável botânico Pio Corrêa, em seu magistral Dicionário de Plantas Úteis do Brasil. Trata-se de um trabalho minucioso, de importância literária e ambiental, que há de enriquecer a leitura em diversos níveis de abordagem.


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João Carlos Taveira
(*) João Carlos Taveira é poeta e ensaísta. Tem vários livros publicados e está ultimando mais um de poesia: Biografia do Instante, que deverá sair até o fim do ano.





     

sexta-feira, 2 de junho de 2017

ENTERRO SEM DEFUNTO, DE DANIEL BARROS - João Carlos Taveira*



João Carlos Taveira e Daniel Barros
Daniel Barros não é só uma promessa, mas uma revelação da nova literatura brasileira. E o romance foi o gênero escolhido para expressão de suas inquietações, de seu estar no mundo. Depois do sucesso do livro de estreia (O sorriso da cachorra), chega a este Enterro sem defunto com grande vigor criativo e amadurecido domínio das técnicas exigidas pela modernidade. Sua oficina romanesca, de certa forma, amplia o discurso tradicional na busca de uma dicção própria, em que elementos ficcionais entrelaçam fatos históricos com fatos cotidianos vivenciados pelo autor. A originalidade, todavia, é meta precípua deste alagoano determinado e audacioso.        
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O enredo do livro, com utilização de flashback, se desenvolve em múltiplos planos da ação narrativa, para desaguar, como em um filme noir, no suspense, mas sem final feliz. O narrador, embora onisciente, detém-se mais em sugestões do que em afirmações... E deixa tudo em aberto. Cabe ao leitor interpretar o conteúdo e escolher o desfecho que melhor lhe aprouver. 
A linguagem utilizada nunca é rebuscada, embora cuidadosa no apuro vocabular e sintático. Daniel Barros, a partir de suas vivências, como já foi dito, veicula ideias muito próprias acerca do mundo recriado. E, à maneira de um Graciliano Ramos, de um Ernest Hemingway, por exemplo, não esconde o desconforto e o pessimismo diante de certos acontecimentos da vida e se rebela, às vezes, contra soluções inconsequentes do Poder Público. 
Enterro sem defunto, pela ousadia do conteúdo, merece, desde já, lugar certo em nossa estante e deve receber o devido reconhecimento de leitores e de crítica. É o mínimo que se espera.

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João Carlos Taveira
* João Carlos Taveira é poeta e crítico literário, com vários livros publicados, entre os quais se destacam O Prisioneiro, Canto Só, Aceitação do Branco, A Flauta em Construção, Arquitetura do Homem. Tem poemas traduzidos para o Espanhol, o Italiano, o Romeno e o Russo e pertence a várias entidades, tais como Associação Nacional de Escritores, Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal e Academia Brasiliense de Letras.

terça-feira, 30 de maio de 2017

UMA OBRA EM VERDE MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA - João Carlos Taveira


Em meados do século XIX, o naturalista britânico Charles Robert Darwin alcançou fama ao convencer a comunidade científica da ocorrência da evolução das espécies e propor uma teoria para explicar como ela se dá por meio da seleção natural. O mundo, perplexo, demorou um pouco para absorver tamanha ousadia. Mas acabou cedendo em sua resistência, para a felicidade geral das nações.

Editora Kiron 
Hoje, um século e meio depois, o ecossociólogo Eugênio Giovenardi propõe uma teoria semelhante, em termos científicos e revolucionários. Uma Obra em Verde (2015) está para o futuro da vida no planeta como A Origem das Espécies (1859) está para a compreensão da vida em todas as suas dimensões. E não há nisso nenhum exagero.

Diante da evolução dos meios de produção e dos avanços tecnológicos, não existe mais espaço para abstrações como “quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?”. A questão agora é outra. Como o homem irá sobreviver junto às outras espécies, sem exterminá-las? Como irá garantir vida ao solo e à água, sem preservar rios, nascentes, árvores, florestas? Como haverá de lidar com a superpopulação e a escassez, sem destruir a vida de seus semelhantes com atitudes cada vez mais tacanhas e irracionais?

Se Darwin introduziu a ideia de evolução a partir de um ancestral comum, por meio da seleção natural, e esta se tornou a explicação científica dominante para a diversidade de espécies na natureza, Eugênio Giovenardi está a nos dizer a plenos pulmões que, mesmo diante das dificuldades de aceitação e respeito à ecocomunidade, é possível salvar o homem que caminha a passos largos rumo a sua própria extinção.
Eugênio Giovenardi

Uma Obra em Verde é uma proposta ousada, porém simples, que deve figurar urgentemente como manual de sobrevivência em todas as comunidades leigas e científicas. E é, antes de tudo, o testemunho de um homem que, em mais de quarenta anos, vem observando, estudando e respeitando a vida em suas mais diversas manifestações, e agora quer compartilhar conosco as suas preocupações legítimas com relação ao futuro das espécies.

E Eugênio Giovenardi também nos diz que a Terra, apesar de tudo, continuará girando a trinta quilômetros por segundo em volta do Sol, independentemente do homem, que poderá estar aqui ou não.


Brasília, 11 de setembro de 2015.   


João Carlos Taveira
* João Carlos Taveira é poeta e crítico literário, autor de vários livros publicados, entre os quais Arquitetura do homem (poesia) e A arquitetura verbal de Nilto Maciel (fortuna crítica). Em 1994, recebeu do Governo do Distrito Federal a Comenda da Ordem do Mérito Cultural de Brasília. E em 2002 foi eleito para a Cadeira n.º 26 da Academia Brasiliense de Letras, cujo patrono é o poeta simbolista Cruz e Sousa.



domingo, 28 de maio de 2017

PEQUENA RESENHA LITERÁRIA - Daniel Barros

PEQUENA RESENHA LITERÁRIA



Daniel Barros*


       
Nilto Maciel
Hoje tive a grata surpresa de receber novo livro de Nilto Maciel – Gregotins de desaprendiz –, que me deixou ansioso para ler. O último que li foi MENOS VIVI do que fiei palavras, livro que me encantou e me surpreendeu. Como o próprio Nilto diz, e concordo com ele: “Gosto de surpresas...”, referindo-se a um romance que lia no momento, e que não a estava encontrando no tal romance.
       Acredito que MENOS VIVI do que fiei palavras é um livro que deveria ser lido por todos que pretendem se tornar escritores. Acho que não foi esta a intenção dele, mas à medida que comenta outros autores, dá uma lição de como escrever um bom livro, é evidente. Mais uma vez concordo com Nilto: “... arte não se aprende. É talento, vocação, inspiração, predestinação. Seguidos de aprendizado, paciência, trabalho, dedicação.” Estão servidas as suas “dicas” a este segundo momento do trabalho.

       Foram muitos os momentos em que me identifiquei com o autor em seus relatos, o que me deixou menos desamparado, menos só, como na seguinte passagem: “A leitura para mim ocorre, fundamentalmente, por dever (de escritor) e por falta de ocupação melhor. Para renovar a literatura, é preciso ler muito.”
       Sem dúvida, como bem diz o poeta João Carlos Taveira, Nilto Maciel é um dos escritores mais completos da moderna ficção brasileira, como também o foram Graciliano Ramos, Machado de Assis, entre outros mestres da nossa literatura.

*Daniel Barros é autor do romance O sorriso da cachorra Editora Thesaurus 2011, Enterro sem defunto, LER editora 2013, Mar de pedras Thesaurus 2015.



sexta-feira, 26 de maio de 2017

Palavra do Editor - Abril de 2017 - Arisson Tavares


Nossa sugestão de leitura para o mês de abril de 2017 foi Mar de Pedras, de Daniel Barros.
www.amazon.com.br/Mar-pedras-Daniel-Barros

Nesta obra, a terceira do autor, os leitores são transportados para uma vila do interior de Alagoas. A cada página, os costumes e pratos típicos da região ganham força. Nunca estive lá, mas consegui experimentar a simplicidade de viver em um lugar assim.

O livro conta a história do Henry Melo, que é um fotógrafo totalmente profissional e, por conta disso, vive viajando a trabalho. Ele é um rapaz honesto e preocupado com causas sociais. Por conta de sua popularidade na região, surgem boatos de uma possível candidatura, desagradando políticos da região.

Apesar de ser bem visto por todos que o conhecem, Henry tem uma grande fraqueza: mulheres. A narração começa a ficar mais picante quando vem à tona as aventuras amorosas dele. Sem limites ou restrições, ele se envolve até mesmo em orgias com a mulher do prefeito da cidade, que nunca está presente quando a comunidade precisa.

Porém, surge na história Francesca, que o fascina de uma maneira diferente. A prova disso é que a atração pela mulher não é só física. Com isso, Henry rapidamente se envolve com a modelo, que corresponde a cada sentimento dele. O fotógrafo a pede em namoro e volta para Alagoas, envolto de saudade.

Poderia ser apenas uma linda história de amor, mas o passado começa a interferir na ficção. Primeiro, por meio de Bruna, a mulher do prefeito da cidade, com quem já teve um caso. Henry mostra sua fraqueza diante das seduções dela e, quanto mais tenta fugir, mais intensa fica a situação.

O uso de bebidas alcoólicas, algo que parece ser bem forte na região, também está presente em quase todos os capítulos do livro. Os drinques e coquetéis são citados com nomes e a escolha deles demonstra até mesmo o sentimento do personagem.

Impossível não analisarmos algumas semelhanças entre o autor e o personagem. Os dois dividem a paixão por fotografia e por Alagoas. O fato de o escritor ser pós-graduado em segurança pública também levanta alguns debates sociais sobre o papel do policial nos diálogos do livro. 

Arisson Tavares - Escritor e jornalista
Quando a história começou a cair em uma certa obviedade, surgiu um final que me impressionou. Enfim, gostei da obra por não seguir regras de um gênero literário específico. Isso deu a leitura um ar de surpresa a cada capítulo. Indico para todos os tipos de leitores, respeitando uma classificação indicativa mínima por conta de alguns capítulos mais quentes.



quarta-feira, 24 de maio de 2017

A CONSTRUÇÃO POÉTICA DE NAPOLEÃO VALADARES João Carlos Taveira



Nestes tempos de pós-modernidade, de poesia neobarroca, de poema verbivocovisual e outras designações que têm norteado certa poesia praticada entre nós, o surgimento de um livro de poesia que explora a linguagem dos signos e dos símbolos, concomitantemente palatáveis à compreensão geral, é motivo suficiente para a manifestação de uma resenha ou de um artigo em letra de imprensa.


Vamos, pois, ao livro. Trata-se de Delírio Lírico, poema longo, em trinta e quatro cantos, de Napoleão Valadares, editado por Edições Galo Branco, Rio de Janeiro, 2008, e lançado em Brasília em novembro deste ano. O poema é todo construído em decassílabos brancos, sem estrofes, cujos cantos têm 49 versos cada um, exceto os de números V, VI e VII que se estendem a 80, num total de 1.759 versos. O assunto é tratado em ordem cronológica e abrange mais de 30 séculos de história, que se inicia com a Guerra de Troia (séc. XIII a. C.), passando por Sócrates, Platão, Aristóteles, até chegar praticamente aos nossos dias.
Napoleão Valadares, na sua construção poética, optou pela narrativa épica em que, com mestria e bom humor, funde a linguagem nobre, clássica, à linguagem popular, atual, numa tirada muito interessante e jamais vista em nenhum poeta brasileiro de qualquer escola. Mas o que salta aos olhos e aos sentidos é a correção gramatical, o domínio da língua, a clareza de expressão, a concisão. Além, é claro, do senso de humor nas “pilhérias” e “invenções” que o Autor derrama pelo texto afora. Sirva-se de exemplo o Canto XXVI, em que o narrador, em diálogo com Camões, ouve do mestre de Os Lusíadas a seguinte confissão: “Amor é fogo”, numa clara alusão ao célebre soneto “Amor é fogo que arde sem se ver”, do bardo português.
Por força da circunstância de leitura, há que se fazer agora uma referência enfática: ao longo do poema são praticados os mais variados tipos de verso decassilábico, que vão dos mais comuns (heroico e sáfico) aos de maior raridade. Por exemplo: a gaita galega (também chamada moinheira), decassílabo que apresenta sílabas tônicas nas posições 4, 7 e 10; e o que Anderson Braga Horta chama de “decassílabo átono”, aquele cuja décima sílaba abre mão da tônica para criar um novo tipo de enjambement – o que desafia a linguagem poética em benefício da fluência rítmica da prosa. Deve-se acrescentar que, de rara apresentação nos poemas latinos, esse tipo de verso aparece, no entanto, algumas vezes em letras de música. (Quem ama a poesia e conhece um pouco os seus mistérios sabe que a figura da métrica no poema não é, como na música, uma regência implacável sobre o ritmo. Mas sabe, sobretudo, que é o ritmo que dá beleza à música, bem como ao poema. Fora disso, a poesia escrita sob os parâmetros do que foi mencionado no primeiro parágrafo deste texto corre sério risco: pode cair no vazio absoluto ou no descrédito normativo da língua. E aqui cabe um provérbio chinês: “O tolo corre onde o sábio não andaria”.)
Napoleão Valadares
A temática simples, porém inusitada de Napoleão Valadares, exposta por intermédio de um personagem delirante, vítima de febre intermitente, abrange o conhecimento universal da política, da filosofia, da cultura, das artes; enfim, da história da humanidade, em seus mais variados arcabouços linguísticos e semânticos. E apresenta – et pour cause – um conhecimento profundo das coisas e das mazelas do mundo. A exemplo de Machado de Assis e Francisco Carvalho – para citar somente dois escritores que nunca saíram de sua terra natal e conhecem cada canto do mundo, cada rua e cada pedra de muitas cidades, sem ter viajado para nenhuma delas –, Napoleão Valadares vai descrevendo vilas, urbes, países, continentes inteiros, só pela leitura sistemática e pelo estudo regular. Seu texto é uma vitória sobre o turismo funcional e dirigido...
Outro registro que vale a pena ser consignado é com relação à simetria de alguns grupos de versos encontrados em três cantos do poema. A saber: no Canto XXV, que trata do Descobrimento da América, há, além da simetria, um reducionismo consciente do verso “Colombo olhando o azul” para, dez versos abaixo, “Olhando o azul” e nos dez seguintes, simplesmente “O azul”. No Canto XXVIII – sobre Shakespeare – ocorre semelhante simetria do número oito entre os versos “Hamlet, o Príncipe da Dinamarca”, “Depois, Otelo, o Mouro de Veneza” e “rapazes muito diferentes delas”. Finalmente, no Canto XXXII – num encontro com Dostoiévski e Tolstói – pode ser facilmente encontrada a relação com o número sete entre os versos “porque o primeiro, condenado à morte”, “O outro, mundana mocidade, estroina” e, finalmente, “os meandros da alma humana conhecia”. Mas esta numerologia deverá ser tratada em outro estudo.
Napoleão Valadares, com este livro, apresenta um poema novo e singular, mas não pretende inventar ou reinventar estilo nem fundar escola. Quer tão-somente fazer partícipe o leitor dos delírios da febre, nesta grande viagem pelo mundo e pela história da humanidade, empreitada que realiza, com percuciente habilidade, por intermédio de uma linguagem poética fluente e agradável.
Delírio Lírico é leitura obrigatória para todos aqueles que amam a tradição e aceitam o novo, pois essa dicotomia geralmente possibilita maior compreensão e fruição da Arte, seja ela musical, pictórica ou literária.


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João Carlos Taveira
* João Carlos Taveira, mineiro de Caratinga em Brasília desde 1969, é poeta e crítico literário, com vários livros publicados, entre os quais: O Prisioneiro (1984), Aceitação do Branco (1991), A Flauta em Construção (1993), Arquitetura do Homem (2005). Em 1994, recebeu do GDF a Comenda da Ordem do Mérito Cultural de Brasília.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Entrevista com o autor Daniel Barros - Laura Militão



Laura Militão
A entrevista de hoje é com o autor Daniel Barros, que é nosso parceiro.

Entrevista:

1-  Daniel, quando foi sua primeira publicação e qual foi?

O desejo de expressão é inerente à espécie humana, potencializado quando se refere ao sentimento. É preciso pôr para fora para não sufocar. Como dizia Paulo Leminski no poema “Pergunte ao Pó”: “... o que a gente sente / e não diz / cresce dentro”. Comecei a escrever justamente por essa necessidade de expor sentimentos e ideias. O sorriso da cachorra é uma história divertida e prazerosa. Entretanto, sem esquecer o espírito de denúncia que nós, os escritores nordestinos, temos.


2- Quais são seus livros já publicados?



O primeiro O sorriso da cachorra, Enterro sem defunto (romance policial) e Mar de pedras. O quarto está em  fase de revisão: canto escuro (romance policial).
www.amazon.com.br/Sorriso-da-Cachorra

O sorriso da cachorra é uma novela que basicamente conta estória de um casal de adolescentes que se apaixona e vive todo um encanto de amor juvenil e também todas as agruras e inseguranças da adolescência, tal paixão se passa na paradisíaca Maceió e em tempos de chumbo, finja nos estertores da ditadura militar, quando o casal se envolve no processo de redemocratização do país. Apesar de ser uma novela leve, apresenta um final um tanto pesado. Ah! O título poderia ser tema de um baile funk, mas não é bem assim. O livro, pelo contrário, como diz o poeta Ivan Marinho no prefácio: “A novela O sorriso da cachorra, se poema, seria uma ode à paixão, com toda sua ousadia, encantamento, ilusão... e loucura.”



3- Dos livros de sua autoria, qual é o seu preferido?

Enterro sem defunto
Discordo de alguns colegas que afirmam que livros são como filhos. Para mim não são, pois nesse caso, gosto sempre mais do caçula que dos demais. O que seria uma injustiça, porém, para fugir do mal, que assola nossa sociedade, a hipocrisia, digo-lhes: no fundo, nós pais temos a preferência por um deles, mas não podemos revelar para não causar ciúmes nos outros (riso).



4- Pretende publicar mais algum livro? Se sim, quando?

Quando terminei O Sorriso da Cachorra, meu maior medo era não ter folego para escrever outro livro, e ser escritor de um livro só. Hoje o meu maior medo é não evoluir nas próximas obras. Neste sentido tenho tido boas críticas sobre a minha possível evolução, e, portanto, o trabalho se torna mais árduo.
Sim. O livro Canto escuro já está pronto, em fase de revisão, que é a parte mais trabalhosa, mas deve ser lançado em 2018. É um romance mais denso, mais introspectivo, com um cuidado maior na construção dos personagens e do enredo.

5- De onde tira inspiração para escrever?

"Se queres ser universal, escreve sobre a tua aldeia." Tolstoi.
A vida, as pessoas que me cercam, o ambiente em que vivo, sobretudo, as ideias e os sentimentos inerentes à condição humana. 

6- Algum dos seus livros foi inspirado na sua vida?

Mais uma vez recorro à citação de outro mestre, desta vez Jorge Amando que dizia: “Todos os meus personagens têm um pouco de mim e das pessoas que conheço.” Só pretendo escrever minha biografia quando estiver perto de morrer, portanto espero que não seja por agora (risos).

7- Há algum autor em que você se inspire ou do qual seja fã?

“Vixi!” Vários. Poderia começar pelo autor que me inspirou a tornar-me escritor: Ernest Hemingway, um escritor que deixou uma belíssima obra e uma história de vida fascinante.
Jorge Amado, com certeza me influencia muito, até hoje. Como disse o presidente da Academia Petropolitana de Letras-RJ Gerson Valle, sobre minha obra: “... De alguma forma, refletem o hedonismo dos romances de Jorge Amado.”
Citaria também as influências literárias de minha terra, Alagoas: Graciliano Ramos, Lêdo Ivo, Jorge de Lima e Ivan Marinho. Tal qual eles, escrevo com a alma de nordestino sofredor e injustiçado e como disse Lêdo Ivo: “... nós, romancistas do Nordeste, denunciadores incômodos e incorrigíveis da pobreza e da injustiça, dos pesadelos e das calamidades, sempre nos distinguimos de nossos confrades do Centro e do Sul pelo nosso ar de estrangeiros, de emissários desse interminável Oriente que é a nossa terra natal.”
Mar de pedras
E muitos outros... Em outra entrevista foi perguntado sobre o encontro de gigantes em Mar de pedras: “Em Mar de Pedras Jorge Amado encontra Hemingway, quais as suas influências literárias?” Respondi: “Realmente um encontro de gigantes! A virilidade e valentia dos heróis Hemingwaynianos e a malandragem e a realidade dos anti-heróis de Jorge Amado. Em comum, as aventuras e a boêmia de ambos. Não há dúvida que são minhas maiores influências, mas não poderia deixar de citar Bernardo Guimarães e Marcel Proust, onde a riqueza de detalhes é marcante, riquezas essas que já me rederam algumas críticas negativas. Não poderia deixar de fora o mestre Rubens Fonseca, para mim o maior escritor brasileiro de literatura policial. Dele busco o cuidado técnico da informação colocada no enredo, sem furos por falta de conhecimento, o que é muito comum na literatura policial. Para você ter uma ideia, um premiado escritor e jornalista teve o disparate de escrever que seu personagem, ao ouvir um barulho na porta, ‘destravou sua pistola Glock e...’ Ora! As pistolas dessa conhecida fábrica austríaca não apresentam travas, apenas um mecanismo no gatilho, que ao ser acionado libera a arma para o disparo. Nesse mesmo livro ele cometeu outros equívocos, que poderiam ser facilmente eliminados, se ele tivesse a humildade de consultar um profissional da área.”

8- Qual seu livro preferido? 

Sortilégio possível - Ivan Marinho
Inúmeros! Romance: Ninho de cobras, de Lêdo Ivo; poesia: Sortilégio Possível, de Ivan Marinho, e histórico: Os sertões, de Euclides da Cunha.

9- Você segue algum método para escrever? Mantém fichas de personagens, esboços, desenha previamente as cenas ou é mais intuitivo?

Normalmente começo pelo fim. Penso no desfecho e desenvolvo em cima daquela ideia. E, para minha surpresa, descobri que esta técnica, era um método ensinado nas oficinas literárias ministradas por Gabriel García Márquez. Quanto aos personagens, estes surgem naturalmente, mas, à medida que escrevo, eles vão tomando formas e crescem. Às vezes, uma personagem que a princípio seria um coadjuvante cresce e se torna grande. Aconteceu em Enterro sem Defunto. Catarina era para ser apenas a namorada de Alcides, mas de repente cresceu ao ponto de ser, talvez, a personagem mais forte do livro. Em Mar de Pedras isso ocorre com Carolina.  Não quero dizer com isso que eles tenham vontade própria, não! Quem manda é o autor, mas tem personagens que nos conquistam.

10- Que dica você daria para quem planeja escrever um livro?

Ler, ler e ler! Escritor que não lê nunca se tornará um grande autor. Entrevista com o autor Daniel Barros