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quinta-feira, 16 de março de 2017

Mau senso - Paulo Tadeu Poli

Mau Senso


Nonsense é o resultado de um pensamento incompreensível. Sem pé nem cabeça.

O bom senso tem a cabeça ao alto e os pés no chão.

O Mau senso é estranho, mas reconhecível, assim como reconhecemos qualquer pessoa do

nosso relacionamento mesmo plantando bananeiras. Restará entender a razão pela qual, essa

pessoa identificada, jure que está em pé.

Uma conjunção de fatores pode fazer com que tudo corra bem e promova o êxito.

O efeito colateral do sucesso, via de regra, é a arrogância. A elevada autoestima subverte a

lógica fazendo parecer que o mundo planta bananeiras enquanto o herói de si mesmo caminha

célere.



Na altura em que se inicia este relato o personagem Paulo está postado frente a

uma encruzilhada. Dessas conceituais, que surgem do dilema que todos vivemos, vez ou outra,

quando temos que optar por uma alternativa, desprezando outra de igual importância. Era um

bom dilema, diga-se, naquele caso. Ainda bastante jovem tinha conquistado considerável

patrimônio, arrancado em circunstâncias de extrema exposição aos riscos de morte e à

precariedade da subsistência, em local de pouco conforto, para a esposa e os dois filhos

pequenos. Portanto, não havia sido conquista fortuita ou fácil, muito embora fatores ocasionais

o tenham favorecido. A decisão se impunha, porém, ocasionada pelo fim antecipado de um

contrato fundamental, envolvendo as suas duas empresas.

Deveria seguir o conselho do pai: vender tudo e iniciar nova vida retornando ao sul

do país, em cidade desenvolvida, com condições financeiras muito favoráveis ou prosseguir

usufruindo da sua juventude para angariar mais riqueza?

Havia prosperado sob tensas condições, como já se disse. O que ainda não foi

dito é que exercia, a um só tempo, duas funções: a de médico e piloto.

Resgatemos o Paulo daquela encruzilhada, não para interferir na sua decisão,

mas para segui-lo pelo caminho do mau senso para o qual apontou a sua prepotência.

Que não se diga que ele não pesquisou, que não teve a pachorra de ouvir

opiniões acerca do seu projeto. Isso fez. Mas não há de se esperar respostas louváveis para

ideias desprezíveis. Qual a ideia? Construir um pequeno hospital em pista de garimpo no

centro de uma extensa região aurífera. Acessível apenas por pequenos aviões, que claro,

apenas através deles se permitiria erigir o prédio do nosocômio. Alguns já diziam à boca

pequena, sem que o Paulo ouvisse: “nosocômico.”

Vamos à resposta do primeiro pesquisado. Ribeiro, piloto e empresário que havia
Bico-jato

trazido da Venezuela a rústica tecnologia, do chamado bico-jato. Trata-se de uma bomba

acionada por motor estacionário que faz jorrar com enorme pressão, por uma mangueira de

grande diâmetro, potente fluxo de água do.leito do rio visando ocasionar o desmoronamento

dos barrancos onde, previamente, pesquisas tenham identificado quantidades viáveis de ouro

em pó. Não seria ele, um empreendedor daquele mundo atípico, alguém adequado para ser

ouvido? Pois bem.

Fez cara de paisagem quando ouviu o projeto do hospital. Pela fisionomia não

iria se extrair nada. Mas foi eloquente ao contar uma história que, segundo ele, serviria de

resposta como uma luva. Eis o que contou: um industrial italiano na pretensão de expandir a

sua indústria de calçados imaginou que a África Central seria o local que deveria pesquisar.

Para tanto enviou dois funcionários: um otimista e outro pessimista. O otimista retornou após

um mês com irreprimível euforia: lá é sucesso garantido, pois não observei ninguém usando

calçados. Na sequência voltou, também após estadia africana de um mês, o pessimista. Disse

ele: esqueça patrão. Lá ninguém usa calçado.

O Ribeiro, com essa história fez lembrar o Caetano Veloso, que se perguntado responderia: vai

ser um sucesso estrondoso. Ou não.

Outro piloto antigo da região, respeitado pelas opiniões taxativas e desapego

pelos garimpeiros, quando indagado pelo Paulo e confrontado com o enorme valor a ser

investido no projeto, torceu o semblante em desfeita e disse, lacônico: não se coloca argola de

ouro em focinho de porco.

Confrontado com tais despropósitos opinativos o Paulo assoberbou-se ainda

mais e deu início à construção do primeiro, único e último hospital dos garimpos da Amazônia.

Cessna Skywagon
Foram quarenta e nove voos com um Cessna Skywagon. Cimento, telhas, madeiras e tudo o

mais que necessita uma construção de quatrocentos metros quadrados foi levado:

equipamentos, pedreiros e que tais. Ao final, médicos, bioquímico, enfermeiros, cozinheira,

pessoal da limpeza. Outros voos de manutenção, diários, com um Piper Corisco, mais

econômico, garantiam o suprimento da cozinha, do óleo diesel para o motor do grupo gerador

que fornecia a eletricidade, do material de limpeza, de todo o medicamento para a reposição do

consumo intenso ocasionado por surtos incessantes de malária.

Construído a um custo várias vezes superior ao estimado, o hospital

funcionava a pleno vapor. Findada a epopéia foi que se passou a enxergar o que a

grandiosidade do desafio ocultava: o custo operacional era absurdo e impraticável.

A soberba, além do mais, subestimara os riscos. Da violência que ali campeava

até não, havia respeito incomum por quem visava promover a saúde. Mas sim da incidência

democrática da malária, que infectava também os que dela tratavam.

Ainda assim, o ineditismo daquele empreendimento ousou salvar vidas, com

cirurgias até, naquele curto espaço de tempo no qual conseguiu se manter no avesso da lógica.

Ao legado do fracasso, porém, que deixou um monumento de quatrocentos metros quadrados

em homenagem ao mau senso, não se acresceu nenhum elogio à moral, já que em nome da

assistência médica se visava, antes de tudo, o lucro.

O jovem Paulo de então envelheceu, como ocorre com todos que não se lhes

antecipa a morte. Foi acolhido pelo mesmo sul daquela encruzilhada. Agora falido. Submeteu-

se aos plantões ombreando com colegas bem mais jovens e convencido de que o médico tem

por missão servir e não lucrar.

Enfim, o bom senso.
Paulo Tadeu Poli, Autor de Circunvolucionando. 

terça-feira, 14 de março de 2017

Iluminuras - André Ramos e Daniel Barros (08/07/16)



Engenheiro agrônomo de formação, Daniel Barros é policial civil há 18 anos. E é da profissão que ele colhe boa parte das histórias que estão em seus romances, contos e poemas. A obra mais recente, lançada no ano passado, é “Mar de pedras”.

“É a história de um fotógrafo que vive numa ilha paradisíaca no interior de Alagoas e que viaja muito a trabalho. Essa ilha tem uma vila de pescadores e as casas de veraneio dos poderosos. E, por ser muito ligado à comunidade, ele causa certo ciúme nos poderosos, que têm medo que ele se torne político”, revela.

No segundo bloco do programa, a conversa é com André Ramos, professor e procurador federal da Advocacia-Geral da União. Doutor em Direito Empresarial, ele elenca os escritores que mais admira e detalha alguns dos livros que publicou.


“São oito ou nove lançados. E o principal deles é ‘Direito empresarial esquematizado’. É como se fosse um manual, um livro basicamente para estudantes de graduação e para aqueles que estão se preparando para provas, exames, concursos. Faz um resumo de toda a matéria”, explica.








domingo, 12 de março de 2017

Enterro sem defunto (romance policial) - Fernanda Suhet

Quantas voltas uma vida pode dar antes que alguém encontre o seu destino? E se pode chamar de Destino a injustiça que se interpõe entre a felicidade de duas pessoas? 
Depois do sucesso de seu livro de estreia - 'O Sorriso da Cachorra' -, Daniel Barros expande agora o universo das relações humanas e nos brinda com este eletrizante romance policial. Seguindo uma estética não-linear, que simula o real funcionamento da mente humana, presente e passado se mesclam e interpenetram todo tempo e lançam sobre o leitor, sem qualquer pudor, perguntas que perpassam desde o universo privado da sexualidade de um casal apaixonado até a complexa realidade jurídica de um país lentamente corroído pelo tráfico de drogas e pela corrupção. 
Ler editora - 2015
Quem é o policial que caminha nas ruas e tenta honestamente reprimir o tráfico de drogas? Uma mera engrenagem na máquina judicial ou um ser humano que passa por cima do mais básico dos instintos - o de sobrevivência - para realizar seu trabalho? E quem é Alcides? Um personagem irreal ou uma síntese de todos aqueles policiais que Daniel Barros conheceu ao longo de sua vida? Quem é Catarina? Uma promotora ficcional ou a síntese do moderno conflito entre vida pessoal e vida profissional que permeia o cotidiano das mulheres?
Partindo da premissa de que o óbvio nem sempre é aquilo que está explicitado, tente você, leitor, responder a estas e a outras perguntas que esse livro te fará.
Fernanda Suhet
Fernanda Suhet
Escritora e psicanalista 










sexta-feira, 10 de março de 2017

Convite Lançamento: Menino de Deus. Terça, 14 de março às 19h - 22h

“Se você se aborrece escrevendo, o leitor se aborrece lendo”
Gabriel García Márquez


Ao escrever Menino de Deus, Lindoberto Ribeiro o fez com deleite. Capítulos curtos e enxutos nos proporcionam grande prazer a cada página, além de nos levar ao clássico do gênero. Encontramos no arcabouço narrativo de Menino de Deus a presença do crime, da investigação e do malfeito, que são a base do gênero policial, sem perder o foco na elucidação do crime, tornando o delito algo não compensatório.  Isto é o que define o clássico do gênero policial.

S. S. Van Dine
S. S. Van Dine nos propõe 20 regras para se escrever um bom romance policial. Ribeiro nos brinda, em seu romance, com algumas delas:

O leitor deve ter oportunidade igual, comparada à do detetive, de solucionar o mistério. As pistas devem ser claramente descritas e enunciadas; nenhum truque ou tapeação proposital deve ser utilizado pelo autor, senão os que tenham sido legitimamente empregados pelo criminoso, contra o detetive; o culpado deve ser encontrado mediante deduções lógicas e não por acidente, coincidência ou confissões, à qual não tenha sido levado forçosamente.


Entretanto, Ribeiro diverge de algumas, como a que diz: “É preciso que haja apenas um detetive”, regra de que também discordo, pois Nestor Garcia e Branco Júnior, tais quais Watson e Holmes, Hastings e Poirot, entre outros, se completam e dão maior dinamismo à trama. Em Menino de Deus, Nestor e Branco, os detetives particulares, contam com uma equipe de auxiliares especialistas e ainda com uma rede de informantes e colaboradores dentro dos órgãos de segurança estatal.

Em Menino de Deus, a agência de Nestor e Branco, situada na cidade do Rio de Janeiro, é contratada por um milionário americano para descobrir o paradeiro de seu filho James e sua ex-esposa Ketlen que, após se converter a uma seita religiosa, se divorcia de Mr. Jhonson, o milionário, e passa a morar com o filho em uma das colônias da seita, ainda nos Estados Unidos. Entretanto, depois de desigual luta nos tribunais norte-americanos, Ketlen perde a guarda do filho para Mr. Jhonson e foge de forma misteriosa para o Brasil, via Uruguai. Após aceitarem o caso, Nestor e Branco passam a se sentir pressionados, pois pulam dos casos corriqueiros de traições extraconjugais para um de dimensões internacionais. Para aumentar o drama, logo depois de assumirem o trabalho, passam a ser seguidos por um Opala Comodoro de cor preta, fato que deixa os detetives apreensivos.

A trama narrada assume proporções nunca imaginadas pelos detetives, com o envolvimento da Polícia Estadual carioca, Polícia Federal, FBI e até mesmo a CIA, e faz com que os detetives Nestor e Branco, e seus auxiliares, usem de todos os escassos recursos, aliados a perspicácia original do brasileiro, para solucionar o mistério do Menino de Deus.

Uma novela policial, que, com certeza, não aborrecerá o leitor.
Boa leitura.


Daniel Barros
Escritor pós-graduado em segurança pública.




quarta-feira, 8 de março de 2017

Recado Capital - Paulo Tadeu Poli

RECADO CAPITAL
Qualquer recado é pequeno, pois encerra poucas palavras. Se agiganta, porém, caso a breve mensagem seja capital. 



             Era tratado por Batata, não pela obviedade do fato de ser baixo e gordo, até porque, quando lhe impingiram o apelido, era ainda bem magro. Depois engordou e tomou a silhueta do tubérculo. Mesmo assim sempre prevaleceu a razão primeira da alcunha: o cheiro. Não o cheiro da batata fresca e própria para o consumo, que mal se nota, mas daquela apodrecida, da qual se quer ficar longe. Assim, quando o observador avistava o baixo e redondo piloto a considerável distância, a razão principal do apelido se prendia à forma. Um pouco mais próximo, ao odor. Bem próximo, não há registro de testemunhas.
             O Batata tinha horror à água. O último banho que tomou, segundo o seu próprio relato, foi quando o seu Cessna Skylane sofreu pane na decolagem de uma pista de garimpo. Isso ocorreu porque o avião havia pernoitado ali, fora do hangar, e chovido muito. Com isso a água da tempestade invadiu os tanques - aviões têm mais de um - que ele, o Batata, esqueceu de drenar antes da decolagem.
             
Cessna Skylane
O Cessna recém-decolado tossiu, tossiu e apagou. Em frente o caudaloso rio Teles Pires, que se transformou, naquele instante, em pista de pouso. Ali ele mergulhou.
              Não sofreu, o Batata, um arranhão sequer. Porém passou muito tempo amaldiçoando a mesma água que sempre detestou. Naquela ocasião poupara a sua vida, mas levara o seu avião e, além do mais, por culpa dela mesma que não deveria ter entrado nos tanques de combustível.
               Agora, alguns anos o afastavam desse mergulho, ou do seu último banho, como preferirem. Estava sentado no barranco de um outro rio, do Crepori, um dos vários afluentes do imponente rio Tapajós. À sombra de uma imensa castanheira e envolto por nuvens de mosquitos. Na outra cabeceira dessa pista de garimpo estava o seu novo Cessna Skylane, que adquirira depois de muita luta, voando como empregado, com o pescoço a prêmio, considerados os elevados riscos envolvidos nessa atividade.
                 Têm dias que se pede para esquecer. Esse, com certeza, ainda mais do que o dia do mergulho foi para o Batata tão execrável que se desdobrou em outros e, todos, absolutamente descartáveis.
                  Ao nascer do sol havia decolado da pista do Marupá que também, a exemplo dessa que agora se encontra, fazia parte de um conjunto de pistas de garimpo, relativamente próximas, que surgiram para abastecer centenas de equipes de garimpeiros, em vários locais, de uma extensa região aurífera. Do Marupá pousou em várias dessas pistas entregando encomendas.
                   Cumpria uma rotina, portanto, não atentava muito para detalhes. Estava ansioso para chegar em Alta Floresta, na cidade sede no Mato Grosso de onde partiam grande parte dos aviões que abasteciam aqueles garimpos. Nesse dia seria comemorado o aniversário de um dos colegas. Muita farra e cervejada o aguardavam.
                     Descarregado por completo o avião e cumprido o último compromisso decolou leve, livre e solto para a civilização. Assim, os pilotos, designavam qualquer cidade. 
                     
Céu de brigadeiro, fim de tarde, talvez até escurecesse antes de chegar, mas conhecia muito bem toda a região e isso não seria problema. Os olhos corriam em varredura os inúmeros instrumentos do painel, isso era medular, fazia sem perceber, já tinha um tempo considerável de voo quando percebeu, numa dessas olhadas, que os indicadores de combustível acusavam o limite mínimo em ambos os tanques. Gelou. Deveria ter feito um desvio de rota, como havia planejado desde o amanhecer, pousado em Santa Júlia,  abastecido lá e depois prosseguido para o destino final. Esquecera completamente disso, no afã de se encontrar com os amigos na festança.
                     A alternativa é a amante dos pilotos, principalmente os de garimpo. O Batata era muito experiente e como não existia GPS decorava todos os acidentes geográficos de todas as suas rotas habituais. Cada detalhe, curvas dos rios e riachos, coloração das matas, desmatamentos e que tais. Num estalo calculou a nova proa que deveria adotar para alcançar, com aquele escasso combustível, a única possibilidade de salvação, a pista abandonada do Ermélio. Apenas ela a sua autonomia poderia permitir. 
                      Chegou em instantes na alternativa. Com o abandono,  uma nova vegetação, composta principalmente por embaúbas,  havia tomado parte da pista. Mas estava leve e era muito hábil. Pousou assim mesmo. Sem maiores problemas.
                       Agora estava ali. Sentado na barranca do rio e tendo que tomar água, coisa que detestava. O seu estoque de cerveja, que sempre carregava no avião, já era.
                       Ficava o tempo todo agredindo a si mesmo com muitos tapas, a impressão que tinha era a de que estaria a ocorrer ali um congresso internacional de mosquitos. E, os mosquitos, pareciam ter certeza de que se tratava de uma lavoura de batatas em decomposição. 
Rio  Crepori

                       Em instantes escureceu.
                       O Cessna Centurion é maior e bem mais potente do que o Skylane. Ao decolar, quando se utiliza a potência máxima, produz um som típico que provém do resultado de uma somatória de fatores, tornando aquele alto zumbido uma exclusividade. Muito bonito segundo a unanimidade dos pilotos.
                        Já tendo anoitecido, aquele som longínquo e característico, só poderia ser do avião do Ameba, concluiu o Batata.
                         Era Ameba por duas razões. Ou melhor: por uma razão e um desarrazoado.
A razão, pelo fato de que o seu nome era daqueles que desde o batismo aguardam por um apelido. Era impronunciável, por ter sido fruto da junção do nome dos pais e possivelmente dos irmãos. Quanto ao desarrazoado se exige explicação mais ampla. 
                         Quando chegou em Alta Floresta se apresentando aos colegas pilotos com um palavrão como nome, causou espanto. Entretanto, nada poderia parecer mais gritante do que a sua extrema magreza. De perfil parecia um barbante, dos finos. Magreza semi-esquelética. Virou missão, entre os pilotos, descobrir se ele comia. Decorridas algumas semanas sem que ninguém tivesse assistido a uma mastigação sequer do investigado, concluiu-se que ele não comia.
                         A partir desse fato, gerou-se discussões, que culminaram com o desarrazoado componente do apelido.
                         Ao se debater o fato sobre-humano dele não se alimentar, claro, sobrevinham controvérsias. Um dos contendores, que se opunha à teoria aceita pela maioria, afirmava que isso, a tese de que ele não comia, era impossível. Que ninguém poderia sobreviver só com bebidas e que maconha não alimenta e, além do mais, dá uma fome incontrolável. Replicava que não existe ser vivo que não se alimente, mesmo os microscópicos. Portanto, concluía: o magrela come em casa, de madrugada, quando ninguém vê. As amebas comem, do jeito delas, por fagocitose ou o que seja, mas comem. Alguém aqui já viu uma ameba comendo?
Essa pergunta selou a discussão e tatuou na testa do piloto recém - chegado, o desarrazoado apelido: Ameba.
                          Ele próprio adotou a esquisita alcunha e se apresentava como tal, após alguns anos.
                          Pois bem, esse distinto jovem acabara de decolar da pista do Goiano, distante uns vinte minutos de voo da pista abandonada do Crepori, onde estava o Batata e mais da metade dos mosquitos do mundo.
                           Fazia isso, volta e meia, o Ameba: decolava no início da noite e pousava em Alta Floresta através da ajuda de funcionários da sua agência de táxi - aéreo, que de antemão prevenidos, iam ao aeroporto iluminar a pista com os faróis de vários carros. Fazia assim porque não conseguia levantar cedo e dessa forma usava um pedaço da noite.
                           
O Batata conhecia tudo e todos. Sabia que o Ameba decolara do Goiano e o tempo preciso no qual tangenciaria o local em que estava. Correu carregando pista acima o seu considerável sobrepeso, entrou no avião e acionou o motor. Nas aeronaves ao se ligar o Master - chave geral - aciona-se todos os equipamentos do painel. O consumo da carga da bateria com o motor da aeronave desligado é proibitivo, dura cinco minutos. Portanto tem que falar ao rádio com o avião funcionando e queimando combustível. Deixou para ligar apenas quando avistou, na rota prevista, as luzes das pontas das asas do Centurion. Ainda assim demandou um tempo considerável até que fosse ouvido pelo colega.
                            - Lima Quebec Mike - LQM o prefixo do Cessna do Ameba - na escuta?
                            - Afirmativo, prossiga colega.
                            - Ameba, aqui é o Batata, esqueci de abastecer no Santa Júlia e alternei a pista do Ermélio. Preciso que você avise o meu pessoal em Alta Floresta para que me socorram com combustível ao clarear do dia.
                             - Mensagem recebida cinco por cinco com som alto e claro. O recado será transmitido tão logo chegue ao destino.
                             - Muito obrigado Ameba.
                            O Batata trancafiou-se no avião para poder dormir com apenas algumas centenas de mosquitos e com um calor senegalês.
                             O Ameba pousou no destino conforme o previsto e recebeu, de imediato, dos funcionários da agência, uma bela notícia: naquele dia haviam conseguido a aprovação do financiamento de um bimotor, que pleiteavam há muito tempo e esse seria o avião novo que o Ameba iria voar. Saíram do aeroporto em disparada para o bar, comemorações mil. Batata, que Batata?
                             O dia clareou, pássaros incontáveis alardeando a aurora, mosquitos aos milhões entorpecidos com o sangue do Batata, curtido em muita cerveja, fugiam do sol e adentravam na mata.
                             Com a aparição do astro rei, impossível ficar dentro do avião. Voltou para a margem do rio à sombra de uma árvore e esperou, esperou, esperou…
                             Nada para comer, fome monumental. E nada de algum avião, nada, nenhum barulho próximo. 
                               Entardeceu, anoiteceu e nada... 
O estômago começou a doer, muito.
                               Os fundamentos da fisiologia humana, ou seja: os princípios que regulam as nossas funções vitais, são oriundos dos homens das cavernas. Vêm dos primórdios da nossa existência. Lá, na época das trevas, havia a necessidade da fuga momentânea e, para tanto, produzimos, ainda e sempre, a adrenalina, através das glândulas supra-renais. Esse hormônio - deveras conhecido - na dependência da quantidade promove várias transformações, quando lançados na circulação: aumenta a frequência cardíaca, para podermos dispor de potência para a luta ou para a fuga; faz com que as artérias de menor calibre, que irrigam a pele e outros órgãos não fundamentais para a sobrevivência, sejam estreitados ao máximo possível para que o maior volume de sangue vá para os órgãos vitais: coração, pulmões, etc. Por isso a palidez diante dos sustos. E, entre outros efeitos, faz com que a mucosa do estômago lance grandes quantidades de ácido clorídrico para digerir rapidamente maiores quantidades de alimentos; visando gerar energia frente à emergência. 
                               
O Batata estava, agora que escurecia, encostado, em pé, numa grande árvore. Encontrava-se em alerta máximo, pálido, sudoreico, salpicado de mosquitos e com a mão sobre o estômago em decorrência de forte dor. O ácido que visa digerir o bolo alimentar no estômago, na ausência de algum produto para ser digerido, corrói a própria mucosa. 
Baixo, gordo e com a mão sobre a barriga, em tudo lembrava o Napoleão Bonaparte.
                                 Ele queria ter certeza de que o Ameba não tivesse conseguido chegar ao destino; que na noite tivesse se perdido; ficado enroscado com o avião em alguma enorme castanheira. Só assim poderia perdoá-lo. Só se estivesse morto.
                                  Via pouquíssima chance de escapar daquela situação. Já vislumbrava a própria morte quando luzes piscantes dos spotlights de uma aeronave chamaram a sua atenção. Estava muito alto, quarenta mil pés ou mais. Era um jato comercial com a proa para Manaus, segundo calculou o Batata. Correu novamente em direção ao seu Skylane, torcendo para que ainda tivesse um pouco de combustível. Não tinha. Acionado, o motor não funcionou. Apelou gritando, desesperado, no rádio. Foi falando de qualquer jeito, repetindo a sua posição na frequência usada pela aviação comercial. Não obteve resposta alguma, a bateria ficou sem carga. Os spotlights, aos poucos foram desaparecendo na imensidão daquele céu infinito. 
Já não ligava mais para os mosquitos, os milhões deles, o calor tórrido, a imensa dor de estômago. Só pensava no Ameba. Nunca, em tempo algum, esse protozoário foi tão lembrado. Agora já não o perdoava nem que tivesse morrido.
                                    Nas regiões garimpeiras imperava a violência. A vida não tinha grande significado, sem lei, no meio da selva, era o salve-se quem puder. Os pilotos de garimpo eram respeitados pelos garimpeiros, simplesmente porque dependiam cotidianamente deles. Por essa razão raros pilotos andavam armados. Mas não o Batata. Na sua pasta carregava além dos mapas e apetrechos de navegação, um lustroso trinta e oito. Gostava de atirar em alvos. Durante a tarde matara um pássaro e o comera cru e mal depenado.
                                     O Ameba, ao contrário, era pacifista por excelência. Tinha horror às armas. Era vocacionado para o convencimento, demonstrava inteligência e cultura insuspeitas no dia a dia. Era sempre convidado para representar os pilotos nas ocasiões festivas da região; nessas oportunidades ofuscava os políticos com discursos bem elaborados. Além do mais possuía um vozeirão de barítono, impressionante.
                                       
Piper Cherokee
 Outro dia se apresenta. Pássaros que chegam e mosquitos que saem. Avião que chega. O quê? Como? O Batata acordou em condições físicas lastimáveis devido ao barulho de um Piper Cherokee. Viu o avião do seu sócio taxiando ao lado do seu.
                                          Ao ser socorrido, mal podendo andar pela imensa fraqueza, balbuciou apenas isso: o Ameba está vivo?
                                          Em Alta Floresta foi internado. Recuperou-se em dois dias. Reuniu a sua turma e caminhou célere para o pátio do aeroporto. O Ameba iria chegar de um voo em instantes.
                                           Não fosse o comandante daquele jato comercial ter captado a sua posição e transmitido a informação para o controle de Manaus, que por sua vez, havia passado as coordenadas geográficas  para vários pilotos de garimpo, ele, o Batata, estaria morto.
                                           Com a maleta na mão direita e dentro dela o trinta e oito, inclusive já engatilhado, olhava para a cabeceira da pista tentando identificar entre inúmeros aviões que pousavam e decolavam, o Centurion do Ameba.
                                        Todos assistiram ao pouso macio do Lima Quebec Mike. O Ameba taxiou, parou, desceu do avião e só depois, quando caminhava em direção à sede do aeroporto é que percebeu uma turma, de conhecidos pilotos, compondo uma barreira para bloquear o seu caminho. Estancou, olhou, e só daí viu o Batata. Caiu a ficha. Levou a mão à testa, mostrando com o gesto ter compreendido tudo o que ocorria.
                   O Batata avançou sozinho em sua direção, os demais permaneceram onde estavam. Ainda assim, distância era pequena entre todos. 
                    O zíper da pequena pasta foi aberto. A mão direita do Batata sumiu no seu interior. 
                     A mão direita do Ameba elevou-se sobre a  cabeça em sinal de espera.
                  Diante da surpresa, fazendo ressoar o seu vozeirão, improvisou.               Antes que me mate analise a seguinte evidência: esqueci de dar o recado que me pediu. Isso lhe trouxe seriíssimos transtornos, não é difícil imaginar. Entretanto, se tirar a minha vida por essa razão estará admitindo que na sequência deverá cometer o suicídio. Afinal, antes do meu pouco-caso pelo seu recado, houve o seu próprio desleixo, quando ao contrário do que poderia se esperar de um experiente piloto de garimpo, você cometeu o imperdoável erro de esquecer-se de abastecer o avião. Em suma: você esqueceu-se de abastecer e eu, apenas, de dar um recado. 
                                                O Ameba foi aplaudido por todos. Com urras e tudo o mais.
                                                O agora desalmado Batata retirou da pasta a mão direita. Agora desarmada.
PAULO TADEU POLI
Escritor

segunda-feira, 6 de março de 2017

Cartas à Karoliny - Andréia Pessoa

Um romance de uma simplicidade doce e singular,  tocante e com um efeito surpresa que vai embasbacar o leitor. Deixe -se levar pelos anos de 1950 na história de Edgar e Karolliny.

Teria sido Zaratrusta? - Alceu Brito Corrêa

Teria sido Zaratrusta?


Tal cão caído de uma mudança
fareja o ar na esperança de saber
de onde vem...
para onde deve ir...
buzinas, carros velozes
não ouvem seus gemidos!
Pessoas, muitas pessoas apressadas,
cheiros diversos desconhecidos,
sequer o olham
- tristes uivos sem qualquer resposta -
nenhuma carroça mais...

Na encruzilhada do Tempo
só ele passa, velho e alquebrado,
tenta, ainda num brado  – latidos perdidos -
parar alguém apressado que possa,
por um momento, ouvir seus lamentos
- histórias passadas...alegrias e sofrimentos –
ora perdidos na longa estrada percorrida
que sequer agora se recorda pra que lado fica...
Alceu Corrêa


sábado, 4 de março de 2017

Cartas à Karoliny - Andréia Pessoa

Um romance de uma simplicidade doce e singular, tocante e com um efeito surpresa que vai embasbacar o leitor. Deixe -se levar pelos anos de 1950 na história de Edgar e Karolliny.
 Andréia Pessoa

Mar de pedras - Fernando Py

TRIBUNA DE PETRÓPOLIS 
25 de maio de 2015 


Fernando Py
Alagoano, Daniel Barros mostrou-se um escritor criativo desde seu primeiro romance, O sorriso da cachorra, basicamente a história de amor dos jovens Patrícia e André, entremeada com as atividades político-partidária de ambos. Barros consegue superar-se no segundo, Enterro sem defunto, uma ficção policial. Nela é mostrado o trabalho do investigador, Alcides, que se ocupa com a perseguição e captura de traficantes. Daniel Barros conta a história de Alcides em vários planos narrativos, onde utiliza com acerto o flash-back, intercala as atividades de Alcides com o envolvimento com diversas mulheres. Apaixona-se por uma delas, a promotora Catarina, obrigada a fugir para não ser morta pelos maiorais do crime. Daniel Barros insiste na situação da corrupção geral porém, habilmente, deixa as coisas correrem para que o leitor as julgue.
Tribuna de Petrópolis
Agora, no terceiro romance, Mar de pedras, é narrada a história de Henry Melo, fotógrafo bastante competente que vive numa vila do interior de Alagoas, e é muito querido pelos habitantes. Como de costume, Barros intercala a narrativa com as aventuras amorosas de Henry, e elas acabam assumindo um papel preponderante no enredo, visto sob vários ângulos. A exemplo de Alcides, ele se apaixona por uma mulher bem jovem, a modelo Francesca, o que lhe confere uma visão nova de sua existência quando a moça engravida.
Thesaurus - 2015
Como personagem em si, Henry Melo é muito mais desenvolvido e detalhado que André e até mesmo Alcides. Mar de pedras é uma prova de que a ficção de Daniel Barros está em contínuo progresso e desperta interesse maior a cada página. 

 Fernando Py



quinta-feira, 2 de março de 2017

Amor de Infância - Uiara Melo

Amor de Infância
Publicado no livro Antologias de Poetas brasileiros volume 131

Entre prateleiras e vielas,
te encontrei.
Estava tão diferente desde
a última vez que tomamos sorvete.
Sorvete este, que no meu auge
cinquentenário, guardo comigo
o pequeno guardanapo.

Guardanapo este, que me foi dado
para limpar o granulado.
Granulado este, que estava perdido no canto dos meus lábios.
Ah! - um suspiro apaixonado.
Paixão, tema de um livro
na prateleira da Bienal do Rio.
Oh! - que susto levei,
quando em você esbarrei na fila do "hall".
Ah, eu sorri para ti e meu
coração fez "tim-tim".
O quê, quase não te reconheci?!
Nunca te esqueci desde
a primeira vez que te vi,
lá no meu jardim.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

10% - Raick Tavares

10%


           
Raick Tavares
Norma impaciente mexia em seu cabelo preto e balançava o corpo feito uma gangorra. Já havia quase uma hora que estava na fila de autógrafos do seu autor nacional preferido. Suas pernas formigavam e ela estava super hiper apertada para ir ao banheiro. 
              “Ai, o que a gente não faz por um autógrafo. Esse Raick é um gato” ela jogou uma mecha do cabelo para trás da orelha. 
             Ela queria muito aquela assinatura, como qualquer leitora apaixonada, tinha que ficar.  Já estava quase na sua vez. 
             Norma ao ver que já estava quase frente a frente daquele que ela tanto admirava, pensou que ia desmaiar ou dar um treco. Antes de aproximar, se beliscou. 
             A assistente do autor sinalizou para a garota, fazendo ela sair do seu transe. Ela se aproximou com um sorrisão bobo em cada ponta da orelha.   
             — Olá, qual seu nome? — Ele perguntou esticando a mão para pegar o livro. 
             — É...  — Ela estava estática. 
             — É? 
             — Ah, Norma Militão. 
             Raick meneou a cabeça e prendeu um sorriso assinando o livro.  Ele olhou para Norma com simpatia.
             — Você quer uma foto também? 
             — Sim, sim, sim, quero! — Ela respondeu ainda meio boba. 
             Ele se levantou arrumando o blazer vermelho e se posicionou ao lado da garota, que toda atrapalhada tirou o seu smartphone do jeans. 
             Norma entregou o celular para assistente e fez uma pose segurando o livro. Raick abriu um sorriso meio torto e a foto saiu. 
             O autor a abraçou e estava pronto para o próximo da fila quando a curiosidade de Norma a fez virar e fazer a célebre pergunta: 
             — Um escritor ganha muito no livro, né?
             — Se 10 % for muito...  — o autor respondeu com um sorrisinho sarcástico.
             A garota coçou sua nunca, olhou para os dedos, contou e não satisfeita prosseguiu: 
           — Mas só isso!? E como cê paga as contas?
             — Aí eu tenho que rebolar...  
             — Ah tá... — Ela suspirou.
             Norma abraçou o livro decepcionada, abaixou sua cabeça e deu espaço para o próximo da fila passar. 

Raick Tavares nasceu em 1992 em João Pinheiro - MG. Radialista há dez anos, palestrante, colunista e idealizador do projeto podcast Um Livro C/ Café.  Atualmente mora na cidade de Paracatu – MG, com a esposa.


sábado, 25 de fevereiro de 2017

Galo da Madrugada - Daniel Barros*







      Acordar cedo com uma leve ressaca, para acompanhar o galo. Levanta, toma um bom café, e se prepara, nada de relógio, cordão de ouro, carteira... apenas dinheiro espalhado em vários bolsos, identidade no compartimento interno da bermuda. Assim, quase “nu”, comete os primeiros desatinos do dia. Não passar protetor solar, por não gostar do cheiro, nem usa chapéu, pela preocupação de perdê-lo.
      O clube carnavalesco GALO DA MADRUGADA surgiu em 1978, na Rua Padre Floriano nº 43, bairro de São José, Recife, capital de Pernambuco, criado por Enéas Freire. Em 1995 foi oficialmente considerado o maior bloco de carnaval do mundo pelo Guinness book, livro dos recordes. O clube dos mascarados Galo da Madrugada atingiu, em 2011, um milhão e setecentas mil pessoas. De lá para cá, não para de crescer. Em 2012, dois milhões. Este ano estima-se que acompanharam, pelas ruas do centro de Recife, cerca de 2,5 milhões de foliões. 
      O sol matutino do Nordeste do Brasil já o fez arrepender-se dos desvarios cometidos, um deles, esquecer o protetor solar. Apesar de ser avesso a corridas (Cooper), inicia seu carnaval correndo, pois precisa chegar à Frevioca — onde as melhores músicas eram cantadas — que está à frente no bloco. Quase na metade da corrida, uma pequena parada, ôba! Uma cerveja, latão a três e cinquenta centavos, ótimo preço. Mais outro “corridão”, e agora o que o aflige é o medo de não encontrar banheiro, o que fazer? Sem beber não dá, sem ter onde se aliviar, lascou!
      Indubitavelmente o maior bloco do mundo. E será difícil ser batido um dia, a não ser que haja uma drástica redução da população recifense. A alegria do frevo é contagiante: impossível ficar parado. Popular e democrático, pois ao menor sinal de mudança no ritmo pernambucano, os foliões protestam até a volta dos ritmos tradicionais. O maior bloco de carnaval do mundo também poderia ser o maior bloco gay do planeta! (Duvido haver concentração semelhante em qualquer outra parte.) Que meus amigos pernambucanos não fiquem com mágoa de mim, mesmo porque tal convívio só demonstra o espírito de respeito à diversidade desse povo magnífico, de uma cultura esplêndida e tão diversa na riqueza de ritmos e imagens, o que ressalta a tradição e alegria pernambucana.
      Todos os anos, um notável esquema de segurança é montado, com policiais dispostos ao longo de todo o trajeto. Acompanha-se a Frevioca na mais tranquila paz, até o final do desfile. Quando os primeiros blocos já estão dispersos, para-se para tomar uma cerveja. É aí que, de repente, abre-se no meio dos foliões um espaço e as pessoas começam a correr. Típico de início de briga. Homens, mulheres, velhos e crianças buscam um lugar seguro. Entretanto, para o bem dos foliões, surgem vários homens com bonés cor de laranja, a Polícia Militar, que trajam tais bonés para serem mais bem identificados no meio da multidão. Delinquentes iniciam uma tentativa de arrastão, como é característico dessa corja de marginais, covardes e oportunistas, correm da polícia, justamente em direção à população ordeira, causando ainda mais medo a todos.
      E para não perder o costume — contrariando o poeta João Carlos Taveira e o professor Ático Villa boas, que sonham com o dia em que eu abandone as armas para me dedicar inteiramente às letras, como fez Ruben Fonseca — ou até mesmo pelo instinto profissional, sinto-me compelido a algo fazer, mas o quê? Como foi dito, estava “nu”, totalmente desprovido de qualquer instrumento de trabalho para devida intervenção. Como ajudar, sem por em risco a própria vida e a das pessoas que estavam ao lado? Nisso, vendo a aproximação dos policiais, escolhi um dos marginais que corria na frente. Súbito, desferi um chute certeiro na canela dele, que titubeou e caiu um pouco mais adiante, sendo agarrado pelos policiais que vinham logo atrás. Vendo isso, um “marinheiro”, pois assim estava fantasiado um brincante ao lado, sujeito baixo de rosto redondo e faces suadas, aproveita o descuido de outro pulha e o pega pelo pescoço, entregando-o à polícia. Logo começam os aplausos de apoio e agradecimento àqueles homens e mulheres, cabeças laranja, que com suas honradas ações, permitem que se brinque o carnaval com paz e tranquilidade. Assim, Pernambuco tem não só o maior e mais belo carnaval do Brasil, e também o mais seguro e prazeroso.

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Daniel Barros, escritor alagoano, reside em Brasília.